Reforma

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Não é de hoje que a biblioteca pública está em reforma, inclusive achei que demorou porque a planta de como vai ficar esteve no site faz tempo. Por ali dava pra ver (já não dá mais) que vai ficar lindo – vão aproveitar a área do fundo, a do balcão de empréstimo, pra colocar uma cantina, tendência que tem em tudo quanto é livraria e o potencial imenso da biblioteca pública não era explorado. Mas tirando umas numerações que mudaram de lugar e a necessidade de manter a porta da sala de literatura (a primeira à direita no térreo) sempre fechada, nada de muito chato estava acontecendo. Hoje cheguei lá e foi um susto: pra começar, a parte onde deixamos as bolsas virou um balcão baixo e feioso, temporário, e deixou as moças tão mais próximas da gente que chega a ser esquisito. Na entrada propriamente dita, uma baita quebradeira e o balcão de empréstimo na cara da gente, à direita do hall, como se fosse um quiosque e dificultando o acesso à sala de literatura. Peguei o que queria e quando fui devolver e emprestar meus livros a moça ficou sem graça: o sistema não lia direito o código de barras (sim, tem código de barras. E leitura de digital também, te mete), o que tornou o processo muito mais demorado do que os trinta segundos normais. Enquanto isso, o som de quebradeira ao fundo. Terminei essa etapa e fui passar no carinha que desabilita o alarme (sim, alarme). “Mas que barulho, hein? Só no tempo que a moça levou no empréstimo já fiquei com vontade de sair correndo”. Ele estava muito puto. Falou que aquilo era serviço para se fazer à noite, que não tinha a menor condição, que ontem levantou um pó tremendo e eles lá, que aquele barulho nem estava tão ruim assim porque tinha momentos que era pior. Ele fez o que tinha de fazer, me devolveu os livros e nos olhamos indignados cúmplices. E eu fui embora sem saber se havia lhe feito um bem ou um mal.

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Pedriscos

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Eu tenho uma séria desconfiança de uma coisa que levou a minha casa a ser uma das poucas da vizinhança que nunca foi assaltada é o pouco cuidado que dedico à minha fachada. Um lado é falta de dinheiro mesmo, não vou mentir. Todos os meus vizinhos já retocaram a pintura – alguns mais de uma vez – e a minha ainda é a mesma de quando eu me mudei. Meu muro eu pinto com cal fino mesmo, a barateza do método é simplesmente de Deus. O outro é falta de comprometimento. Por exemplo, é bastante anti-ecológico pessoas que lavam suas calçadas com mangueira, certo? Pois eu sou mais ecológica ainda: eu jamais lavei minha calçada. Não passa pela minha cabeça, não há ser humano que me convença da necessidade de passar água e sabão numa calçada. Então quando eu tirei a grama aí da frente, e o pedreiro disse que quanto mais tempo deixasse a areia mais ela penetraria nos tijolinhos e melhor ficaria, foi a união do útil ao agradável. Deixei lá e esqueci. O problema é que não tinha só areia, sobrou bastante pedrisco e a prefeitura não vinha pegar. Mais de um mês e eles lá, entulhando minha entrada. Acho que outra pessoa teria chamado caçamba, varrido, enfiado em sacos, tomado alguma providência que não fosse deixar aquela bagunça exposta ao tempo.

Até que uma tarde, estava eu passeando com a Dúnia, e quando passei na frente de uma casa aqui perto, o sujeito que estava pintando a grade puxou conversa comigo. “Você é a dona da casa com pedriscos?”. Eu já fui dizendo que havia sim chamado a prefeitura três vezes e nada deles aparecerem. Aí ele me perguntou se poderia pegar um pouco, porque estava fazendo uma reforma numa chácara que ele tem, estava fazendo um galinheiro. “Claro, pegue o quanto você quiser, é um favor que você me faz!”. O cara era conversador: ele me contou da pintura que estava fazendo, que eu podia falar com Dona Fulana pra ela dar as referências, que ele trabalhou mais de vinte anos na empresa tal, que se eu quisesse pintar minha casa, que revestimento era bom e não encarecia muito, que ele tem acordo com uma loja de material de construção e cliente dele paga mais barato, que serviço grande ele já não pegava mais e o irmão dele tem uma empresa… Nessas alturas a Dúnia já estava louca da vida, uivando de impaciência e eu me despedi. Naquele dia mesmo ele foi lá com uma lata, pegou um pouco de pedras e foi embora.

