Consulta

tubo cobrador

Era final da tarde, por volta das 17h e havia chovido forte e parado, chuva de verão. O tubo estava vazio. Veio uma mulher, uma senhora que ela nunca havia visto antes, nem naquele horário e nem em outro. Estava de bermuda e usava um óculos de grau grande, igual se usava antigamente. Ela deu uma nota de dez e, enquanto a cobradora separava o troco, perguntou se podia fazer uma pergunta. O que será que viria, a cobradora pensou, quem atende público ouve de tudo. A mulher perguntou se a cobradora tinha cachorro e ela disse que não. A mulher soltou um “ah” decepcionado, mas a cobradora se sentiu obrigada a dizer que não tinha hoje, mas já teve, um pincher, quando o seu filho era pequeno. Aí a mulher começou a contar que estava com um cachorro em casa que se coçou até abrir buraco no pelo, que havia passado semanas com aquele cone, e ela achava que era sarna. A pergunta era se a cobradora sabia se tinha que ir no veterinário ou dava pra comprar remédio pra sarna direto. Nisso foi entrando gente, era bem o horário que as domésticas saem dos prédios que tem por ali. Tinha que levar no veterinário, a cobradora falou, porque só assim pra ter certeza de que era sarna. Muitas coisas fazem o cachorro se coçar. Stress é uma delas. Às vezes podia ser tristeza, a pincher uma vez também se coçou até abrir buracos no pelo, mas foi quando o filho parou de ir e voltar com ele para a escolinha. Também teve que usar cone, levou um tempão pra curar. Sarna era muito contagioso. A mulher disse que estava saindo justamente pra comprar tudo novo pro cachorro. Mas o cachorro dela havia tido contato com outro cachorro, a cobradora quis saber, porque até onde ela sabia era de outro cachorro que pegava. A mulher disse que leu na internet que pode ser que as coisas do cachorro fiquem contaminadas, que o dela tem um monte de almofadas que deveriam ser só para o verão mas o cachorro se apegou e não deixava mais ela tirar, então pro cachorro não ter que passar a noite sem nada quando o veterinário mandasse jogar tudo fora e aplicar remédio, ela já estava saindo pra comprar tudo novo. A cobradora e as outras pessoas do tubo, que até o fim da conversa já eram umas oito, concordaram que dá muita dó do cachorro porque ele acha que a culpa foi dele. A mulher falou, de si mesma: “a culpa não é do cachorro, é do dono”. Aí o ônibus chegou e o tudo ficou vazio outra vez. Quem atende público sempre ouve umas histórias.

 

A mulher que fez consulta veterinária com cobradora fui eu.

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