Inimigos ocultos

inimigo oculto

Sempre achei meio paranoico existir um pedaço do mapa astral (eu sei que vocês odeiam quando eu falo de astrologia, calma que já acabou) que trata dos inimigos ocultos. Nem todos têm inimigos, muito menos ocultos, porque nem todo mundo tem uma vida pra isso, eu pensava. Se você ocupa um cargo importante, disputa comissões e etc, tudo bem, mas se você é uma velhinha que frequenta apenas a igreja perto de casa? Pois bem. Um dia encontrei na rua uma senhora cuja história eu já havia contado aqui, ela e seu cachorrinho. Eu passei por eles, ela ofereceu o cachorro pra eu fazer carinho e ele se esquivou. Ela ficou sem graça. Eu também sou dona de cachorro e sei bem como é. “Ele não era assim, ele se dava bem com todo mundo!”. Eu lhe disse que era assim mesmo, que no começo eles eram todos chegados e depois iam escolhendo seus humanos preferidos e que um dia ele iria gostar apenas dela. Os olhos dela brilharam quando eu disse isso. Aí ela me contou toda a rotina dos dois, que se mistura desde o despertar e vai até à noite. Eu passo na frente da casa dela e a vejo falando, brigando, o cachorro late de volta, aquele grude. Eu tive que dar a ela a dica de que é possível sim pegar táxi com o cachorro, que basta ligar pro número do táxi e especificar que vai com um. Que eu precisei fazer isso com a minha. Isso porque ela havia acabado de me fazer descobrir que é possível sim ter inimigos ocultos sendo uma velhinha que só vai pra igreja: uma vez ela encontrou o cachorro comendo alguma coisa estranha que achou no quintal. Ela desconfiou e quis tirar dele. Minutos depois o cachorro estava morrendo, havia sido envenenado. Ela não tinha como levar o cachorro por ser sozinha (por isso a dica) e a veterinária lhe deu todas as indicações por telefone.

Naquele dia ela estava justamente saindo da missa, roupas muito simples e um terço enfeitando o pescoço. É uma paróquia relativamente grande e me parece que sou uma das poucas pessoas da região que não vai. Outras pessoas saiam da igreja, conversavam, a cumprimentavam de longe. Nós nos despedimos e eu não conseguia pensar que alguém ali era o inimigo oculto de uma velhinha que tem num cachorro a sua única fonte de afeto.

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Arqui-inimigo

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Já me disseram que um inimigo pode ser estimulante. Alguém que te odeie como uma cunhada rica de novela mexicana ou um valentão que te desafie chamando de covarde. Minha reação às duas coisas – o ódio e o desafio – sempre foram bastante touro Ferdinando. Sério: já tive gente que me perseguiu durante ANOS, em posts e por twitter, e eu nem ao menos ia lá para ler. Achei que fosse um ser superior, totalmente indiferente à ação de arqui-inimigos e, por isso mesmo, jamais saberia que estímulo essa relação poderia me oferecer. Até que um dia finalmente bateu, só que não foi ódio e desafio: fui profundamente subestimada. ME AGUARDE, FDP!

Nunca seremos

Eu tive um amigo. Era uma dessas amizades que só quem vive intensamente no mundo virtual sabe como é: nós morávamos em cidades diferentes e éramos muito próximos. Durante uma época conversávamos todos os dias, depois ficamos um tempo afastados, e quando voltamos a conversar mais ele tinha revolucionado a vida dele e estava se casando de novo. A futura esposa dele e eu tínhamos amigos em comum, eu a conhecia por foto, mas nada além disso. Depois de muita dificuldade, os dois finalmente conseguiram ficar juntos e, para minha surpresa, eu e ele deixamos de ser amigos. De um dia para o outro, ele passou a ignorar minhas mensagens, eu senti o afastamento e nunca mais nos falamos. Foi tão inesperado e tão coincidente com o casamento, que eu não tive outra saída senão concluir que foi ela quem pediu isso. Assim como eu a conhecia de perfil e foto, ela certamente também sabia quem eu era. Não sei o que ele falava a meu respeito, não sei o que ela ouviu falar de mim. Da minha parte, fiquei com a impressão de que ela ouviu muito mais do que era, porque eu nunca senti nada por ele. Não era uma dessas amizades com climas, conversas sacanas ou expectativas amorosas – era apenas amizade, mesmo. Vai ver que ela é dessas que quando gosta muito de um homem, acha que todas as mulheres enxergam nele o mesmo que ela. Sei lá. O fato é que uma vez que ele se tornou “dela”, ele deixou de ser “meu”.
Nós nunca seremos amigas. Ela me vê como algum tipo de ameaça ao homem dela. Justo eu, que jamais fiz nada nesse sentido. Ela foi sacana comigo sem que eu nunca tivesse feito nada que a prejudicasse. Seremos, para sempre, uma coisa negativa uma para a outra. Só que, como eu já disse, nós temos amigos em comum. E através do que eles falam, ou do que leio e de coisas que ela escreve, sei que ela é uma pessoa muito legal. Ela é divertida, inteligente, interessante, fora do comum, amiga dos amigos. Se tivéssemos entrado na vida uma da outra de forma diferente, nós duas facilmente teríamos virado amigas. É estranho falar dela desse jeito, eu sei. A vida tem dessas coisas: nos coloca em campos opostos, nos faz admirar os “inimigos”. E por mais que a gente saiba que tudo isso – campos opostos, inimigos – é meramente circunstancial, não conseguimos superar.

