Amor de empapar todas as folhagens

Talvez os religiosos tenham razão e a nossa grande dor seja a separação do Amor Primordial. Porque não há como – diante da lindeza dessa descrição de amor e a interpretação fabulosa da Bethânia – não se sentir tocado, saudoso de um amor tão grande. É como se todos soubéssemos como é amar e ser amado assim, mesmo que não possamos nomear quando e onde, mesmo que na nossa lembrança remeta a um paraíso que não sabemos como se perdeu.

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2011

Como muitas vezes na minha vida, começo este do zero, sem nada fechado. E justamente por ser algo recorrente na minha vida, aprendi a não mais me desesperar com isso. Eu tive uma colega de faculdade que brincavamos dizendo que todas nós íamos parar na terapia nos queixando dela. Porque queríamos ser como ela. Antes mesmo de entrar na faculdade, ela havia decidido ser psicóloga hospitalar. Ela fez todas as matérias e todos os estágios possíveis na área e ao sair da faculdade já tinha um curriculo ótimo. Quando se formou, ela decidiu apresentar um projeto num hospital nos primeiros meses e depois passar no mestrado. Eu ri da maneira como ela fez tudo parecer simples. E foi, ela fez tudo exatamente no prazo e na ordem que havia estabelecido. Foi ela quem me inspirou a escrever o texto Rochas e Folhas. Evidentemente ela é a rocha e eu a folha. Jamais consegui cumprir objetivos dessa maneira. Pelo contrário, quando estabeleço um objetivo, a vida faz de tudo para afastá-lo de mim.

O que eu quero pra esse ano é novamente conseguir inovar, descobrir uma estrada que nunca trilhei. As poucas coisas ao meu alcance não me agradam . Se tivesse que descrever o que vejo, seriam perspectivas pequenas e conformadas. Mas já vivi o suficiente pra saber que isso não quer dizer que elas não exista algo mais.

Fui o chefe Urutú-Branco – depois de ser Tatarana e de ter sido o jagunço Riobaldo. Essas coisas larguei, largaram de mim, na remotidão. Hoje eu quero é a fé, mais a bondade. Só que não entendo quem se praz com nada ou pouco; eu, não me serve cheirar a poeira do cogulo – mais quero mexer com minhas mãos e ir ver recrescer a massa…
Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas, p. 570

Não assista, leia!

Transferir um livro para as telas quase sempre desagrada os leitores. Partes inteiras são cortadas, personagens colados, aspectos importantes são minimizados e até mesmo o fim pode ser alterado (vide O Diabo Veste Prada e A Revolução dos Bichos). O única adaptação que não me desagradou foi O Senhor dos Anéis, que no livro contém infindaveis eles andaram, eles acamparam, eles dormiram, eles ficaram cansados. Seguem três coisas que apenas um livro faz por você.

1. Cinema é só visual.

Embora o livro também seja visual no sentido de ser lido (ou auditivo, no caso de audiolivros), a maneira como ele é descrito pode valorizar outros sentidos. Um excelente exemplo disso é o livro O Perfume. O protagonista – Jean-Baptiste Grenouille – percebe o mundo de maneira totalmente olfativa e tem entende coisas que para nós passa pela visão, de maneira olfativa. Por isso, o autor monta um mundo olfativo e as descrições que ele faz simplesmente não cabem em imagens. Como esta, que prende o leitor logo no segundo parágrafo do livro:

