Meus eus

Há uma crônica do Veríssimo que eu adoro, acho que está no Comédias da Vida Privada. É de um homem que vai num bar e encontra diversas versões de si mesmo. Ele começa a perguntar se tivesse defendido ou não um pênalti, e no fim acaba concluindo que o melhor dele era o original, o que havia entrado no bar. Eu também tenho – não um bar, porque não bebo – um café cheio de versões minhas. De perto, os dias parecem todos iguais; mas existem alguns momentos decisivos que a gente sente que a vida poderia ser diferente.

 

Em uma das minhas vidas eu continuei fazendo teatro. Minha mãe não me proibiu, eu apresentei a peça do fim de ano, continuei fazendo oficina no ano seguinte. Não sei se continuaria atriz; a certeza que tenho dessa versão é que teria sido uma adolescente mais livre, teria amolecido minha rigidez mais cedo. Talvez as versões tatuadas e de cabelo colorido venham daí. Tenho versões como psicóloga, algumas de terninho e outras mais à vontade, todas um pouco prepotentes. A versão que trabalha no RH é infinitamente mais envelhecida e quadrada do que as outras. Tenho versões européias, com doutorado na Espanha, com marido ou ex-marido espanhol. Noutra tenho um tórrido caso destrutivo com um português. Em ambas, certamente teria um bom número de viagens no currículo. Não sei se nessa versão eu volto pro Brasil, se descubro o flamenco mais cedo, se mudo tanto a ponto de nem ser mais tímida. Quero crer que exista uma versão escultora de sucesso, mas nunca a vi. Existem versões ainda muito próximas onde sigo pela sociologia -mestrado, doutorado, pós-doutorado, concurso público – sem me desviar. Nela eu não fui arrebatada pela dança, mas minha mãe tem orgulho de mim. Não posso garantir nada, mas acho ouvi alguém falando “Bah!” por aqui…

 

Mais do que todas as versões, e de olhar para as minhas versões, o que eu realmente gosto é de saber que são muitas. Imagino o salão apinhado de Eus: algumas felizes, outras arrumadas, umas solitárias. Aceito, inclusive, a idéia de que algumas versões são melhores do que atual. O que me frustraria seria pensar que quem eu sou hoje era minha única alternativa.
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