Inimiga

Ela era vizinha da minha vizinha, ou seja, morava duas casas pra lá. Foi com ela que eu descobri o que significava o termo Piranha, porque os meninos da vizinhança (meu irmão caçula entre eles) lhe dedicaram a música do Marcelo Nova. Eram crianças, acharam engraçado, desenharam piranhas com giz na rua. Aí meu irmão mais velho teve que contar pra gente o que era, e eles foram correndo apagar. Porque eram todos apaixonadinhos por ela e não sabiam direito como expressar. O jeito deles era ficarem provocando, dizerem de ela tinha voz esganiçada e estarem sempre brincando ali por perto. Na nossa região de casas, de meninas, tinha eu e as duas vizinhas. Então uma outra menina que não era parente e ainda por cima era loira, em Salvador, fazia sucesso. Ela tinha uma legião de meninas que ficavam atrás dela, como uma espécie de líder. Eu era de outra faixa etária, e isso é o mundo quando se é criança.

Só que como toda amizade baseada em liderança, às vezes ela brigava com as suas seguidoras. E uma delas era uma daquelas meninas que eu citei, que era minha vizinha. E ela ia conversar comigo. Por uma questão de idade, eu era muito amiga da irmã dela, a Juliana, numa relação onde as duas disputavam a liderança. Talvez se não fôssemos todas crianças, eu seria amiga dessa menina, a Marina, porque a considerava uma pessoa mais fácil. Então a Marina vinha conversar comigo e começava a se queixar da Silvia, a menina loira. Eu sabia que tudo aquilo era temporário e dizia que era assim mesmo, que daqui há pouco elas estavam amigas de novo. E invariavelmente a Marina me dizia:
– Você fica defendendo a Sílvia. Você não faz idéia das coisas que ela fala de você. Eu posso te contar.

E eu invariavelmente a impedia. Mais tarde elas voltavam a ser amigas, voltavam a brigar, a Marina voltava a me oferecer, eu voltava a me negar a ouvir. Chegou uma época que ela estava disposta a me contar de qualquer jeito, estivesse brigada ou não, e eu nunca deixei. Claro que eu tinha curiosidade. Mas, com razão, eu achava que aquilo não me faria nenhum bem. Eu sabia que perderia a espontaneidade de alguma coisa para sempre depois de saber. Eu era criança demais para entender que a Sílvia queria ser minha inimiga – e eu jamais lhe dei esse privilégio.

Minha culpa, minha máxima culpa

Nem culpo quem me ofende. O inimigo, chato ou invejoso declarado já fazer o maior favor possível ao deixar as coisas as claras. Mais favor do que isso, só se morresse. Então de certas pessoas você sabe que não pode esperar nada positivo. Que tudo que ela disser ou fizer pode ser dividido em dois grupos: coisas neutras ou coisas com o propósito de te magoar. E como as duas coisas estão sempre misturadas, como é fácil confundir uma com a outra, pra achar o ruim é preciso olhar e colocar na balança. E é nessa parte que eu digo que é minha culpa, minha máxima culpa. Porque não é pra ir lá olhar. Não é pra dar importância, pra passar devagarzinho mostrando que tem. Não é pra olhar de soslaio, pra mostrar como se fosse coincidência ou dar um jeito de chegar aos ouvidos. Mesmo quando só os deuses estão vendo, não é pra fuxicar o perfil da pessoa. Se fui e olhei até achar, é porque consegui o que estava procurando. Existe uma comunicação invisível entre quem odeia e quem é odiado, e todas essas coisas fazem com que o laço se mantenha. É pra amar a tranquilidade e se negar.