Algodão

Se me permitem um pequeno momento jabá, vocês não sabem o que perdem por não terem encomendado correndo, até acabar todo estoque, esta almofada de cachorro. Ela é feita com a parte macia do moletom virada pra fora, pra ficar ainda mais gostosa. Tamanho e textura ideal para abraçar na hora de dormir. Um dia me enfezo, mando a Suzi tirar do site e faço uma matilha inteira pra colocar na minha cama.
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Minha mãe sempre dizia: algodão. Copiei uns moldes antigos e lá dizia: algodão. Ginecologistas sempre dizem: algodão. Eu queria ser adulta e mulher casada moderna, e no início só comprava de lycra. Não me fez bem e fui obrigada a me desfazer. Hoje uso algodão com a consciência limpa, nada como não ter que impressionar ninguém. Se bem que no vestiário feminino, com aquele festival de lingeries, sempre me sinto a mais pobrinha. Se bem que a culpa nem é disso.
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Comprei um kit e fiz uma ovelhinha negra pra mim, coisa mais fofa. Ela tem perninhas de canela e é feita com uma lã especial, toda cheia de gominhos, igual de bicho de verdade. Está na cabeceira da minha cama. Patchwork é uma coisa tão linda que dá vontade de ter pela casa inteira, e viver numa grande casa de bonecas.
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Com a cabeça cheia de grampos, uso meu pijaminha confortável, como bolo de caneca e me estendo no sofá diante da TV, que preguiçosamente está quase sempre na Globo, por causa da novela. A bagunça na sala é de costura, a louça na pia é sempre pouquinha. Eu tinha uma festa, eu tinha um outro programa, eu tenho um amigo que já me ofereceu o consolo que eu precisar. Mas estou em casa, sentindo a delícia do cheiro do meu próprio sabonete e a maciez do meu próprio roupão de oncinha.
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Quentinho

Fiz uma viagem de intercâmbio com vinte e um anos. Foi um período curto no tempo e pessoalmente muito marcante. Chegando lá, fui rapidamente integrada ao grupo dos intercambistas, todos latinos. Éramos como uma família, ficavamos juntos o tempo todo. A cidade e os nativos eram apenas cenários para um encontro improvável de brasileiros, argentinos, mexicanos, colombianos, peruanos e chilenos.

Nesse grupo estava um sociólogo chileno que havia se exilado em Paris na época de Pinochet. Ele me contou que se endureceu um pouco para conseguir aguentar o que viveu. Com a idade de quando o conheci, ele se viu com uma pequena mala, sozinho numa cidade que não lhe oferecia luz alguma. Sem família ou amigos, teve que aprender a se virar. Aceitou todo tipo de emprego, aprendeu francês na marra, viveu com pouco, sentiu falta da família. Baseada na experiência dele e no que eu mesma estava vivendo naquele exato momento, lhe perguntei:

– Manuel, na verdade não importa muito onde a gente está, né? Se você tem um trabalho razoável que te permite viver com conforto, e se sente querido pelas pessoas à sua volta, o resto acaba ficando em segundo plano. É isso mesmo?

Sim, era assim mesmo. Ele passou mais de dez anos em Paris. Fez doutorado, casou com uma francesa, teve uma filha. Na prática, ninguém vive em Santiago ou Paris: cada um transita por um número limitado de ruas, encontra sempre a mesma centena de pessoas, freqüenta sempre os mesmos lugares. O importante é conseguir criar um lugar quentinho, se sentir querido dentro do seu pequeno mundo. A diferença entre o exílio e o lar é o aconchego.