Assexuado

exame-mama

Pela natureza dos exames eu adivinhei que o médico precisaria de alguma habilidade para tornar tudo o mais profissional possível. No primeiro, ele precisaria introduzir uma sonda em mim para verificar meu útero por dentro. Há muitos anos, quando eu havia ameaçado colocar DIU e acabei desistindo, fiz aquele mesmo exame. Uma enfermeira chegou do meu lado, vestiu uma camisinha na sonda, encheu de lubrificante e enfiou aquilo em mim numa velocidade e facilidade que eu fiquei me sentindo uma mulher da vida. O segundo exame do dia era um tipo de mamografia, e eu não fazia a menor ideia de como seria. Eu já havia feito aquele na máquina, o que aperta o peito e nos faz desejar colocar nela o saco do maldito que inventou aquela porcaria. Deve diminuir a vida útil do nossos peitos em alguns anos ter os coitados espremidos de cima e em diagonal daquele jeito. Como na sala do médico que faria meus dois exames não tinha aquele aparelho monstruoso e apenas uma cama ao lado de uma estação com computador, vi que aquele seria inédito.

É possível que o médico não tenha visto nem se eu sou loira ou morena, do tão pouco que ele fez questão de me olhar. Sua assistente me mandou tirar toda roupa no banheiro que tinha ao lado e vestir o avental que estaria num pacote lacrado. O tal avental é tão aberto e fininho que claramente é feito só pra constar, só pra gente não andar pelada por aí como se estivesse em casa. Aí eu me deitei na cama de joelhos dobrados e pernas afastadas. Sem nunca tirar os olhos da tela do computador, o médico me mostrou a sonda, que apesar de comprida e toda coberta por uma camisinha, iria entrar poucos centímetros em mim. Na parede oposta, uma TV mostrava o que a sonda filmava. Terminado esse, sempre em meio à uma conversinha social, ele me mandou aproximar mais e colocar o braço por detrás da cabeça – era o momento dos seios. Aí ele jogou uma quantidade enorme de KY no meio doseio, bem no centro, e passou sonda por cima de tudo. Repito: jogou uma quantidade enorme de KY em cada seio. Não sei se existem outros fins, mais puros, para o KY, mas pra mim aquilo tem cheiro de sexo. Não tem como sentir aquele cheiro e associar com Dostoiévski ou tarde de compras. Eu deitada, praticamente nua, braço apoiado atrás da cabeça e os seios cheios de KY. Se por acaso eu não tivesse notado todo profissionalismo do médico desde que coloquei os pés no consultório, qualquer fantasia teria se desfeito quando ele me falou:

– Para uma mulher da idade da senhora, os exames estão bastante bons.

Depois eu fui pro banheiro, sequei o excesso de KY, me vesti e saí na rua com meus exames na mão me sentindo meio… sei lá.

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Poucos e bons

Eu me angustio com a quantidade de bandas e cantores imperdíveis que surgem todos os dias. Ou a quantidade de material para download, os compositores, os intérpretes, as gravações raras. Não conheço nem metade desses shows que vêm (ou não vêm) para o Brasil e deixam as pessoas na expectativa, indignadas com o preço dos ingressos, economizando para viajar. Ouvi falar de alguns, e é provável que goste de umas músicas deles sem saber, mas simplesmente não encontro tempo e nem disposição para me manter atualizada. Tenho poucos CDs, e desses CDs sempre acabou ouvindo um ou dois. Para as conversas, até seria interessante conhecer mais, mas para o meu prazer acústico o pouco que eu sei já me faz feliz.

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Eu tinha um desses planos de saúde que a gente pagava meia consulta, e o manual com a relação de médicos era quase um romance. Páginas e páginas de todas as especialidades possíveis, médicos espalhados pela cidade inteira. A solução era perguntar para os amigos que médicos eram bons, e depois procurar as pessoas lá. No tempo em que eu não fazia isso, descobri que recém-formados entram em tudo quanto é plano, e muitas vezes a gente chega num médico e ele parece ter faltado justamente a aula que fala do seu problema… Uma vez fui numa ginecologista tão ruim que eu expliquei pra ela o uso do diafragma. Para conseguir atestado vagabundo serve; pra todo resto, vale mais ter um único e grande médico. O plano ideal teria uns três médicos em cada especialidade, mas todos muito bons.

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Acho lindo mulher de salto, mas eu ando rápido demais pra isso. Não sei qual a explicação física de a gente fazer tanto esforço e mal sair do lugar quando está de salto. Sem falar que eu torcia muito o pé quando era adolescente. Isso para falar apenas de um dos muitos itens femininos que eu não adoto. Aos poucos a gente percebe que roupa, sapato, corte de cabelo, unhas, enfim, o visual, tem muito a ver com o quanto você está disposta a se preocupar e qual seu objetivo com isso. A feminilidade, visualmente falando, costuma estar associada a saias, cabelos longos e loiros, decotes.  No modo de agir, com sorrisos, insinuações e uma maneira toda especial de exibir e esconder. Ao não me dar ao trabalho de não ser assim, abri mão de muito mais olhares masculinos e, por consequencia, de muito mais poder de escolha. Só que para a minha felicidade eu preciso apenas de um…

Ódio amoroso ou Amor odioso

Um médico me contou que existe um tipo de paciente que chega numa consulta e reclama de tudo. Diz que os remédios não foram indicados direito, que o médico não entendeu a queixa, não prestou atenção no que deveria, enfim, reclama de tanta coisa que dá a entender que ele é um péssimo profissional. É uma consulta desconfortável, onde ele se sente julgado e condenado todo o tempo. Quando a criatura vai embora, ele tem certeza de que ela deixará uma reclamação e nunca mais aparecerá.

Mas aparece. Quem sabe, mesmo depois da reclamação. E quando alguém lhe oferece outro médico, ainda é capaz de dizer: “Acha que Fulano vai conseguir se livrar de mim? Pois não vai mesmo, faço questão de me consultar com ele”. Então essa pessoa se torna o aborrecimento semanal ou periódico daquele médico. Como os pacientes mais dedicados, o fulano é capaz de mudar de horário ou esperar durante horas pra se consultar com o seu médico desafeto favorito. E sempre assim, criticando, desvalorizando, achando que está tudo errado.

Eu acredito que o nome disso é amor. Que algumas pessoas são tão patológicas que não conseguem interagir sem ser de forma crítica e desagradável. Claro que elas não reconhecem nem pra si mesmas que o que as motiva é atração, interesse e/ou admiração. Ao elogiar, concordar ou tratar bem, elas se sentem rebaixadas de alguma forma; por isso a necessidade de maltratarem para ficar por cima. Um amor que parece castigo.

Chamem o Dr. House!

Meu amigo acordou com o dedão do pé esquerdo inchado. Como não viu roxo nenhum, continuou a levar a vida normalmente. Dois dias depois, com o pé todo inchado e sem conseguir andar direito, foi ao ortopedista. Após examinar o pé e concluir que não havia lesão, o ortopedista explicou o inchaço da seguinte maneira: meu amigo provavelmente andava muito estressado, e tensionava o pé. Então, o inchaço era a somatização do stress no pé.

Sem se sentir estressado no pé, meu amigo procurou uma podóloga e descobriu que tinha apenas uma unha encravada.

Comentário sério: depois quando a gente procura terapias alternativas, é taxado de idiota e pouco científico.

Comentário jocoso: o amigo leitor pode alegar stress no pé na próxima vez que precisar tirar uma folga. Tem respaldo na medicina.