Curtas da vida sob o capitalismo

você sente solidão

Comprei uma calça numa grande loja de departamentos no final do ano. Agora em janeiro passei lá de novo e a vi, no mesmo lugar e mesmas opções de cores, dez reais mais barata. Achei chato que tivessem baixado de preço depois que comprei e decidi olhar melhor. A calça dez reais mais barata tinha algumas diferenças sutis em relação a minha – ao invés de cordão que passa por toda cintura, só um cordão falso, ao invés de elástico na barra, uma costura simples. Ou seja, a loja estava vendendo uma versão mais barateira de si mesma.

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Estava esperando uma consulta e vi aquele programa que passa no início da tarde, na Globo. Chamaram uma dupla sertaneja. Os dois de preto, um deles cheio de botox. Perdi vê-los cantar, mas o vi responderem questões como “qual dessas músicas é mais cantada em karaokê”, “qual o grau de parentesco de Bruno e Marrone”. Eles saíram do palco, voltaram, aí teve uma prova de desembaralhar palavras na platéia. Estava achando tudo tão besta, aí me toquei que aquilo é trabalho para eles. Estar lá, com as roupas especiais, dublar a própria música, fazer de conta que tudo aquilo era muito excitante e sorrirem. Aí achei bem difícil.

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Eu estava numa aula de ciência política com aquele que era apenas o melhor professor da ciência política – quase estudei ciência política, até descobrir que o que eu gostava era da aula dele. Aí um dia, numa discussão qualquer, ele solta um “imagina se eu sou o tipo que frequenta academia”, com um nojinho de sou-intelectual-demais-para-culto-ao-corpo. De lá pra cá, nesses quase vinte anos, as academias se tornaram onipresentes e duvido que algum ser humano escape de ouvir do seu médico que é preciso frequentar uma. Tenho curiosidade para saber do reajuste que ele teve que fazer com seu orgulho. Será que ele faz musculação com cara blasé, para demonstrar que está lá SÓ porque faz bem pra saúde?