Feminices

Eu fico achando que eu e a cobradora do tubo temos um relacionamento, só porque estamos lá mais ou menos sempre o mesmo horário. Eu reparei quando ela sumiu – estava doente – e no dia que estava pintando as unhas e o cabelo todo alisado. Mas quando tento entrar no tubo correndo quase caio na catraca trancada. Ela só libera depois do dinheiro na mão dela, nem carteira aberta a convence. E você acha que eu faria isso com você? tenho vontade de perguntar.

 

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Comprei um esmalte que me prometeu um “efeito diferenciado” nas unhas. Ao invés de ficar com uma unha elitista, parece que eu estava pintando as paredes de casa de preto e não consegui tirar os respingos.

 

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Aquela sensação que toda mulher conhece de ter certeza de que soltou uma enorme bolha de sangue na calcinha. E a partir de então ter medo de sentar, de encostar uma perna na outra, de que te olhem e você está com uma bola vermelha na calça.

 

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Queria ir linda e flamenca pra uma festa, ia até colocar o meu aplique de coque (carinhosamente apelidado de “rato”) no cabelo. Mas na minha atual condição, acho que vou de ônibus e me troco lá. Sem chance pro cabelo. Sou a favor do transporte alternativo e etc., mas coletivismo e glamour não combinam nem um pouco. Pena.

Cabelo ativista

Voltei a ter cabelo curto há menos de um mês. Não que o meu cabelo fosse dessa comprideza toda, mas dava pra fazer um rabinho. E eu era apegada àquele rabinho, me sentia super cabeluda com ele. Achei que quando cortasse ia ficar exposta, o crânio à vista, radical, ia ser aquele escândalo. As pessoas com quem conversei também pareciam pensar assim, porque não tive reações tão boas quanto esperava à ideia de diminui-lo – “Ah, mas o seu cabelo é tão bonito!” De onde eu concluí que só obteria autorização pra cortar se começasse a deixar de lavar o cabelo, ele nascesse despontado, queimasse tudo com chapinha, fizesse uma descoloração barata, coisas desse nível. Parei de comentar e cortei. Pronto. Poucas reações. Silêncio quase que total. Aí minha profe de costura (Ah, não contei que agora estou aprendendo a costurar? Então, estou aprendendo a costurar) me perguntou, toda feliz: “Você cortou o cabelo, né? Ah, viu como eu reparo!?” Se precisava ser tão observador pra botar reparo que eu cortei o cabelo, é sinal de que o rabinho não fazia toda essa diferença.

 

 Aí a Fal conta: moço me explicou que só feministas — palavra pronunciada com cara de nojo — têm cabelo curto. É? Não vou discutir. Comecei a cortar o meu cabelo curto aos quinze anos, e ele pra mim significa tanta coisa. Na minha fase atual, é nitidamente um retorno. É como se eu tivesse voltado no tempo, voltado a ser quem eu era há mais de dez anos e ficar com medo de corte de cabelo me pareceu sem sentido. Porque antes eu era assim, me encantava com um corte e fazia. Me preocupar em como seria depois se eu mudasse de ideia ou se me achariam masculinizada nem me passavam pela cabeça. Eu não tinha medo de mudar, era da filosofia que cabelo cresce e pronto. Quero voltar à coragem que eu tinha naquela época, àquela moça que cada dia admiro mais. A confiança no futuro que ela (eu) tinha era baseada apenas em si (mim) mesma.

 

Quem me conhece pessoalmente também sabe que tenho muitos cabelos grisalhos e não os escondo, não passo nenhuma tinta. Agora os meus grisalhos aparecem ainda mais, por causa do corte. Antes eu pintava o cabelo, mas era relapsa. Ao invés de pintar o cabelo a cada quinze dias, levava pelo menos um mês. Quando a cor da tinta ainda era forte, as pessoas olhavam com indiferença. À medida que ela ia saindo e meu cabelo desbotava, vinham os elogios. Me perguntavam o que fiz, se eram luzes, diziam que o meu cabelo estava muito bonito. Depois de pintar muito e ouvir muito, decidi unir o útil ao agradável de deixar de pintar de uma vez. Tem um resto de tinta no banheiro, mofando.

