Pessoas, cachorros e indiferentes

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Eu entrei há poucos dias num aplicativo que é tipo um karaokê. Tem opção paga e você canta o que quiser. Na gratuita, que é a que eu uso, só se pode entrar pra cantar na música dos outros. Mal estou lá e já me apeguei às pessoas. Tem um que fala “éramos todos jovens” antes de cada música, na sua maioria da Jovem Guarda. Tem o japonês louco e deixa tudo com ritmo de rock e a gente se esgoela. Tem o rapaz sexy. Tem o de inglês péssimo que escolhe músicas dificílimas, que eu nunca me proporia sozinha, e a falta de pudores dele me estimula. Assim como tem gente tentando cantar bossa nova e é interessante perceber quais as partes difíceis para outras línguas.

Tem os cobradores do tubo que se revezam. Tem os vendedores Manassés. Nunca mais encontrei a médica que vai conversando até o hospital, sempre reclamando. Tem a mulher que sempre puxa papo com a mais madame que encontra no ônibus. Os papos dos universitários. O pessoal que desce na favela. As pessoas que têm problemas de locomoção e atravancam toda saída. As mulheres que riem alto no ônibus de manhã cedo. Adolescentes barulhentos. Riquinhos de GPS. O cobrador politizado que vai conversando com o motorista até o terminal. A maluca com problema nos olhos.

Humanidade se acha grandes coisas, mas somos igualzinho cachorro: basta fazer algo juntos que cria laço.

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Quando vejo notícias de pessoas sem médico ou queimadas pelo preço alto do gás, sempre me esforço pra pensar no pessoal do ônibus. Tenho visto tanta indiferença e tenho medo de ficar assim, de perder a minha humanidade. Vejo e penso que se não faria pessoalmente a nenhum deles, então não posso deixar fazer a outra pessoa apenas porque não está sob meus olhos. Nenhum sofrimento humano deve ser pouco, ninguém pode ser reduzido a uma estatística.

 

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