Curtas de só derrotas

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Quando eu cheguei, o tubo estava vazio, o ônibus devia ter acabado de sair. Fiquei na frente da porta, a fila começou a se formar atrás de mim. Quando o Inter 2 chegou, estava vazio, literalmente, zero passageiros. E eu a primeira. A porta se abriu e o ônibus era meu, podia sentar onde quisesse. Fui direto para a fileira de cadeiras individuais. O motorista foi dar uma volta, o ônibus estacionado, pessoas chegando e preenchendo os espaços. Quando o motorista estava voltando, a última pessoa a entrar no ônibus foi uma grávida, com um barrigão enorme. Ela veio direto do meu lado e praticamente colocou a barriga no meu rosto. Tive que oferecer meu lugar.

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Começou a chover quando eu paguei pelas compras. Era daquelas chuvas de final de mundo. Todo mundo parado esperando a chuva passar. Os carros passaram a estacionar praticamente dentro do supermercado. Eu me encostei no carrinho e fiquei pensando na vida, e mesmo assim levou muito tempo. Depois de uma meia hora já não entrava nenhum carro, as pessoas chamavam uber, a chuva parecia ficar mais e mais intensa, trovões e relâmpagos. Eu já estava com dor na lombar e cansada quando desisti e fui carregando minhas compras debaixo da chuva. A única coisa que eu torcia era que ela não acabasse no meio do caminho, seria humilhação demais. Fui andando nas ruas vazias, sem ligar pro banho, pensando que não era tão ruim assim. Aí quando estava quase em casa, uma quadra, enfiei o pé na grama e sujei de lama até a meia.

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Eu tento marcar todos os meus exames neste período em que o ano não começou direito, para ficar menos puxado. Mesmo assim, foi difícil marcar uma das ecografias, e pra ficar ainda no começo do ano, topei fazer o exame do outro lado da cidade, às 13:40, no mesmo dia que cortaria o cabelo pela manhã, horário que eu havia agendado no ano passado. A velha história do muito tempo pra ficar na rua e pouco tempo para voltar pra casa, e preferi voltar para casa. Comi uma saladinha às 11:30, e saí de casa pouco depois do meio dia. Três ônibus depois e muita ansiedade, cheguei  no laboratório com 5 min de atraso. Esperei por um encaixe mais de uma hora. Fiz o exame. Fui numa padaria comer. Peguei outros três ônibus para voltar. Choveu muito, a cidade estava um caos, e ainda assim estava quente. Cheguei em casa quase 18h, esgotada e grudenta.

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Curtas sobre profissionalização

profissionalizacao-01-760x400Já entrei na fase de ter que fazer vários exames chatos todo ano. “Você já fez antes?”, perguntam cheios de dedos. Aí a gente se pega já tirando a roupa, colocando os peitos pra fora pra moça, abrindo as pernas, olhando pro lado. Faz aí.

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Eu estava sentada no banco do ônibus ajeitando meus pacotes de compras e um sujeito me estendeu um papel. Nem olhei, fiz um gesto de recusa com a mão. Depois o vi recolhendo o papel e ninguém tinha dado nada. Método errado. Tem dias que ouço histórias comoventes de superação após largar as drogas, gente puxando oração, brindes dados de coração, artigos que custariam o dobro na loja e nem salvam vidas, gente que toma fitoterápico pro joelho que o SUS não cobre, piadistas. Vê se alguém que só distribui papel tem chance hoje em dia.

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Dois tuites meus viralizaram de maneira assustadora. Um deles falava de veneno de rato e o outro de classe média. O segundo foi parar em pelo menos duas páginas do Facebook. Não queria ver a repercussão, mas me mostraram. Como vocês podem imaginar, não tem limites. Teve até gente que copiou como se fosse a sua experiência pessoal. Também disseram que eu criei o tuíte apenas para ganhar likes. Que sonho seria se eu tivesse essa capacidade de adivinhar o que as pessoas querem ler.

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Séries Netflix: só com indicação. Os trailers das de humor são assustadores.

 

