Banho no escuro

chuveiro

Há trocentos anos vi o depoimento de um homem que tinha a mãe cega, e ele contou que uma das suas lembranças mais antigas de infância era que ela dava banho nele no escuro. Se eu tivesse que escrever uma história, uma ficção, jamais me ocorreria um episódio desses, mas, ao mesmo tempo, é quase como uma consequência óbvia. Sei lá porque nunca esqueci a imagem. Agora, na academia, eles instalaram aquelas luzes com sensores de movimento. Algumas vezes estou no banho e a luz de repente apaga. A maioria das pessoas faz alguma coisa pra acender a luz, mexe na toalha ou coloca a mão pra fora do box. Eu fico torcendo pra ninguém fazer nada. Tomar banho no escuro é gostoso pra caramba.

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Um dia sem cachorro

banho e tosa

Em si, o banho da Dúnia já leva umas duas horas. Ela tem pêlo grosso, daqueles que fica difícil encontrar a raiz. Mas eu tenho um acordo com a pet, que a busca cedo e a deixa em casa na última entrega do dia, para que eu tenha um dia inteiro sem ela. É o dia da grande limpeza. Foi a solução que eu encontrei para não ter que deixar a Dúnia presa na corrente durante horas, pra depois acabar pisando numa pocinha mínima de água e deixar tudo com marca de patas. Atualmente ela possui quatro folhas de tapetinho de yoga e três enormes travesseiros com fronhas pretas dentro da casinha. Tudo vai pro sol, tiro os pêlos, lavo a casinha, as tigelas, as manchas no azulejo, esfrego o chão, tudo o que se possa imaginar. Só quando ela está fora, eu percebo o quanto a minha rotina leva a Dúnia em conta – de olhar sempre para fora para ver o que ela está fazendo, de colocar uma música quando trabalho na sala para que ela não pense que vamos sair, ter que fazer correndo outra coisa quando percebo que dei um alarme falso que vamos sair, estar sempre consultando o relógio para não perder o horário dela. Eu me sinto como aqueles pais com folga dos filhos. É dia de deixar a porta da sala aberta, não me interromper pra sair, fazer tudo em silêncio e na hora que eu quero. Mas, tal como os pais com folga dos filhos, só tem graça porque é rapidinho. No final do dia ela chega perfumada e cansada, e eu me derreto porque ela está de lacinho.

Os chuveiros da diretoria

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O apelido fui eu mesma que criei. No vestiário, os chuveiros do fundo, não sei o motivo, são abertos, o que permitem que as pessoas tomem banho olhando umas para as outras. Os outros chuveiros são fechados. As alunas mais antigas gostam de tomar banho lá, por isso o apelido, eu digo que não tenho cacife para tomar banho com elas. Claro que é bobagem, e apesar das pessoas se apegarem a lugares, eu poderia ter me apegado a um daqueles chuveiros também. Não o fiz com a desculpa perfeita que os banhos ali são muito demorados, porque as conversas vão se alongando. Do meu chuveiro fechado, poucos passos dali, capto algumas palavras: “absurdo”, “Lula”, “esse país”, “ladrões”. Mais do que as palavras, o que eu capto são os tons furiosos. Saem de uma aula relaxante, vão para chuveiros quentinhos e de água abundante, e quando vão se trocar o volume da indignação já está lá no alto. Esse país, o Lula, que absurdo, ladrões!

Um dia estava como sempre ouvindo só os rumores dos banhos da diretoria, captando os tons indignados, etc. Quando saí, descobri que o motivo da vez nem era o Lula e sim o fato de não ter lixeira especial para lixo reciclável no nosso banheiro.

Craca

Eu havia lido uma entrevista que o João Gordo diz que, antes de casar, passava dias sem tomar banho. Estava em casa sozinho mesmo, sem comer ninguém e tals. Lembro de ter achado aquilo um nojo e injustificável. Sem dizer que tomar banho é um prazer, então eu jamais deixaria isso de lado, certo? Errado. Não cheguei ao extremo de ficar dias sem tomar banho, mas…

 

Foi quando eu estava deprimida. Acho sempre estranho dizer “estava deprimida”. Na maior parte das vezes, falo desse passado recente com pessoas que estavam ao meu lado, e elas nem sempre faziam ideia do que estava acontecendo. Sabiam em teoria, mas não sabiam o tamanho do buraco. Como me disse uma amiga: “Olhando assim parece que faz tanto tempo, você parece tão bem! Mas há dores que só o nosso travesseiro conhece”. Outra questão é que o estava parece dar a impressão de que tudo passou. Algo como: fiquei deprimida até dia 10 de janeiro de 2015 às 11h. A depressão, sinto ainda, é como uma porta que agora eu conheço e só fica encostada. Quando acordei e não tive mais a necessidade de saltar da cama pra fugir dos meus pensamentos, ou quando fui capaz de passar uma noite sozinha sem querer morrer, soube que o pior havia passado. É essa fase que chamo de “estava” deprimida, mas nem sei dizer direito o que estou. Quero muito crer que existe um estado mais feliz e equilibrado do que o de hoje. Mas, voltemos ao banho.

 

Eu faço aula do flamenco à noite. Deve ter algum regulamento na Confederação Internacional de Flamenco (brinks, não existe nada parecido) que manda que as salas de aula de flamenco sejam todas quentes. Eu achava a da escola anterior quente, e as da nova escola são apenas um forno sem janelas. Some-se isso ao sapateado. Eu punha a minha roupa suada, pegava ônibus e voltava pra casa. Tarde da noite, eu cansada e faminta. Estar em casa não me causava nenhuma alegria e dormir cedo fazia com que o dia terminasse mais depressa. Verificava as coisas na internet, comia e ia pra cama do jeito que estava. Danese banho, ninguém estava dormindo do meu lado pra sentir. E trocar os lençóis com regularidade pra quê, também? Até economiza. Assim fiquei durante alguns meses. Aí uma certa noite – que não me dei ao trabalho de marcar – eu me deitei e senti um cheiro ruim. Era eu. E os lençóis. E, apesar do que acabei de dizer, eu os havia trocado há pouco tempo. A culpa era minha mesmo, que deitava suja. Já estava tarde e fiquei com preguiça de levantar e refazer a cama, mas deveria ter levantado porque até dormi mal. Foi aí que decidi moralizar o troço e voltar a tomar banho. Mesmo sem ter ninguém do meu lado.