Curtas sobre regras

toalhas

Conjunto completo de copos, todos iguais. Além de ser impossível, porque eles vão quebrando, eu me apeguei muito às xícaras. Tem a que cabe muito líquido, a que tem tampinha, a de brancura que ressalta o café, a que diz que sou mau humorada e quem manda aqui.

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Mesma coisa para as toalhas, ainda mais se você as guarda aparecendo: tenha um lindo jogo, todas branquinhas. Já confundi mais de uma vez a que acabou de ser lavada com a que estava pra secar depois do último banho. Descobri que, ao invés de me livrar das coloridas, funciona muito se eu alterno branca com coloridas e/ou estampadas, porque olho no varal e sei qual é a toalha da vez.

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Uma vez me curei de um crush quando o vi de preto numa foto quando ele foi andar de moto. Não qualquer moto, aquelas grandonas, chiques. Já tinha visto centenas de fotos dele, e em nenhuma ele vestia preto. Aí foi andar de moto e colocou camiseta preta, caveira, nada a ver com ele. Todo aquele discurso inovador e colocou um uniforme.

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Deve existir, em algum lugar, um estudo que diga porque a foto preferida da pessoa nunca é aquela que parece com quem ela é na vida real. Sabem do que estou falando, né? As fotos que a pessoa escolhe pra representar a si mesma nas suas redes sociais nunca são como nós, pessoas de fora, as vemos. Se for num “ensaio”, com todos aqueles ângulos e roupas improváveis, aí sim fica irreconhecível.

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Atração

Como ser atraente para quem a gente gostaria de ser atraente, taí uma questão insuperável. Todo mundo quer ter o it, o borogodó, aquilo que tem a ver com a beleza mas que não se reduz a ela. A quantidade de buscas e artigos relativos ao tema são uma prova disso. No tempo que o blogger me mostrava as buscas do Google, alguém sempre aparecia no meu blog com varições desse tema: do que os sagitarianos gostam? Como conquistar homens na balada? Homens gostam de mulheres de cabelo curto? Os artigos que dão passos e dicas são tão inúteis quanto irresistíveis. Dia desses cliquei num que dizia que um dos itens importantes na atração era o “Alongamento”. Como ninguém nunca se preocupou em saber se (a resposta é sim) eu encosto as mãos no chão com os joelhos esticados, tive que ler. Na verdade, o autor quis dizer consciência corporal, porque falava de dança, esportes e outras coisas que faziam com que a pessoa se expressasse bem fisicamente. Vendo pela bilionésima vez o vídeo da Carmen Miranda, e sentindo vontade de morder essa mulher, ser essa mulher, usar roupas coloridas enquanto desenho círculos no ar e olho de lado, tive um insight sobre o tema: atração é algo que a pessoa faz – seja pela forma como sorri, a doçura da sua voz, seu senso de humor, a espiral dos seus gestos ou do seu mindinho ou das suas argumentações inteligentes – que nos dá a impressão de que a nossa vida seria muito mais luminosa ao lado dela.

carmen-miranda

É mais fácil

Cirurgiões plásticos seguem certas regras de beleza. No nariz, eu sei que a medida ideal coloca o canto das narinas na mesma linha do canto dos olhos. Os peitos ideais, manda o silicone, são aqueles redondos, que na natureza só são alcançados quando recebem uma certa pressão. Existe também uma proporção entre cintura e quadril que torna o corpo um violão, e todo mundo sabe que os homens gostam de corpo violão. Ou não? Ah, gostam sim. Eles às vezes podem relevar nosso nariz batatinha, os peitos pequenos e/ou caídos, a cintura grossa, mas que os homens gostam de um belo corpo jovem, cheiroso, redondo nos lugares certos… Uma mulher assim sempre os fará virar a cabeça, uma mulher assim sempre estará no topo da descrição da mulher de corpo ideal. Eles relevam quando a mulher vale a pena. Quando ela tem um tchans, um brilho no olhar, uma risada gostosa, uma personalidade, um conjunto que vale a pena. Eles relevam essas coisas físicas quando a mulher tem um conjunto tão atraente – personalidade, jeito, brilho, charme, são muitos os nomes – que aquilo que em qualquer outra mulher pareceria um defeito, nelas é charme. Nelas uma característica fora dos padrões só contribui para deixá-las ainda mais apaixonantes, vira um atributo que confirma o quanto ela é única.

