Uma história de amor quente e ligeira

surya

Foi assim que conheceu o eremita Durvasas, vestido de trapos e cinzas, e de tal modo lhe agradou com sua bondade que ele lhe ensinou um encantamento mágico. Com esse mantra, explicou, poderia invocar qualquer um dos deuses do céu para amá-la e nela conceber um filho.

Seria verdade?, refletiu Kunti. Estava ao sol, passando e repassando as palavras mágicas em sua cabeça e mirando sua sombra no chão. Dizia a si mesma: “Durvasas brincou comigo!”, e franzia a testa. Mas logo pensava: “Ou talvez não…”

Sentia o sol quente em suas costas. O Surya dos mil raios brilhava sobre ela. E Kunti ficou a imaginar: “O mundo inteiro o vê durante o dia. Mas à noite ele seria somente meu”. Seria ele tão belo quanto a estátua no Templo do Sol?

Naquela noite, Kunti permaneceu acordada em seu leito até meia-noite. Lá fora, a Terra jazia em silêncio; o palácio estava às escuras. Ela levantou-se, foi à janela e, suavemente, recitou o mantra de Durvasas.

E houve luz, o cheiro de metal quente, e uma brisa, quente e seca como o deserto, cantando em seus ouvidos. Brilhava de tal modo que Kunti cerrou os olhos, mas a brisa fez surgir cores por trás das pálpebras. Ela estremeceu e tombou, quedando no tapete como uma vinha partida no chão da floresta.

Surya, o Senhor da Luz, carregou-a de volta ao leito e permaneceu sorrindo sobre ela., iluminando o quarto com sua presença, de modo a não haver sombra em lugar algum. Cingia-o uma coroa alta de ouro, cujas formas se alteravam e se transformavam conforme respirava. Uma faixa de jóias e brilhantes caía do seu ombro esquerdo sobre o peito nu; do cinturão, do colar e braceletes de bronze, e dos longos brincos de ouro, pendiam laços e ramalhetes de gemas luminescentes: todas essas luzes tingiam o quarto com milhares de arcos coloridos. Ao tirar a coroa, seus cabelos dourados encaracolaram-se em torno de seu rosto como um elmo de bronze fosco.

-Princesa, desperte!

Kunti abriu os olhos.

– Você me chamou – disse Surya – , e eu vim.

Kunti recuperou a voz.

-Senhor do Dia, perdoe-me, mas só o chamei para testar meu novo mantra.

-Sei por que me chamou, e sou agora somente seu. Quer que eu parta?

-Não tenho marido, Senhor Surya.

-Logo irá casar-se. Os filhos dos deuses nascem em um dia. Permite que eu fique?

-A luz… meu pai poderá ver.

-Ninguém mais pode ver esta luz, princesa. Crianças podem comandar os deuses; partirei, se quiser, e você me verá novamente apenas no longínquo céu azul.

-Tão depressa! – suspirou Kunti. – Fique um pouco; veio, afinal, de muito longe para ver-me aqui.

Mahabharata (versão de Willian Buck)

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