Corrigindo à exaustão

Eu escrevi um troço aí. Terminei no fim do ano, quase no réveillon. Mandei pra um amigo – que me pediu expressamente para nunca ter seu nome divulgado, com medo de ter que repetir o gesto – que se deu ao trabalho de corrigir com minúcia. Aquela minúcia cruel, de dizer de verdade o que está ruim. Eu entendi o gesto e vi nisso uma prova de confiança e amizade imensas. Uma vez um outro amigo me pediu para ler um texto dele e eu sei o quanto sofri para levantar uma única objeção. Aí, depois do que o meu amigo corrigiu, modifiquei toda estrutura – cortei capítulos inteiros, excluí trechos, remanejei a apresentação dos fatos. Achei que tinha ficado redondinho, pronto para ser publicado e o novo best seller mundial.

 

Obs 1: Vi uma vez um gráfico de expectativas de alunos de pós-graduação. Era mais ao menos assim: começava com o aluno imaginado que vai ganhar o prêmio Nobel, depois ele acha que vai virar livro, que vai virar artigo numa importante revista internacional, depois que vire artigo em algum lugar e no último item se ele conseguir terminar de escrever está bom. Tentar escrever um livro é a mesma coisa.

 

Agora, quase um ano depois, tive a coragem de reler. Para corrigir uma ou outra coisinha, problemas de concordância e uns plurais que eu sabia que haviam escapado. Aí sim, ele estaria pronto para ser publicado. Resultado: estou reescrevendo tudo. Meu sentimento ao reler cada parágrafo é este:

 

Cada trecho é um desgosto, um xingão, uma pergunta de como posso ser tão ruim. Aí saio, inconformada, tomo um ar, me acalmo, releio, fico nervosa de novo. Vou no computador, apago uma frase, levo um tempo e mudo uma palavra, mais um tempo e a frase que está embaixo vai pra cima… Tenho achado tudo muito redundante, chato, quem é que leria uma merda dessas? Devo ter levado um mês para terminar de corrigir o capítulo 1. Inicialmente ele tinha quatro páginas, agora está com três páginas e um parágrafo.

 

Obs 2: Percebam que a cada correção o arquivo fica menor. Escrever Guerra e Paz nem pensar. O Grande Gatsby, um conto borgeano? Acho que no final do processo terei conseguido bolar um tuíte.

 

Como não sei se um dia na vida conseguirei terminar o que estou escrevendo e muito menos publicar, e sei que essas minhas queixas soam abstratas pra quem nunca tentou escrever, decidi colar um trecho de Antes e Depois da correção. Só pra vocês entenderem um pouquinho o que Capote quis dizer quando contou que “um belo dia, comecei a escrever, sem saber que me acorrentara para o resto da vida a um amo nobre mas impiedoso. Deus, quando nos dá um talento, também nos entrega um chicote, a ser usado especialmente na autoflagelação” (Música para Camaleões). Não sei ainda se cheguei na forma definitiva, mas as diferenças falarão por si.

Como era:

O telefonema foi um convite a retomar antigas ambições e a primeira sensação foi de desconforto. Susana estava frustrada, sim, mas estava acostumada. Ela havia criado teorias e defesas que garantiam a tranquilidade do seu dia a dia. Bastava não pedir mais do que já tinha. Retirar essas barreiras para, mais uma vez, ver os seus sonhos não darem em nada seria doloroso. Ela não era mais tão jovem pra fracassar. Ao mesmo tempo. Susana não se sentia  capaz de assumir o seu comodismo a ponto de dizer não a uma chance. Seria embaraçoso demais ter que assumir sua covardia em voz alta. Ela precisaria arranjar uma boa justificativa para Josiane e principalmente para si mesma, para explicar no que um emprego estável num jornal que ninguém lê a impedia de se lançar num novo projeto. O empurrão de César que levou Susana a aceitar, quando se entusiasmou e disse que qualquer oportunidade era melhor que seu emprego atual. Se fosse o caso, ele a sustentaria até achar outro emprego, se o Quatro Um não desse certo.

 

Como ficou:
As grandes mudanças da vida, ao contrário do que aparece nos filmes, nunca chegam acompanhadas de uma luz ou música especial. Susana estava almoçando no shopping com o marido e as conversas e talheres quase não a deixavam ouvir quando Josiane lhe telefonou. Enquanto ouvia falar de oportunidade, emprego, novidade, internet e inovação, a primeira sensação de Susana foi de desconforto. Havia ali um convite para retomar suas antigas ambições, o que evidenciava o quanto ela havia se acostumado ao pouco que tinha. Frustrada sim, mas tranquila – bastava não pedir da vida nada diferente, não querer voar alto demais. Retirar essas barreiras para, mais uma vez, ver os seus sonhos não darem em nada seria doloroso. Ela não era mais uma recém formada, não se sentia mais tão jovem pra fracassar e recomeçar. Quem se entusiasmou e abraçou a ideia logo de cara foi César. O jornal impresso estava acabando, a internet já não era nem mais o futuro e sim o presente, ela cresceria junto com o site. Caso o Quatro Um fracassasse, ele lhe daria suporte financeiro. Aquela oportunidade era mesmo um presente, ele tinha razão. O comodismo e os receios de Susana era tão injustificáveis que ela não teve coragem nem de colocá-los em voz alta.