 

Se eu pudesse escolher, era essa a plástica que eu faria, a de personalidade. O problema é que prótese e cirurgião plástico a gente escolhe – basta pesquisar, pagar bem, fazer em suaves prestações. Ter o peito dos sonhos é relativamente fácil. Já ter uma personalidade vibrante, ah! tem que nascer. Na falta de um mercado de venda de personalidades, é mais fácil investir no corpo. A gente investe em plástica, apesar de saber que personalidade é muito melhor, por não confiar no próprio taco. Eu posso, na hora de me vestir, colocar a roupa mais cara, mais estilosa, mais tribal, mais colorida; posso, quando ao lado de um homem, fazer uma lista completa dos livros que li, rir das piadas dele, fazer gestos teatrais e grandiloquentes. Pelo menos em teoria, posso tanto virar arroz de festa, a pessoa mais animada, a companhia ideal para todos os programas; ou posso partir para o oposto e adquirir ares de mulher misteriosa, inacessível, desejada. Eu conheço muitas mulheres de sonhos, de Marilyns a Audreys, e poderia tentar ser como qualquer uma delas. Mas tentar ser, ter o projeto de ser, não é ser. Eu poderia tentar de tudo e, sem saber, esbarrar no mesmo lugar comum de sempre, das pessoas que tentam parecer o que não são. Existem aquelas que nada fazem pra isso, mas são naturalmente charmosas, agradáveis, mordíveis. Elas não precisam do corpo da moda, elas estão acima da moda. Homens, mulheres, aliens não deixarão de notá-las, nunca. Mas como ser? É mais fácil procurar um bom cirurgião, é mais fácil fazer lipo.

Casamento e regras

Eu adorava ouvir confidências e hoje detesto. Se for pra ouvir falar de uma relacionamento a dois, pior ainda. Porque é muito difícil não ficar com raiva. A quantidade de marido ou esposa que saí, não dá explicações, faz escândalo, trai ou prende em casa não é brincadeira. Só que raiva ainda maior é a de perceber que quem te conta isso está disposto a ficar sem explicações, conter o choro, fingir que não vê e ficar em casa. O ex-cunhado do Luiz não era do tipo que fazia extremos, mas ele tinha sua dose de machismo e não queria que minha cunhada fizesse um monte de coisas. Só que ela fazia. Quando eles se separaram, ele saiu dizendo que foi a minha sogra quem estragou o casamento deles. “Um absurdo, minha mãe sempre o tratou bem”, dizia o Luiz. Só que eu acho que foi ela estragou sim.

Ela estragou por ser um olhar de fora, que procurava dar uma voz racional e senso comum ao casamento dos dois. Hoje, no meu casamento, percebo que regras comuns não funcionam. Cada casal cria sua própria regra. Eu não sei dirigir. Só isso já é, pra muitos, o cúmulo – uma mulher em pleno séc. XXI não aprender a dirigir. Temos um carro, que apenas o Luiz dirige. Programamos as coisas de maneira e ele me dar muitas caronas. Se me perguntassem se eu acho que todas as mulheres casadas não devem dirigir e sim receber carona dos seus maridos, é claro que eu diria que não. Uma mulher não é obrigada a dirigir, nem a não dirigir. Quem o vê me esperando pode acusá-lo de machismo, dizer que ele é o tipo de homem que não deixa a mulher dar um passo sozinha. Ou eu posso ser acusada de me encostar, de fazer do meu marido um motorista particular. Independente do que possam dizer, funciona. Num casamento, absurdo ou não, machista ou não, é o que importa.

Novatos

Não tem como evitar: quem está há mais tempo na academia acaba ficando com raiva dos novatos. Porque a gente vai lá sempre, pega certos hábitos e conhece as pessoas, nem que seja apenas de vista. Aí chega esse povo, que dá pra reconhecer de longe: com camisetas grandes de algodão – porque disfarçam as gordurinhas e poupa comprar uma roupa pra malhar. Eu já fiz isso, todo mundo já fez isso. E depois abandonou o hábito, porque algodão pesa e fica muito quente. E só colocar uma malha feita pra ginástica que a gente nunca mais quer se exercitar com algodão na vida. Então a gente olha pro povo do algodão e já sabe.

