Rigor

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Eu vi que tenho que me controlar, senão acabo virando fiscal de colegas de flamenco. Fico doida quando tem férias: somos avisados semanas de antecedência, por todos os meios possíveis; somos avisados durante as férias; somos avisados dias antes; somos avisados no dia. E todo ano aparece uma: Nossa, não sabia que tinha aula hoje, saí de casa despreparada, já marquei compromisso, etc. Ou tem aqueles que simplesmente faltam. Eu sou daquelas loucas que nunca falta, que se atrasa alguns minutos todo mundo acha que morreu, porque não é possível. Além de ser uma das minhas muitas características TOCs, é lição aprendida nos tempos de dureza. Eu fazia faculdade e tive que deixar inúmeros cursos interessantes passarem porque não tinha dinheiro. Os que tinham que viajar e pagar mensalidade, claro que nem pensar; o mais triste é quando o curso era gratuito e eu não tinha dinheiro para ônibus e lanche. Quem sempre teve grana acaba não tendo noção disso, que o gasto de transporte e comida, somado a outros, pesa. Então eu sei que nem sempre conseguimos unir tempo, dinheiro e possibilidade para fazer algo. Quando posso, quero aproveitar ao máximo – e me irrita quando as pessoas não têm noção do que estão desperdiçando.

TV no sertão

Hoje em dia essas reportagens não são comuns, mas eu já li várias que contavam, com grande alegria, da chegada da televisão em cidades onde as casas não tinham nem luz elétrica. Montava-se uma grande estrutura, vários metros de cabo, e colocavam a TV no meio da praça. As famílias iam todas pra lá, à noite, para assistir novela das oito. Essas reportagens não aparecem mais primeiro porque o sertão não é mais aquele, ainda bem. Segundo porque hoje já temos um tiquinho de noção de antropologia, e as pessoas já não acham mais que você está melhorando a vida das pessoas apenas em importar um item da sua sociedade e plantar no meio da delas. Eu ficava imaginando como seria uma sociedade bem tradicional, patriarcal, com acesso à tão pouca coisa, vendo os personagens das novelas. As casas, as roupas, o modo de falar, as relações – tudo acenaria para um mundo tão perto e tão longe, que eles nunca teriam acesso. Imagino os estragos que essas TVs não fizeram. Nesse sentido, eu até entendo (entender não quer dizer concordar, acatar, justificar, etc) o ódio que alguns grupos islâmicos têm da cultura ocidental. É distante demais, agressivo demais.

Não conheço ninguém que, na verdade, não seja mais do que um conjunto de equilíbrios instáveis. Alguns disfarçam melhor e outros pior. Mas mesmo os que disfarçam bem, os que parecem muito seguros, carregam na mochila um bom número de traumas de infância, incompreensões, pés na bunda, portas que não podem nunca ser abertas. Então, que ousadia e responsabilidade imensa é dizer pra alguém: “pode vir que eu te seguro”. Por isso que pra tudo hoje em dia a gente fala: “olha, acho que você devia procurar terapia”. É uma maneira de dizer: “eu vejo que tem uma coisa muito errada aí, mas não quero nem chegar perto com medo do que pode surgir”. Só gente muito louca faz psicologia, é de sair correndo. O buraco pode não ter fundo, ter mais buracos, pode ser que a pessoa nunca mais volte. Pode não ter monstro nenhum debaixo da cama, mas também pode ser que tenha… Acho que uma das características marcantes dos psicopatas (conheci mais de um, infelizmente) é justamente a coragem de dizer: “Pula!”. E que entusiasmo isso gera no outro, finalmente alguém que se compromete, que ama de verdade, que está disposto a ir até o fundo! Porque o normal é sentir medo, sair de fininho, mandar pro psicólogo. Pouca gente tem culhões pra mexer no buraco dos outros. O problema é que o psicopata fala “pula!” justamente porque nunca teve a intenção de mexer, ele sabe que não vai estar lá quando a pessoa pular de verdade. Ele mandou pular porque soava bem no momento, porque era útil. Quando a pessoa pular e se ver sozinha, ele já estará a quilômetros e o problema não será mais dele.

