O público

No segundo grau, numa aula de interpretação de texto, tive que escrever sobre Nos bailes da vida. Frente à pergunta “Todo artista tem que ir aonde o povo está? Por quê?”, fui a única que disse: “Não, isso é uma opção pessoal do artista”. Nunca imaginei que colocaria em prática essa resposta e descobriria que Milton Nascimento estava certo desde o início.

Eu gostava de desenhar, mas não achava meu traço tão bom assim e a coisa não foi adiante. Já sonhei em ser jornalista porque adorava escrever, mas minhas histórias não resistiram à auto-crítica que crescia junto comigo e parei quando me tornei adolescente. Quis fazer teatro e minha mãe me impediu (cortou o dinheiro do ônibus) com medo da “promiscuidade do meio artístico”. Amava piano e toquei durante alguns anos, mas era um amor pouco correspondido. Minha mais séria tentativa foi a de virar escultora. Conscientemente, eu sabia que devia mostrar o meu trabalho. Mas tinha muita dificuldade em falar e mostrar, até mesmo para os amigos. Era quase como revelar um segredo. Eu pensava que o ideal seria como nos filmes, que o artista de verdade está preso ou num manicômio, e alguém se apresentasse mostrando o que eu fazia. Porque a parte de sentar na frente do barro, ter idéias, produzir, era deliciosa e muito fácil pra mim. Enquanto meus colegas de atelier levavam meses pra modelar uma peça, eu fazia em dois dias. Meu problema era, sempre foi, a parte de ir ao público. Expor qualquer coisa que eu fiz sempre fazia com que eu me sentisse nua, como se tivesse oferecendo meu próprio coração à pessoas indignas.

Quando eu comecei o ballet, frequentava uma escola para adultos que não tinha apresentação de fim de ano. Eles não queriam dor de cabeça. Durante muito tempo, isso pra mim era alívio, porque não queria passar vergonha de collant. Aí comecei a frequentar o curso de dança moderna e entendi o papel que o público tem. Fazer e ninguém ver é quase como se não fazer; a arte vai morrendo as poucos. A idéia de mostrar estimula, permite entender o próprio progresso, coloca sangue novo nas veias. Quando me exponho – aqui, num palco – sinto que me coloco contra toda uma vida, contra tendências do meu temperamento e todos os meus pudores. Por natureza, não gosto das pessoas. Aprendi a esperar o pior delas, as considero complicadas e maldosas. Mas apesar de nunca saber como serei interpretada, de não saber o que farão com meus gestos e palavras, eu preciso mostrar. Porque sei o que acontece quando se é talentoso só dentro de casa. Todo artista tem que ir aonde o povo está.