Aí eles chegam pra fazer aula. Não sabem que todo mundo já tem seu lugar fixo e que existe até hierarquia. Neguim se coloca sempre no lugar de alguém, na frente do espelho ou colado com o professor. E não se toca que ter alguém fazendo o exercício todo errado lá na frente acaba atrapalhando para os que estão mais no fundo, que não tem de quem copiar. Na hora de ir pro banheiro, eles ignoram que os armários ficam todos juntinhos e que é preciso estar sempre atento. Dar espaço pra quem está junto, sair do caminho assim que possível. Hoje deu vontade de matar duas novatas que resolveram parar pra conversar bem na porta do meu armário. Com tanto lugar pra parar, tinha que ser ali, me atrapalhando?

“Nem se incomode” – disse uma amiga, quando me queixei – “daqui há pouco esse povo vai todo embora. É só esfriar.” Humpf!

É por isso que você odeia e deixou de ir pra academia? Detesta esse tipo de atitude? Então, antes de jogar pedras, por favor leia outro texto: Grupos.

Dicas de des-fengshui

Eu já fui ávida leitora de livros de fengshui e já dei dicas informais sobre o assunto pra algumas pessoas. Os bons livros sempre diziam que com o tempo as coisas ficariam internalizadas e a gente terias as nossas próprias intuições a respeito desse assunto. Então, com internalizações e intuições, o que restou é uma série de regras que não tem nada a ver com letras chinesas, espelhos e todas as outras coisas que amantes de fengshui tanto adora. É um fengshui particular, que se parece muito mais com o livro Simplifique sua Vida, que eu adoro.

Aí vai o meu des-fengshui:

1. Quem é você?
Não acho certo dizer que a casa de alguém tem que ser assim ou assado. A pessoa deve se sentir bem dentro da sua casa, ela deve refletir o seu jeito. Não faz sentido não usar o número 4 se você não fala chinês*, ou encher a casa de símbolos que você nem sabe o que significam direito. Lindo é ver o dono de uma casa estampado em cada escolha, em cada objeto. Casas assim têm calor, têm história. Quando a casa fala do dono, nada é brega ou colorido demais. Uma casa linda que não se parece com o dono é como uma roupa chique que não é o estilo de quem está vestindo. Nesse sentido, acho que falta um pouco de coragem nas escolhas das pessoas.

2. Quais as suas prioridades?
A casa ideal é feita de acordo com o estilo de vida de cada um. Vou dar um exemplo: eu moro aqui há mais de 6 anos e até hoje não comprei uma mesa de jantar. E talvez nem compre. Quase nunca comemos aqui, não cozinhamos para os outros, não recebemos as pessoas pra comer. Então, pra quê? Pense em qual o cômodo que você mais usa em casa e o valorize; liberte-se da máxima sala-de-estar/sala-de-jantar. Vale tudo: transformar a sala em estúdio pra quem é músico, em escritório pra quem trabalha em casa, etc.

3. Tudo nos conformes
Ou, como se diz, cada um no seu quadrado. Muitas coisas chegam em casa e ficam no limbo dos objetos: eles vieram para ficar mas ainda não tem um lugar destinado a eles. Então eles ficam pelos cantos, em lugares temporários, atrapalhando a decoração original. Quando maior o limbo, mais desorganizada a casa é. Acho que olhar para as coisas sem saber se elas vão ou ficam é como manter muitas decisões em suspenso. Quanto mais rápido você puder decidir se guarda ou joga fora, menos um problema na vida. Nem que você decida que aquele lugar estranho é o lugar definitivo.

4. Use tudo
Não é incomum as pessoas precisarem de mais, sendo que na verdade não usam tudo o que tem. Casas enormes onde na prática somente um ou dois cômodos são usados. Armários abarrotados de roupas sendo que mais da metade não é mais usável. Geralmente isso acontece justamente com quem tem espaço demais. Quem vive em apartamentos apertados logo aprende que não dá pra ter tudo, senão a gente corre o risco de dormir na portaria.

5. Escolha o melhor
Dica do Simplifique sua Vida: ao invés de ter um monte de coisas que você não usa, escolha as melhores e passe o resto adiante. Pode ver: por mais limpezas que a gente faça, as coisas se multiplicam de maneira descontrolada. Se você não consegue mais abrir as gavetas, não é apenas porque ela está desorganizada: é provável que você tenha que jogar um monte de coisas fora. Lembre-se da máxima: se está há mais de 6 meses sem usar, é provável que não usará nunca mais. Isso sem falar que doar nos torna pessoas melhores.

