Simprona

Eu esqueço que as pessoas me acham pobre. Claro, não estou dizendo pobre de verdade, pobre base da piramide. Porque se me vissem assim, seria como se o meu CO2 contaminasse o ar, como se o meu toque sujasse e minha voz fosse insuportável, de modo que eu seria uma presença tão destacada e perniciosa no ambiente que as pessoas começariam a se queixar. Quando eu digo pobre, quero dizer sem importância, uma pessoa cujo saco não precisa ser puxado, alguém de quem nunca se vai precisar de qualquer favor. Ninguém se importa em me agradar e falar mal de mim pelas costas, podem se mostrar como são na minha cara mesmo. Só quem é visto como pobre sabe como poucos resistem ao apelo do dinheiro e mudam de atitude diante de quem o tem, às vezes quase sem sentir. É uma posição que arrebentaria o coração dos que sempre foram ricos e – por isso – populares. Eu acho um privilégio ter uma visão mais realista das pessoas. E um privilégio ainda maior saber que os que estão ao meu lado o fazem realmente pela minha companhia.

Existe a teoria que quem diz que gosta de pegar ônibus, feijão com arroz e pobrices em geral, o faz porque sabe que não tem perspectiva de um dia ser rico, então entra num estado de negação. Eu não sei, se for um mecanismo psicológico o meu está bem implantado. Eu não me sinto pobre. Bourdieu me abriu os olhos quando disse que não existe A Elite e sim elites. A elite intelectual e a elite financeira nem sempre coincide. A elite financeira acha que arrasa pagando ingresso caro pra ver peça de ator global no Guaíra, com as suas peles cheias de naftalina; a elite intelectual conhece o círculo artístico, os atores talentosos e as peças adorada pelos que realmente entendem de teatro. A elite financeira não me faz inveja, eu não quero ser um deles.

Com mais dinheiro, eu me imagino fazendo as mesmas coisas, mas de maneira mais relaxada. Carregar compras no muque é um saco, mas fazer longos trajetos a pé é vida. Andar de tênis é uma necessidade, tenha ele amortecimento ou não. Eu poderia me apaixonar por uma roupa e comprar na hora ao invés de esperar mudar o mês – mas, pra ser sincera, nem me acontece porque não ligo muito para roupas. Eu não gostaria de me vestir de uma maneira tão ostensiva que as pessoas comuns deixassem de falar comigo de igual pra igual. Sim, pra continuar amiga das atendentes da padaria, da minha e de futuras padarias, eu não me imagino jamais vestida de modo perua. O único carro que eu acho bacana é o Smart, mas aí me explicaram que ele custa caro. Eu jurava que ele ele custava o mesmo preço de um carro popular, por ser pequeno. Nem sei dizer quanto custa um carro, seja ele popular ou não, Mas, ok, muito rica quem sabe eu tentasse dirigir um Smart. Se eu fosse capaz de dirigir, nunca mais peguei num carro depois de passar no teste, uso a CNH temporária há anos e só como documento. Andar de ônibus cheio é um saco, voltar para casa de ônibus à noite pode ser perigoso, mas eu considero andar de ônibus (e transportes coletivos em geral) algo tão importante para o caráter que duvido que deixaria de andar mesmo se virasse estrela de Hollywood. Taí Keanu Reeves para provar que existe a possibilidade de ser assim. 

Quando eu descrevi esta tirinha pra uma amiga e disse que era eu, ela me olhou com pena. Não sei se vocês vão ficar com pena também, mas a próxima tirinha sou eu.

poor

Pobre de estimação

pet

Eu já usei o termo “pobre de estimação” algumas vezes com os amigos, mas tem “gay de estimação” também. É um termo facilmente compreendido para quem está do lado pet da história. Uma amiga, lésbica assumida, trabalha numa empresa diretamente com a dona. Elas se conhecem há anos, conhecem as famílias, se frequentam. Aí começaram as eleições e minha amiga – que, diga-se de passagem, sempre detestou o PT – começou a não gostar do discurso de Vocês-Sabem-Quem. Como quase todos os gays que eu conheço, ela começou a temer pela sua integridade física. Enquanto isso, sua chefe e seus colegas bastante entusiasmados com a possibilidade de ter arma, exército no comando, minorias se curvando à maioria. Ela começou a debater com os colegas, mostrou os trechos homofóbicos, mostrou reportagens, argumentou. Eles tiveram que concordar que sim, ele foi homofóbico, sim, aquele discurso poderia levar a um aumento da violência, sim, ela como lésbica poderia sofrer riscos. “Mas qualquer coisa, é só você ligar pra mim. Eu te protejo”.

Você é de estimação quando podem explorar ou exterminar todo grupo a qual você pertence – gays, negros, pobres, pouco escolarizados, feministas, esquerdistas, nordestinos, etc. Mas você a gente quer vivo, afinal, você é gente boa – você é frango da Sadia, o frango da propaganda e não o frango do forno. Quase da família, desde que não tente nenhum contato não solicitado. Outra história: uma família super tradicional. Faz caridade, tem um discurso igualitário, viaja para África pra ajudar a Anistia Internacional. Provavelmente por ter levado à sério o discurso, um membro da família começou a namorar alguém da área de educação física. A pessoa, além de formada, tinha emprego, pós na Europa, pele branca, quem sabe um sangue italiano. Ficaram tão furiosos que chegou até mim, que nem tenho intimidade. Só acalmaram quando o namoro com “o pobre” terminou.

Os que precisam

o me meto em brigas virtuais e nem reais porque me canso antes mesmo de. O que aconteceu há alguns dias é um exemplo.
Estavam discutindo o quanto agora pagamos mais para receber um atendimento pior. Que mesmo indo a lugares mais caros, o atendimento deixa a desejar. Tudo culpa dos serviçais, que não são mais como antes. Por qualquer dinheiro a mais, eles já trocam de emprego e jogam no lixo o treinamento que receberam. Pra quem tem loja em shopping é uma dificuldade. Se o local exige que eles façam plantões, que trabalhem sábados, domingos ou à noite, já não querem. Os empregados aceitam esses empregos temporariamente, com vistas de conseguir outros que não lhes comprometam os fins de semana. Quem manda oferecer a essas pessoas opções. É essa maldita política social, é culpa do Bolsa Família. Eu ouvia tudo em silêncio. Tentei uma brecha ao dizer:
– Eu também, se pudesse escolher, não gostaria de um emprego que me exigisse trabalhar no fim de semana.
Ah, mas é diferente! Ninguém ali gostaria, mas é diferente. Somos pessoas diferentes. Aquela conversa era sobre eles, os que precisam, os que devem aceitar qualquer coisa pra não morrer de fome. Eu ouço essas coisas e me sinto um alien. Ou melhor, eu é que não sou um alien. Eu me vejo como igual às outras pessoas, os que querem lazer, os que querem salários melhores, os que buscam o que lhes parece mais favorável. Já uma parte mais privilegiada da sociedade se vê como se de substância diferente. Eles são os que devem ser bem servidos, sob qualquer circunstância.