Deixe-me ir

Tudo bem que eu era craque em relacionamentos à distância, mas eu bati todos os meus recordes quando me propus a manter um amor com alguém que morava em outro continente. É daquelas histórias que a gente imagina que SE um monte de coisas não fossem como eram, poderia ter sido bem diferente – só que na prática esses SEs são sempre tão impossíveis que é o mesmo que dizer que já nasceu condenado. Mesmo condenado, nos propusemos a manter contato e trocávamos e-mails todos os dias, mais de uma vez por dia. E olha que era a época da internet discada e eu acessava pelo computador da universidade. Naquele intervalo maior entre as aulas, tanto de manhã quanto de tarde, eu ia da Santos Andrade à Reitoria pra tentar acessar o computador. E antes de ir embora para casa também. Ficamos seis meses nessa. Ninguém devia fidelidade a ninguém, mas tínhamos o pacto de contar um ao outro caso alguma coisa acontecesse. 
No fim do semestre, ele me disse que estaria muito ocupado terminando sua tese, por isso não teria tempo de me escrever. Ele me mandava apenas um e-mail padrão, dizendo que continuava trabalhando e que me adorava. Naquele mesmo período eu fui dançar com uma amiga, e lá conheci um cara muito simpático, aquela coisa toda. Ele quis ficar comigo e fiquei tentada, mas pesando na balança achei que ele não era bom o suficiente para o e-mail que teria que escrever depois. Não ficamos e nunca mais nos vimos. Dias depois, meu namorado virtual finalmente havia terminado seu trabalho, e me escreveu um longo e-mail falando de uma festa que foi com seu melhor amigo, que havia aproveitado muito e que tinha conhecido uma moça. Não que tivesse acontecido algo, mas estava para acontecer e ele se sentiu na obrigação de me contar. Nem sei dizer o que me magoou mais, a mulher ou a perda de importância por ter recebido uma mensagem padrão por falta de tempo enquanto o outro ia a festas. Aquilo me pegou no último dia de aula, no fim da faculdade. Não apenas isso, na véspera de uma viagem de reconciliação com o meu pai. Tudo era muito doloroso e importante. Minha vida estava começando e eu não sabia onde estava pisando, não sabia onde me segurar. Eu lhe escrevi um longo e-mail e terminei tudo.
Anos depois eu voltei a lhe escrever, não lembro o motivo. Ele disse alguma coisa de eu ter ficado braba com ele e por isso aquele e-mail, e por isso o fim. Não era nada disso, ele não entendeu nada. Eu precisava ir embora, porque era louca o suficiente para persistir ainda mais. Ele, por amor a mim, precisava me deixar viver.