 

Então imaginem o que o mocinho da Fal pensaria de mim, a ativista em pessoa. Aí eu me pergunto: fazer as coisas por preguiça, vale? Talvez valha. Talvez, em algum momento, eu devesse ter pensado: “os homens preferem cabelos longos” ou “só posso cortar curto se for garantido que vou ficar linda”. Mais: “anota na agenda, paga salão, usa shampoo tonalizante, mas não deixa de pintar esse cabelo. Coisa mais desleixada!”. Nunca decidi isso, nunca pensei em fazer do meu cabelo bandeira para qualquer coisa. Minha única questão é que se enquadrar dá tão mais trabalho…
(Juro que eu tentei colocar uma foto minha pra ilustrar o post, mas não achei nenhuma que desse pra ver…)

Mulherão

Durante muito tempo eu achei que o que me impedia de ser um mulherão era a aparência. No dia que eu tivesse um corpão para exibir… Os anos passaram e a adolescência passou, e com ela muitos complexos injustificados. Mas o fim da adolescência não me tornou um mulherão. Fiquei mais magra e mais gorda, fui a mais nova e a mais velha, me vesti melhor e pior, já tive cabelão e cabelinho, fui solteira e hoje sou casada. E em nenhum momento, entre uma amizade masculina e outra, entre uma festa e outra, entre uma conversa e outra, fui um mulherão. Pensei também que tinha a ver com a altura, que todo mulherão precisa ter pelo menos mais de 1,70. Aí conheci uma bailarina que conseguia ser um mulherão com a mesma altura que eu, 1,65. Será que todo mulherão tem peitão? Porque todas as que eu conheci tinham, ela tinha, e a forma como lembro dela é de bota, collant decotado e capa curta fechada por um cinto, andando pelo festival de Joinville e fazendo com que todos os heteros presentes no local (muito menor do que a média em outros lugares, reconheço) quase se jogassem no meio do caminho para chamar sua atenção. Foi com ela que tive a certeza de que todo mulherão acha muito natural que os homens se interessem por elas. Ou seja, eu sempre fiz tudo errado – eu tratava mal todos aqueles que não tinham chance. Do mulherão loiro e siliconado que vi na rua, aprendi que ser mulherão é um investimento que é pago com cantadas. Mulherão escondido debaixo de roupas discretas não existe, porque mulherão é justamente pra atrair olhares. Ser mulherão é um modo de vida, de se relacionar com o sexo oposto, de que colocar como objeto de desejo. Por isso que eu nunca fui e nunca serei um mulherão. E digo isso sem dores, sem achar que tenho menos valor por causa disso. Mulherão é apenas mais uma das muitas formas de ser feminina.

Eu sou macho!

Como mulher e hetero, eu deveria dizer aqui que meu lado masculino é lésbico. Mas não é. Meu lado masculino não só é muito macho, como se chama Armando e coça o saco em público.

Desde a minha infância todos notavam que o pequeno Armandinho era bastante saliente. Nas férias, meu pai tinha que usar da sua autoridade pra me tirar da rua e me fazer tomar banho. Claro, eu detestava brincar com as meninas. Elas eram frescas, preocupadas com a roupa e em estarem bonitas. Eu gostava de correr por aí, brincar com bola, usar estilingue, andar de bicicleta. Eu andava tão armandamente de bicicleta que meu pai resolveu dar um jeito. Sem que eu pedisse, ele me deu uma bicicleta com uma cestinha. Ele sabia que se fosse encaixada eu tiraria, por isso me deu uma com a cestinha soldada. O plano foi bom; pena que a cestinha soltou no primeiro dia – não resistiu à emocionante trilha de eucaliptos! Armando realmente adorava uma bike.

Com Armando aprendi a amar ter cabelos curtos e a detestar discutir a relação. Esse último ponto, apesar do que possa parecer, sempre me causou muitos problemas. Os homens estão acostumados a aprontar várias vezes e ter várias conversas sérias antes de (talvez) mudar o comportamento que desagrada sua companheira. Comigo todos eram pegos de surpresa porque eu simplesmente sumia, sem nunca ter suplicado qualquer mudança. E não adiantava querer voltar depois; vocês sabem, reconstruir relação é coisa de mulherzinha.

Confesso, minha família não gostava muito dessa história. Era uma amizade perigosa, todos temiam que eu fosse longe demais. Minha mãe suplicava pra eu comprar uma roupinha ao invés de gastar todo meu dinheiro em sebos. Eu demorei pra usar batom, não me sentia à vontade de saia e até hoje prefiro tênis a salto. Um dia, sem qualquer aviso prévio, me apaixonei perdidamente e decidi ser feminina. Simples assim.

Alias, ser feminina é simples. Dificil mesmo é ser uma mulher de culhões. Tenho pena das que não conseguem.