Ódio amoroso ou Amor odioso

Um médico me contou que existe um tipo de paciente que chega numa consulta e reclama de tudo. Diz que os remédios não foram indicados direito, que o médico não entendeu a queixa, não prestou atenção no que deveria, enfim, reclama de tanta coisa que dá a entender que ele é um péssimo profissional. É uma consulta desconfortável, onde ele se sente julgado e condenado todo o tempo. Quando a criatura vai embora, ele tem certeza de que ela deixará uma reclamação e nunca mais aparecerá.

Mas aparece. Quem sabe, mesmo depois da reclamação. E quando alguém lhe oferece outro médico, ainda é capaz de dizer: “Acha que Fulano vai conseguir se livrar de mim? Pois não vai mesmo, faço questão de me consultar com ele”. Então essa pessoa se torna o aborrecimento semanal ou periódico daquele médico. Como os pacientes mais dedicados, o fulano é capaz de mudar de horário ou esperar durante horas pra se consultar com o seu médico desafeto favorito. E sempre assim, criticando, desvalorizando, achando que está tudo errado.

Eu acredito que o nome disso é amor. Que algumas pessoas são tão patológicas que não conseguem interagir sem ser de forma crítica e desagradável. Claro que elas não reconhecem nem pra si mesmas que o que as motiva é atração, interesse e/ou admiração. Ao elogiar, concordar ou tratar bem, elas se sentem rebaixadas de alguma forma; por isso a necessidade de maltratarem para ficar por cima. Um amor que parece castigo.
Anúncios

Graur!

Um lado meu é muito sociável e é capaz de atrair a simpatia das pessoas aonde quer que vá. Se tiver um tantinho de abertura, eu consigo preencher o silêncio no meio de várias pessoas desconhecidas. Posso ir numa festa sozinha e sem conhecer ninguém que eu não tenho medo – caso eu não consiga falar com ninguém, eu sou louca o suficiente pra me divertir sozinha. A vida me lançou pra tantas coisas diferentes – de profissões a faculdades, tentativas, culturas e pessoas – que adquiri traquejo pra ser agradável e lidar com várias situações. Uma pessoa assim certamente estaria predestinada a popularidade…

Mas não. O outro lado de mim é selvagem e arisco. Ele recusa a popularidade e suporta a presença de seres humanos durante pouco tempo. Basta alguém manifestar o desejo de me ver com muita freqüencia para ele rugir de ódio. Por isso me mantenho sempre com poucos amigos – tenho certeza que, em pouco tempo, acabaria estraçalhando a horda de pessoas que me adoram. E volta e meia faço isso com algum amigo que se aproxima demais da jaula, porque pessoas carentes me irritam MUITO. E, como selvagem, sou incapaz de ser agradável por pura conveniência social. Como nos filmes, meu lado adora chocar quando deveria socializar.

Já tentei matar, já tentei ser só selvagem. Com os anos fui me conformando à idéia de ser quem eu sou. Nos damos bem, conheço meus limites. Nunca serei popular e jamais serei falsa…

Insuportando

Minha mãe dizia que dentro de mim havia uma outra, uma Fernandinha; enquanto a Fernanda exterior era uma pessoa calma e controlada, a de dentro reagia aos berros. Enquanto a de fora falava “tudo bem” e era conciliadora, a de dentro xingava todas as gerações dos outros quando contrariada.

Não sei o que está acontecendo – se são os florais que estou tomando ou se é a proximidade dos 30 que me torna cada dia mais ariana. O fato é que a Fernandinha está cada vez mais saliente. Até eu me estranho. Ultimamente tenho sentido uma vontade irresistível de dizer verdades pra certas pessoas. Cada vez com mais antecedência, tenho cortado todos que não me fazem bem. As preocupações do tipo “nossa bela amizade” ou “vai parecer que eu…” fazem cada vez mais barulho na minha cabeça. Pior: não apenas não sinto culpa como depois que faço eu me sinto beeeeeeeeemmm!

Restará pedra sobre pedra? Estarei me transformando numa troglodita? Esse lado neandertal sempre esteve aí ou é a revolta por anos de silêncio… Só resta aguardar os próximos capítulos.

Eu sou macho!

Como mulher e hetero, eu deveria dizer aqui que meu lado masculino é lésbico. Mas não é. Meu lado masculino não só é muito macho, como se chama Armando e coça o saco em público.

Desde a minha infância todos notavam que o pequeno Armandinho era bastante saliente. Nas férias, meu pai tinha que usar da sua autoridade pra me tirar da rua e me fazer tomar banho. Claro, eu detestava brincar com as meninas. Elas eram frescas, preocupadas com a roupa e em estarem bonitas. Eu gostava de correr por aí, brincar com bola, usar estilingue, andar de bicicleta. Eu andava tão armandamente de bicicleta que meu pai resolveu dar um jeito. Sem que eu pedisse, ele me deu uma bicicleta com uma cestinha. Ele sabia que se fosse encaixada eu tiraria, por isso me deu uma com a cestinha soldada. O plano foi bom; pena que a cestinha soltou no primeiro dia – não resistiu à emocionante trilha de eucaliptos! Armando realmente adorava uma bike.