Na época em que falamos, reinava nas cidades um fedor dificilmente concebível por nós, hoje. As ruas fediam a merda, os pátios fediam a mijo, as escadarias fediam a madeira podre e bosta de rato; as cozinhas, a couve estragada e gordura de ovelha; sem ventilação, salas fediam a poeira, mofo; os quartos, a lençóis sebosos, a úmidos colchões de pena, impregnados do odor azedo dos penicos. Das chaminés fedia enxofre; dos curtumes, as lixívias corrosivas; dos matadouros, fedia sangue coagulado. Os homens fediam a suor e roupas não lavadas; da boca eles fediam a dentes estragados, dos estômagos fediam a cebola e, nos corpos, quando já não eram bem novos, a queijo velho, a leite azedo e a doenças infecciosas. Fediam os rios, fediam as praças, fediam as igrejas, fedia sob as pontes e dentro dos palácios. Fediam o camponês e o padre, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia a nobreza toda, até o rei fedia como um animal de rapina, e a rainha como uma cabra velha, tanto no verão quanto no inverno. Pois à ação desagregadora das bactérias, no século XVIII, não havia sido ainda colocado nenhum limite e, assim, não havia atividade humana, construtiva ou destrutiva, manifestação alguma de vida, a vicejar ou a fenecer, que não fosse acompanhada de fedor.
SÜSKIND, Patrick. O Perfume: a história de um assassino. p. 5- 6
2. No cinema, as coisas são convertidas em ação.
Nos livros, não gostamos dos personagens apenas pelo que eles fazem ou faltam. São as impressões que eles têm ao encontrarem certos desafios, opiniões jamais expressas sobre outras pessoas, descrições de como seu modo de ser se encaixa na realidade. Na maioria das vezes, à medida em que o livro avança, começa um sentimento de familiaridade com os personagens. No cinema, eles são obrigados a transformar essas coisas em cenas, em diálogos estranhos ou aquela famosa voz de fundo. O livro, por excelência, é um lugar de viagens interiores:

Quando isso aconteceu, Orlando deu um suspiro de alívio, acendeu um cigarro e soprou em silêncio um ou dois minutos. Depois, chamou hesitante, como se a pessoa que procurasse pudesse não estar ali: “Orlando?” Pois se há (por acaso) setenta e seis campos diferentes, todos pulsando simultaneamente na cabeça, quantas pessoas diferentes não haverá – valha-nos o céu -, todas morando, num tempo ou noutro, no espírito humano? Alguns dizem que duas mil e cinquenta e duas. Do modo que é a coisa mais natural do mundo uma pessoa chamar, logo que fique sozinha, Orlando? (se esse é seu nome), querendo com isso dizer Vem, vem! Estou mortalmente cansada deste eu. Preciso de outro. Daí as mudanças assombrosas que vemos em nossos amigos. Mas isso também não é muito fácil, pois, embora se possa dizer, como Orlando disse (achando-se no campo e precisando de outro eu) Orlando?, o Orlando que ela necessita não vir; esses eus de que somos todos constituídos, sobrepostos uns aos outros como pratos empilhados na mão do copeiro, têm suas predileções, simpatias, pequenos códigos e direitos próprios, chamem-se como quiserem (e muitas dessas coisas não tem nome), de modo que um só virá se estiver chovendo, outro, se for num quarto com cortinas verdes, outro, se a Sra Jones não estiver lá, outro, se lhe prometermos um copo de vinho – e assim por diante; pois cada pessoa pode multiplicar com sua própria experiência as diferentes condições que impõem os seus diferentes eus – e algumas, de tão ridículas, nem podem ser impressas em letra de fôrma.

WOOLF, Virgínia. Orlando. p. 183


3. Cinema mostra a visão do diretor, e não do autor.

Os escritores mais interessantes e geniais tinham uma linguagem própria. A maneira como eles escreviam muitas vezes era mais interessante do que a história em si. Veja o caso de Ulisses, de Joyce, famoso pela maneira revolucionária com que foi escrito. Conhece um autor não se resume a saber o que seus livros dizem; a gente conhece um autor quando reconhece o estilo do seu texto. No cinema, a gente reconhece o diretor. O livro Grande Sertão: Veredas não é um clássico da literatura por causa de Diadorim ou Riobaldo. O interessante do livro é ser escrito assim:

Digo o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam no meu rosto, quando ele cortou meu cabelo. Sempre. Do demo: Digo? Com que entendimento eu entendia, com que olhos era que eu olhava?
ROSA, Guimarães. Grande Sertão: Veredas p. 137