O que seria

Era pra eu estar fazendo doutorado agora. Foi a publicação da minha dissertação que me reaproximou do meu ex-orientador. Levei um exemplar de presente pra ele e outro pro departamento, que seria usado na avaliação do curso pela CAPES. Meu ex-orientador, que durante dois anos me pediu para entrar no doutorado, se mostrou aberto quando eu falei que pretendia voltar pra sociologia. Voltei a frequentar o grupo de estudos, escrevi um projeto muito bom, ajudei a organizar evento, mandei material para congresso, passei o ano inteiro estudando. Nas nossas conversas, ele me perguntava se estava atenta aos prazos, me dizia que desta vez eu teria bolsa e me disse pra já ir pensando que país eu iria para o meu doutorado-sanduíche. Eu já havia escolhido Espanha, porque é a única língua que eu falo e pra ir pra Sevilla, o berço do flamenco.

Só que quando chegou a hora de oficializar tudo, fui descartada. Normalmente, os alunos de doutorado precisam apenas da aprovação do seu futuro orientador. Como o curso teve uns problemas legais que não é o caso de contar, a seleção de doutorado passou a ter várias etapas, todas eliminatórias, semelhantes a outros concursos. E foi na primeira etapa, de avaliação do projeto, que eu não passei. Algo totalmente impensável pra quem já havia mostrado o projeto e tido o aval do professor há mais de seis meses. É como ser convidado pra trabalhar um lugar pelo dono da empresa e ser barrado pelo departamento de RH – é absurdo, não acontece. Ou seja, por algum motivo que eu nunca saberei qual é, meu ex-orientador decidiu voltar atrás depois de um ano de promessas.

Tudo o que eu havia planejado para os próximos cinco anos, e talvez até mais, não aconteceu. É provável, também, que esse seja o fim prematuro da minha carreira acadêmica – que eu já não amava, mas que não teria coragem de deixar.
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