Lalá

Alguns diziam que ela levava alegria por onde passava. Acredito que a maior parte das pessoas se irritavam, inclusive as que a chamavam de alegria. Porque Lalá chegava literalmente gritando. Ela gritava, corria, beijava, abraçava, ria, fazia tudo alto e de maneira espalhafatosa, como uma criança. Ela convencia tanto com esses gestos, que eu só fui ter real dimensão da idade da Lalá quando ela me revelou a data de nascimento, e percebi que é a mesma idade da minha mãe. Não que não dê pra perceber que existe uma vovó ali, olhando o seu rosto. Mas o seu corpo durinho, magro e bem cuidado de quem cavalgava pelo interior do Rio Grande, dançou ballet nos Estados Unidos, fez apresentações de patinação artística e hoje joga tênis, deixavam-na em algum lugar indeterminado- mais jovem e ativa do que a turma que deveria ser a dela, mais velha do que a maneira como se vê. Quando Lalá começou a costurar e mostrar para todos o seu trabalho, uma mudança estava em curso. Uma mudança tão sutil quanto os próprios acabamentos das costuras, que foram ficando cada vez mais caprichados e complexos. Embora continue espalhafatosa, reparando bem, ela parou de gritar. A mulher que estava por baixo, que pra falar sério precisava ser praticamente invocada, está mais fácil de acessar. Sentamos para conversar com um pouco mais de tempo e Lalá me contou que o marido dela fez uma besteira financeira muito grande. Algo que só de pensar a mata de raiva. E uma mulher como ela, que sempre teve de tudo, às portas de fazer sessenta anos, tem que vender costuras pra pagar o que a mantém feliz.