O barato que saiu caro

Controle da mente, pra mim, é o poder de não se deixar levar pelos pensamentos inúteis que nos atormentam. Não me importo que a minha mente voe por aí na velocidade da luz, desde que ela não o faça de maneira masoquista. Percebo que a minha tem um tema recorrente – quando estou começando a ficar aborrecida, seja por um motivo verdadeiro ou uma queda hormonal, ela volta ao mesmo tema, o tema sem solução que me aborrece a meses: o meu sapato de flamenco. Venho tentando ser fina e guardar esse aborrecimento para mim, mas não consigo mais. Encomendei esse sapato em dezembro do ano passado, porque uma amiga virtual gentilmente se ofereceu para buscá-lo em Barcelona. Pois bem, ela e o sapato estão juntos, em Recife, desde fevereiro. Depois disso, muitas coisas aconteceram na vida dela (na minha, na sua, na da Dona Teresinha…), com direito à gravidez de risco. E o meu sapato foi ficando. Ela já me explicou e eu já fui compreensiva, só que façam os cálculos de há quanto tempo foi isso. Já pedi, já relembrei, já fui sutil, já fui nada sutil… Não há impedimentos que expliquem que durante quase um ano ela ou qualquer pessoa não possa, somente, postar um sapato no correio. As despesas seriam por minha conta, era só ter o trabalho de embalar e mandar. Mas não, tem sido im.pos.sí.vel. Oras digo pra mim mesma encarar os fatos e dar esse sapato de quatrocentos reais (o melhor sapato de flamenco do mundo, investimento pra uma vida, presente de natal de 2012) como perdido, oras digo pra mim mesma que devo ter fé, que algumas pessoas são assim mesmo. Semana passada, depois de mais uma cobrança, pela milionésima vez ela disse que ia me mandar o sapato sem falta. Segunda, por SEDEX, “com cartinha de pedido de desculpas e lembrancinha”. Nem preciso dizer que não recebi nada.

 

Se pudesse voltar atrás, não teria feito nada disso. Teria pagado o correio, a taxa da receita federal, quem sabe comprado outro sapato numa loja. Achava essa operação toda muito cara, hoje não mais. Caro é perder um monte de apresentações, ter que contar com a falta de compromisso dos outros, se aborrecer mil vezes ao longo do ano e se sentir uma idiota. Eu nem ao menos posso comprar outro sapato, porque, afinal, já gastei uma fortuna naquele que nunca vi. Não me importo com lembrancinha, cartinha, porra nenhuma. Eu só queria o meu sapato.

Um acidente

Eu estava a pé, numa via rápida perto de casa. De longe vi duas mulheres, uma por volta de seus quarenta anos e a outra bem jovem, bonita e com um jeito todo de perua. No início pensei que eram mãe e filha. Só depois vi os dois carros parados, um deles com a lateral toda amassada e os eixos das duas rodas tortos, aquele tipo de coisa que dá perda total no carro. Quando passei por entre as duas, pude ouvir a peruinha falando:
– Na minha concepção, a culpa não foi de ninguém, mas se você quiser eu assumo.
Eu teria matado.

Minha pobre Dúnia

Hoje eu estava passeando com a Dúnia antes de ir pra aula quando surgiram 2 whippet de outra quadra e vieram correndo atacá-la. Eu sozinha na rua, gritando por socorro, sem ter como acudir a Dúnia. Não tinha uma pedra, nada por perto pra separar. Ela chorava, corria e não reagia. Se uns vizinhos não tivessem corrido, eles teriam acabado com ela ali mesmo. Os donos da casa não apenas não fizeram nada como a mulher ainda teve a ousadia de acusar a Dúnia, que nunca sai de casa sem guia, de um dia ter tentado atacar o filho dela! O Luiz já viu esses mesmos whippets atacando um cachorro na rua.

Levamos a Dúnia no veterinário e graças ao pêlo grande que ela tem, as conseqüências não foram mais graves. Ela vai ficar cada dia com mais medo de cachorro e eu não sei mais o que fazer pra passear com meu próprio cachorro pela rua, porque os OUTROS não cuidam dos seus cães.

Que mundo horrível esse que a gente vive onde nem um cachorro pode ser pacífico. :´(