As pessoas-ilhas

Arquipelagos-2

Quando eu vejo ruínas de antigas civilizações, tento imaginar como era pro cidadão que vivia lá. O egípcio ou o romano que saía de manhã cedinho e passava pelos portões de pedra, que olhava para areia em todo lugar ou aquedutos, e olhava para o mundo à sua volta e imaginava que seria sempre daquele jeito. Porque vemos as ruínas e pensamos no final, em quando estava se desfazendo e esquecemos que muitas vidas passaram por ali e viveram um período totalmente estável. Até a revolução francesa, que nos parece que foi um banho irrestrito de sangue, poupou alguns nobres, até mesmo nobres franceses. Eu fiz um passeio por uma cidade aqui perto – se lembrasse, diria qual foi – e visitei uma Casa Grande que pertenceu a uma ordem religiosa. Ainda havia restos das paredes aonde os escravos viveram e a casa em si tinha paredes inteiras decoradas. O interessante é que a ordem saiu de lá e durante quase um século a casa fosse gerida pelos seus próprios escravos. Ou seja, durante muitos anos, que sabe a vida inteira de alguém, viveram negros que não eram escravos na época que todos os negros eram escravos. Negros que puderam sonhar, fazer as suas coisas e quem sabe nunca tenham vivido a decepção da casa ser vendida e se tornarem escravos comum. Um negro que acordava cedo e passava por aquele gramado com a mesma confiança do egípcio e do romano. São vidas que são como ilhas, diferentes do que acontece à sua volta, isoladas. Fico curiosa sobre elas. A gente grita tanto por aí que a realidade é a maioridade estatística, que a realidade é tragédias, cidades poluídas e frias, boletos, lutar contra tudo e todos; quando encontramos alguém que não vive assim, que mesmo adulto é alegre e saltitante, dizemos que uma hora ou outra a realidade vai arrancá-lo da sua alienação –  porque a vida tem dessa crueldade, de perscrutar cada cantinho. Mas não, alguns realmente conseguem escapar e viver uma vidinha perfeita. Sorte deles.