Li em algum lugar que um livro nunca fica pronto, e sim que o escritor cansa de corrigir. Também faz sentido. Para publicar este post, corrigi o trecho corrigido mais três vezes.

Caderno de citações

Eu tenho caderno de citações porque não grifo livros. E, mesmo se o fizesse, leio muitos livros da biblioteca. Então a vontade de ter certas coisas guardadas me obriga a anotá-las. Tenho trechos enormes de várias obras, assim como alguns livros não mereceram um risquinho. É interessante folhear o meu caderno e ver registradas neles as minhas mudanças de interesse, as coisas que me chamavam atenção, que livros e em que ordem que eu os li. Nem tudo que está anotado faz sentido e com algumas coisas nem eu concordo – mas estão lá porque me encantaram de alguma forma, porque sua escrita me disse algo. É através do meu caderno que vejo que sempre gostei de alternar a leitura, principalmente com dois livros – alternei entre Os miseráveis com A insustentável leveza do ser, Rumo à estação Finlância com Orientalismo. Já as anotações de O Tempo e o Vento são mais contínuas, o que demonstra que eu estive bastante absorvida na leitura. Guimarães Rosa é de um jeito que sou obrigada a ler com o caderno do lado, de tanto que eu paro e anoto. O primeiro caderno está cheio de citações de psicologia e muito misticismo. Este segundo, que está no fim, tem muita coisa de sociologia. É como se fosse um diário, feito de frases de efeitos dos outros.

A última anotação que eu fiz (até agora) foi:

Para uma criança a cidade é um lugar sem alegrias. Mais tarde, quando se é mais velho e se está apaixonado, é a dupla visão de compartilhar que dá à experiência textura, forma e significação. Viajar sozinho é percorrer terras devastadas. Mas quando se ama o bastante, às vezes é possível ver por si mesmo e por mais alguém também. Foi assim também com Selma. Eu via tudo duplamente: a primeira neve, os patinadores deslizando no parque, os belos casacos de pele de meninos alegres e friorentos, a montanha russa em Coney Island, máquinas de chiclete nos subterrâneos, o mágico restaurante automático, as ilhas do rio e o brilho das pontes no crepúsculo, os sons de uma banda subindo no ar azul, o homem que todo dia no pátio cantava as mesmas canções foufentas e dissonantes, o conto de fadas de uma lojinha de dez cents onde se passava depois da escola para furtar coisas.

Trumam Capote/ Os cães ladram

Capote e ex-amigos

Capote se propôs a escrever um novo Em busca do tempo perdido. A sangue frio o tornou um escritor notório e o permitiu fazer um contrato milionário pelo Suplicas atendidas. Ele escreveu os primeiros capítulos dessa que seria a sua obra prima, e os publicou no jornal, para atrair atenção sobre o livro. O problema é que o livro fala das muitas pessoas da alta sociedade com quem ele convive, e elas não gostam de se verem retratadas daquela forma. Quase todos seus amigos deixam de falar com ele. Capote jura que a depressão que teve nessa época foi uma crise criativa, que não teve nada a ver com o fato de ter caído no ostracismo no seu círculo de amizades, mas a verdade é que ele se importou sim.

Confesso, me identifiquei muito com essa atitude dele. Eu o imagino nas festas, bebendo e rindo com todo mundo, e ao mesmo tempo dizendo para si mesmo que não era daquele mundo. Um lado dele se divertia e estava integrado, outro lado observava a todos com um sorriso irônico. Ao contrário dos ricos e famosos que cresceram em meio ao luxo, Capote chegou lá por seu imenso talento. Então ele olhava aquelas pessoas como diferentes dele. Aquele não era o mundo em que ele fora criado, a única realidade que ele conhecia. Ele se via como um escritor talentoso com atitudes futeis, jamais como uma pessoa futil. Elas eram futeis, ele não. Aquilo não era ele, ele seria capaz de viver outra coisa, a qualquer momento. Aquelas pessoas, pelas circunstâncias, compartilhavam apenas uma faceta dele, que nem ao menos era a mais importante.

Eu já me senti assim tantas vezes! Achava que muitas das minhas amizades eram encontros fortuitos, que eu não tinha nada em comum com aquelas pessoas. Como se, de certa forma, eu jamais tivesse encontrado a minha turma. Eu teria publicado com capítulo as expondo, e acreditaria piamente que ficar sem amigos não me afetaria. Mas hoje sei que nunca foi verdade. Por mais que eu me visse melhor do que meus amigos, eles sempre foram na medida exata pra mim.