Com Armando aprendi a amar ter cabelos curtos e a detestar discutir a relação. Esse último ponto, apesar do que possa parecer, sempre me causou muitos problemas. Os homens estão acostumados a aprontar várias vezes e ter várias conversas sérias antes de (talvez) mudar o comportamento que desagrada sua companheira. Comigo todos eram pegos de surpresa porque eu simplesmente sumia, sem nunca ter suplicado qualquer mudança. E não adiantava querer voltar depois; vocês sabem, reconstruir relação é coisa de mulherzinha.

Confesso, minha família não gostava muito dessa história. Era uma amizade perigosa, todos temiam que eu fosse longe demais. Minha mãe suplicava pra eu comprar uma roupinha ao invés de gastar todo meu dinheiro em sebos. Eu demorei pra usar batom, não me sentia à vontade de saia e até hoje prefiro tênis a salto. Um dia, sem qualquer aviso prévio, me apaixonei perdidamente e decidi ser feminina. Simples assim.

Alias, ser feminina é simples. Dificil mesmo é ser uma mulher de culhões. Tenho pena das que não conseguem.

Curitibanos

Há um fenômeno muito estranho, tipicamente curitibano, que pode acontecer em todos os lugares e com todas as pessoas. Às vezes de maneira dramática e preconceituosa, outras vezes sem nenhum motivo. Às vezes é uma defesa, noutras um jeito de ser. O ruim é que você nunca pode se defender direito, nunca pode alegar qualquer coisa. Estou falando da impecável educação e frieza com que você é tratado em alguns lugares. Você fala com alguém, e a pessoa te trata com todos os requisitos da educação, mas ao mesmo tempo você sente a pessoa gelada como o iceberg. Terrível.

Com pessoas de sotaques de carioca para cima ou pele escura para cima, isso é bem comum. Mas eu, branquela e adaptada, também passo por essas. Meu exemplo mais recente e chocante é uma professora que dá aula pra mim no mestrado. Ou melhor, ela e o marido, que dão aula para mim em horários diferentes e matérias diferentes, e há poucos dias descobri que são casados. Eles são ótimos professores – entendem do assunto, falam bem, exemplificam de maneira interessante, transmitem bem a matéria. O marido, em especial, é uma pessoal de senso de humor. Ao mesmo tempo, quando fui falar com eles no final da aula, me trataram de uma maneira tão gelada que fica até estranho – como um professor(a), tão cordial com uma turma, pode ser uma pessoa gelada no trato pessoal?

É possível ser engraçado, cordial, boa pessoa e ao mesmo tempo dar a impressão de não ter coração lá dentro? Os curitibanos provam todo dia que sim. Também trabalho com a possibilidade de que ela(e) não vai com a minha cara. De qualquer modo, ela(e) nunca fez qualquer coisa pra eu possa alegar maus tratos ou algo assim. Fica apenas a impressão, uma coisa subjetiva, um mal estar com a idéia de falar com qualquer um dos dois de novo.

Curitiba é mesmo a terra da esquizofrenia.

Velha

Eu tenho uma relação ambígua com essa coisa de ficar velha. Por um lado, gosto de enganar os outros por aí, que me vêm na universidade e acham que passei no vestibular há poucos anos. Por outro, às vezes, quando engano demais, tenho vontade de dizer – Escutem aqui, sou mais velha do que vocês. Quando vocês chegarem na minha idade

Sinto como se finalmente estivesse alcançando a idade que sempre tive. A adolescência foi uma tortura – eu nunca gostei de Uhus (aquele gritinhos) de gente que acha que tem que agitar a galera. Alias, grupos em geral é uma coisa que não faz o meu estilo. Sempre fui mais de conversas tranqüilas, lugares tranqüilos. Essa ansiedade de ser O Popular e de achar que estar em casa numa sexta à noite é ruim (ia dizer que é coisa da adolescência, mas nem sempre passa) sempre fizeram com que eu parecesse uma ET entre os demais. Com o aumento da faixa etária, cresce o número de ETs.

Ao mesmo tempo que os anos deixam claro algumas rejeições e criam algumas manias e intransigências, estou mais flexível em algumas coisas. Antes tudo era muito preto ou branco – hoje, reconheço muitos tons de cinza. Esses dias estava à beira da piscina e estava tocando funk. Antes, me sentiria na obrigação de ter uma opinião formada sobre o assunto, falaria da massificação e coisificação… hoje só acho engraçado. Tem um monte de coisas que eu era contra e hoje nem sei o por quê. Às vezes me parece que estou ficando amoral. Ou acomodada. Antes tinha firmes opiniões; hoje não sou contra, nem a favor, muito pelo contrário.