Sala de exame

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Acho sempre muito estranho quando eu saio do elevador e me vejo de uma vez no ambiente, acho que foram anos de condicionamento entrando em corredores. É como nos filmes de ficção científica que a pessoa salta em outra dimensão. Mais surpreendente ainda porque fui parar numa sala de exames lotada e na última vez que tinha feito ele, um exame totalmente feminino, não foi daquele jeito. Esperei minha senha, meio ansiosa porque cheguei nos dez minutos antes que manda o protocolo mas até me chamarem já daria o horário. Aí vi que a sala estava lotada daquele jeito por causa dos acompanhantes. Saia gente de lá com o andar típico de quem tinha tido AVC e não conseguia mover direito um lado do corpo. Pessoas que torceram o pé. Idosos que mal se moviam. Dois entraram homens na sala, ignoraram a senha e se desentenderam entre eles e com uma das atendentes, justamente a que eu tinha achado antipática. Um queria fazer um exame que fica em outra unidade, praticamente do outro lado da cidade. Aí ele virou pro outro e era daquelas pessoas que fala sem mover a boca, o movimento acontece todo por detrás dos lábios imóveis. Ele hesitava em deixar o outro – provavelmente haitiano – lá, achava que não saberia voltar sozinho. Mas deixou. O haitiano trouxe o resultado de uma colonoscopia, não sabia dizer onde estava a guia, se tinha guia, a atendente que eu achava que era antipática pegou a carteirinha e não pediu para ele ir para a fila. Não havia nenhum registro no número e ele disse que precisava fazer outro exame. Ela quis saber quem, como, onde e ele não sabia responder. Eu fui chamada antes da história terminar. Fiz meu exame, esperei o resultado com a bolsa no colo e sem ânimo de pegar o Kindle. Depois de longos minutos, a assistente foi até a impressora que fica atrás das atendentes e pegou folhas que estavam espalhadas lá faz tempo, ou seja. Peguei o exame, agradeci, fui a passos largos até o elevador. Meus passos eram largos, bem informados, saudáveis.

Assexuado

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Pela natureza dos exames eu adivinhei que o médico precisaria de alguma habilidade para tornar tudo o mais profissional possível. No primeiro, ele precisaria introduzir uma sonda em mim para verificar meu útero por dentro. Há muitos anos, quando eu havia ameaçado colocar DIU e acabei desistindo, fiz aquele mesmo exame. Uma enfermeira chegou do meu lado, vestiu uma camisinha na sonda, encheu de lubrificante e enfiou aquilo em mim numa velocidade e facilidade que eu fiquei me sentindo uma mulher da vida. O segundo exame do dia era um tipo de mamografia, e eu não fazia a menor ideia de como seria. Eu já havia feito aquele na máquina, o que aperta o peito e nos faz desejar colocar nela o saco do maldito que inventou aquela porcaria. Deve diminuir a vida útil do nossos peitos em alguns anos ter os coitados espremidos de cima e em diagonal daquele jeito. Como na sala do médico que faria meus dois exames não tinha aquele aparelho monstruoso e apenas uma cama ao lado de uma estação com computador, vi que aquele seria inédito.

É possível que o médico não tenha visto nem se eu sou loira ou morena, do tão pouco que ele fez questão de me olhar. Sua assistente me mandou tirar toda roupa no banheiro que tinha ao lado e vestir o avental que estaria num pacote lacrado. O tal avental é tão aberto e fininho que claramente é feito só pra constar, só pra gente não andar pelada por aí como se estivesse em casa. Aí eu me deitei na cama de joelhos dobrados e pernas afastadas. Sem nunca tirar os olhos da tela do computador, o médico me mostrou a sonda, que apesar de comprida e toda coberta por uma camisinha, iria entrar poucos centímetros em mim. Na parede oposta, uma TV mostrava o que a sonda filmava. Terminado esse, sempre em meio à uma conversinha social, ele me mandou aproximar mais e colocar o braço por detrás da cabeça – era o momento dos seios. Aí ele jogou uma quantidade enorme de KY no meio doseio, bem no centro, e passou sonda por cima de tudo. Repito: jogou uma quantidade enorme de KY em cada seio. Não sei se existem outros fins, mais puros, para o KY, mas pra mim aquilo tem cheiro de sexo. Não tem como sentir aquele cheiro e associar com Dostoiévski ou tarde de compras. Eu deitada, praticamente nua, braço apoiado atrás da cabeça e os seios cheios de KY. Se por acaso eu não tivesse notado todo profissionalismo do médico desde que coloquei os pés no consultório, qualquer fantasia teria se desfeito quando ele me falou:

– Para uma mulher da idade da senhora, os exames estão bastante bons.

Depois eu fui pro banheiro, sequei o excesso de KY, me vesti e saí na rua com meus exames na mão me sentindo meio… sei lá.

Colonoscopia

Só com o tempo eu percebi que vivi num lar totalmente preocupado com a saúde, onde qualquer distúrbio gerava uma visita imediata ao médico. Coincidência ou não, minha mãe é virginiana, daquelas que gosta de visitar a farmácia pra conferir as novidades. Então bastaram algumas idas ao banheiro com sangue nas fezes pra eu ir parar num médico especialista, e ter a santidade do meu intestino grosso violada.

 

Antes, deixa eu voltar à notícia: abri meu facebook e fui surpreendida com um link que dizia que a idade pra fazer exame de próstata subiu dos quarenta para os cinquenta. Sempre respondi ao chororô masculino relativo a esse exame que é bem feito pra eles, é um mal necessário. Assim que a mulher começa a ter vida sexual, é punida com a necessidade de fazer papanicolau todos os anos. Um dedinho uma vez por ano depois de maduro não tem nada demais. Nada mesmo, não tem nem espéculo. Apesar da minha posição xiita, imaginei a raiva que eu sentiria, aos cinquenta anos, se tivesse me submetido a dez anos de dedadas agora consideradas inúteis.