6. Cheirinho de limpeza
Não tem como negociar: casa limpa é importante e ponto final. Eu não tenho faxineira e sei muito bem o quanto isso é difícil. Mas tem que ser. Mesmo porque a boa faxina sempre nos obriga a olhar todas as regras anteriores: se tem coisas sem classificação, se os móveis são adequados pra gente, se você se sente bem em casa. Limpar tira as coisas do lugar, organiza a vida, ajuda a pensar, exercita… enfim, nem preciso justificar. Lugares sujos passam sempre a idéia de abandono. Por mais que o nível de tolerância à sujeira seja variável, todo mundo se sente melhor num lugar limpo.

Não teve nada místico, né? Então aqui vai a última:

7. Pense simbolicamente
Não apenas a casa fala de si como fala para si. Mesmo sem notar, os objetos da casa estão constamentemente influenciando quem vive dentro dela. Quando falo de símbolos, não falo apenas de imagens religiosas; cada objeto é capaz de nos dizer algo bom ou ruim. Algo bonito pode trazer lembranças ruins se associado a uma situação ou pessoa de quem não gostamos. Como a minha mãe, que teve durante anos A Tentação de Santo Antão no quarto e depois passou a achar a imagem meio pesada de se olhar toda manhã! . Pra saber se o simbolismo é bom ou não, vale a regra dos sonhos: a intepretação mais importante é a do dono.
* Em chinês, 4 e morte se pronunciam de maneira semelhante. Por isso, na China, o número 4 é considerado de mau agouro. Alguns livros tentar importar essa regra, ignorando que aqui as duas idéias não tem a menor relação!

Marketing Pessoal

Hoje foi o último dia de um curso de marketing pessoal que eu não fui. Uma amiga que vive a mesma situação que a minha (que eu chamo de Adolescência Perpétua) queria que eu fosse, que seria de graça pra mim. Fazer esse curso seria a solução dos nossos problemas, que escreveríamos certo nossos curriculos e falaríamos com as pessoas certas, esse tipo de coisa. Por um lado, eu acho que algumas dicas são legais de saber. No meu caso, nada que a vasta experiência em Recursos Humanos do Luiz não supra. Fora isso, sou ideologicamente contra algumas abordagens desses cursos.

Primeiro essa questão de falar com as pessoas certas. Existe a lenda que se você segue os caminhos normais, o curriculo se perde por aí em portarias, mesas, arquivo morto ou é jogado pro alto. Que pra conseguir um emprego, você tem que deixar o curriculo na mesa do diretor, se puder entregar em mãos melhor ainda. Tudo mentira. Os Recursos Humanos não são tão lixos assim – eles guardam os curriculos por assunto e recorrem a eles quando tem vaga. Sem dizer que o tal diretor vai odiar receber curriculo – ele não tem nada a ver com o assunto e o papel vai voltar pro Recursos Humanos.

A minha outra questão é bem mais séria. De acordo com esses cursos, você tem que formar uma rede (network) de possíveis pessoas que possam te ajudar no futuro. Se você encontra alguém importante, nunca suma da vida dessa pessoa. Um dia esse amigo pode virar um QI (Quem Indica) e te dar um emprego. Então o que se tem que fazer é ligar pra todo mundo, mandar cartão e ser bastante social pra ser bastante lembrado. Como pessoa tímida e idealista, eu protesto veementemente! Ser amigo de alguém porque um dia ele pode te arrumar emprego é podre. É horrível, é uma falta de consideração com a pessoa que pensa ver em você um amigo verdadeiro.

Essa coisa de ser marketeiro em tempo integral, ver em tudo um potencial pra dinheiro, transformar o contato com os outros em obrigação… eu acho tudo isso uma violência terrível contra si mesmo. Prefiro não ter a tal rede de contatos. Prefiro ser amiga de quem eu gosto e tratar educadamente quem eu não gosto. Que o meu curriculo espere humildemente junto com os outros, lá no Recursos Humanos. Mas pelo menos eu não terei que passar o dia inteiro sendo quem eu não sou pra talvez um dia ganhar dinheiro através dos meus “amigos”.