Gênia

Essa é uma dessas lembranças muito antigas, cuja data não consigo determinar. Acho que o cenário é um apartamento em Curitiba, então deveria ter uns 5 anos. Não lembro o que foi que eu fiz ou falei que motivou minha mãe a dizer isso. Sei que foi a primeira vez que ouvi algo que me repetiriam por toda a vida, de maneiras diferentes e em diversos tons diferentes:

– Você é muito geniosa!

Foi a primeira vez que ouvi falar aquela palavra e deve ter sido a primeira vez que me davam uma característica particular. Algo meu, algo que não tinha a ver com o fato de ser criança, filha ou estudante. Pelo som, pelo que já sabia do mundo e pelo que eu adivinhei, algo em mim cresceu e se sentiu feliz. Enchi os pulmões de ar, meu queixo subiu um pouco e eu repetia para mim mesma:

– Eu sou uma gênia!

Claro que minha mãe não demorou pra descobrir que, quanto mais eu ouvia ela me chamar de geniosa, mais feliz eu ficava. Então, não tardou de colocar os pingos nos iis e quis me fazer descer do Olimpo onde involuntariamente ela me colocou:

– Quando eu digo que você é geniosa, não estou querendo dizer que você é uma gênia. Geniosa quer dizer teimosa, cabeça-dura. Você é muito teimosa e isso não é um elogio, é uma característica ruim.

Achei aquilo uma ignorância. Como alguém poderia achar que a palavra geniosa não tinha parentesco com a palavra gênia e sim com teima? Era radicalmente diferente. Não começava com a mesma letra, o i ficava no lugar errado. É claro que geniosa não significava aquilo. Por isso, mesmo depois da explicação, eu enchia meu peito de ar, levantava levemente o queixo e pensava:

– Eu sou uma gênia!

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3 comentários sobre “Gênia

  1. Ô gênia, sugestões to Ratapulgo lá no meu blog:

    Entre outras, recomendo também como minhas preferidas:

    Edipo de Tebas

    Romanza escocesa sin Palabras

    Miss Lilly Higgins Sings Shimmy In Mississippi’s Springs

    Voglio Entrare Per La Finestra

    El Teléfono Del Amor – Homenaje A Huesitos Williams

    El asesino misterioso

    Cartas de Color

    e, finalmente:
    CANTATA DEL ADELANTADO DON RODRIGO DÍAZ DE CARRERAS, DE SUS HAZAÑAS EN TIERRA DE INDIAS, DE LOS SINGULARES ACONTECIMIENTOS EN LOS QUE SE VIO ENVUELTO Y DE COMO SE DESENVOLVIÓ

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  2. Fiquei lembrando do meu marido. Ele sempre diz que cresceu sabendo que era bonito, artístico e responsável. Isso porque toda a vez que ele fazia alguma coisa, a mãe dele arrematava com: “Muito bonito, hein!”; ou “mas é um artista!” ou, claro, “o responsável foi o Luís Augusto!”.
    Acho que no fim, o importante é menos o que nos dizem do que a beleza (e grande melhoria) das nossas interpretações.
    Também sempre achei que ser geniosa era ser um pouco gênia, mas a minha palavra favorita quando criança era “voluntariosa”, achava a coisa mais triste haver alguém que não fosse cheia de vontade.

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