 

Lembro bem do meu exame. Tive que usar uma espécie laxante no dia anterior e a recomendação que me deram foi de já aplicar o remédio no banheiro, do lado da privada, pronta. A embalagem disse que poderia levar um minuto pra fazer efeito, mas se leva quinze segundos já é muito. A pontada e a vontade de correr pro banheiro é tão forte que chega a ser filosófico: em poucos momentos da minha vida, me senti tão primata como naqueles momentos. Quando a natureza comanda, de nada adiantam anos de socialização e cultura.

 

Fui tranquila para o exame, numa clínica que ficava no Batel. Ao contrário do que eu pensava, não me deixaram esperar, aparentemente eu era a única a fazer colonoscopia aquela manhã. Entrei na sala grande com uma maca no meio, e o médico e a enfermeira interromperam suas leituras para me atender. Olharam para mim como quem sente falta de algo e perguntaram:

– Cadê seu acompanhante?
– Acompanhante? Eu não sabia que precisava de acompanhante.

– É que a gente dá uma anestesia e a pessoa fica meio grogue. Mas dá pra fazer sem anestesia também.

– Olha, eu vou ligar pra minha mãe agora e em uma meia hora ela está aí, que tal?
– Não, vamos fazer sem mesmo.

Sou muito boa com dores de excesso de exercício, com alongamento, com câimbras e afins. Injeção, desde que não veja a agulha. Por outro lado, sou a pessoa mais fresca que existe com as outras dores. Então confiem quando lhes digo: realmente não dói. Não dói nada fisicamente, só dá pra sentir a barriga inchando e algo andando dentro de você. Mas dói moralmente, dói de vergonha. É humilhante num grau ficar de lado enquanto enfiam um tubo em você, que a anestesia é só pra disfarçar isso. Eles enfiam aquele tubo até o limite e depois vão puxando, enquanto o médico olha pela outra extremidade. Lembro do japonês – o médico era japonês – piscando um olho e vendo minhas entranhas com outro.

– Você tem um intestino bem limpinho, quer dar uma olhada?
NÃO!

Eles riram. No fim eu não tinha nada demais, só devia comer mais fibras. Voltei para casa peidando sem cheiro loucamente e com mais empatia ao sofrimento humano.

 (o video diz que é exame de próstata mas é colonoscopia)

Alergia

É engraçado como saber que estamos certos é tão importante, mesmo que não resolva nada. Eu andava meio desesperada, porque fui colecionando ao longo dos últimos dois ou três anos uma longa lista de coisas que estariam me dando alergia. Desde a adolescência eu sei que sou alérgica a sabão, mesmo os neutros ou de côco. Estou acostumada a ter um estoque de luvas em casa. Nunca tive o hábito de usar cremes e quando tentei fazê-lo, descobri que era alérgica também. Uma vez ganhei um Victoria Secret e usei apenas umas gotinhas no lábio, porque estava ressecados. Minha boca inchou de tal maneira que quando fui ao médico ele nem precisou levantar da cadeira para perceber que eles estavam com bolhas e enormes. Os cremes neutros apenas demoram mais para causar alguma coisa, mas não consigo usar durante muitos dias seguidos. Foi só começar a usar perfumes todos os dias para aparecerem coceiras incuráveis. Mencionei que mesmo os desodorantes suaves estavam me provocando coceiras terríveis? É como se eu fosse alérgica a qualquer coisa pastosa, porque mesmo o que na embalagem se dizia hipoalergênico me fazia coçar. Com tudo isso, intuía que se fosse tentar fazer tatuagem não daria certo. Mas o mais triste de tudo foi me descobrir alérgica a chocolate. E quanto mais puro pior.

Depois de colecionar coceiras e me achar a pessoa com mais micoses no mundo, finalmente fiz um teste alérgico. Pra se submeter a ele tem que estar bem motivado: dura uma semana e nesse período a pessoa não pode lavar as costas. Ou seja, nada de banho completo. Tem que aplicar umas bolinhas num dia, tirar as bolinhas dois dias depois e só depois de mais dois dias sai o resultado. Nesse meio tempo, as substâncias alérgicas começam a fazer efeito e as costas pinicam. Nem preciso dizer que também não é pra cutucar. A compensação é saber de uma vez o que é o que; tudo se ilumina, tudo passa a fazer sentido. Não é que eu seja alérgica a tudo, e sim a quatro substâncias que estão em coisas que a gente não adivinha. Quase todas as coisas que eu mencionei são por causa do Bálsamo do Peru. E tem irritações que eu nunca pensei que fossem alergia: casca de frutas cítricas, cola de esparadrapo, vernizes, objetos cromados. E, como eu havia adivinhado, tatuagem nem pensar.

A solução para as alergias é evitar, coisa que eu já havia fazendo. Nunca poderei ser uma pessoa perfumada e nem sensualizar em cima do tecido verde da mesa de bilhar (juro que tem isso na lista)… Meu alívio é saber que não sou louca e o que devo evitar. Recomendo.