Mas ainda tinha muita pedra e nada da prefeitura. Poucos dias depois o pintor parou com uma picape já toda forrada de plástico atrás e uma pá. Foi quase tudo – o que ele não pegou foi a bagunça de pedra espalhada, o que deixou um tico de pedras e minha fachada ainda mais porca. Simpática, horário de passeio da Dúnia, fui falar com ele: E aí, que bom que você veio, etc. Eis que o sujeito me solta essa:

-Olha, Dona, estava aqui olhando, e a senhora REALMENTE PRECISA de uma reforma nessa fachada. Não é pintura não, precisa de revestimento.

Putaquepariu, viu?

Trabalho que aparece pouco

Levamos anos tentando achar um pedreiro que se dispusesse a trocar a nossa porta de frente. Só isso – fechar a parede onde ficava a porta e abrir outra logo ali do lado. Pra incrementar um pouco a reforma, seria bom colocar alguns tijolos de vidro no lugar onde a porta estava. Foram muitas as indicações. Chamamos tanta gente e tão poucos apareceram, e desses ninguém nem mandou orçamento, que parecia que estávamos procurando emprego e não tentando contratar alguém. O problema se resolveu porque fizeram uma reforma numa casa por aqui perto, e fui eu mesma abordar o pedreiro. Foi uma luta convencer o homem. Mostrei a casa pra ele, descrevi o serviço, ele me respondeu que agora não podia, eu disse que assim era até melhor porque a porta demoraria pra chegar, ele não gostou da posição dos tijolos de vidro, eu mudei os tijolos pra facilitar pra ele. Foram dois dias de negociações e muitas dúvidas. Até o último minuto fiquei ansiosa à espera dele, nem acreditava que o sonho da reforma própria finalmente se realizaria.
Quando finalmente o pedreiro veio, o preço foi bom, o serviço bem feito e creio que ficamos todos felizes. A reforma durou um fim de semana de muito trabalho, porta e tijolos de vidro são mesmo complicados. São ajustes, massas que precisam secar, que deformam, só vendo para entender. Muito conversador, ele acabou me falando que existem alguns serviços que eles, pedreiros, não gostam, porque “aparece pouco”. Fazer porta era um deles, assim como consertar azulejos e umas coisas que eu não entendo. Reforma boa é levantar muros, cobrir uma parede, fazer um telhado, construir. Nos serviços que não aparece, o sujeito passa o dia inteiro em cima, tem um trabalhão, e quando o patrão vai lá olhar, não tem dimensão do trabalho que deu. Aí quem não entende tem a impressão de que o serviço não vale nada, que nem é difícil.
Escrever é a mesmíssima coisa.

Pedreiro-estrela

Pedreiro é igual psicólogo: ou ninguém quer porque não confia, ou é tão bom que não tem espaço na agenda. Porque poucos tem coragem de fazer como um amigo meu, que quando precisava de alguém perguntava pro mestre de obras da construção mais perto. Eles entram nas nossas casas, fazem parte (e atrapalham) nossas rotinas, não dá pra confiar em qualquer um. Isso sem falar que um serviço mal feito custa o dobro. Todos esses fatores fazem com que a gente se submeta a pedreiros que são verdadeiras estrelas pop: aparecem quando querem, pegam o serviço que estão a fim, dão os canos, somem e mesmo assim fazemos todas as suas vontades para não perdê-los.

Pra quem precisa de uma reforma pequena como é o meu caso, fica ainda pior. Porque eles não gostam de pegar serviços assim, baratinhos e de um dia ou dois. Os que olharam o que a gente quer foram unanimes em dizer que é coisa simples; e foram unanimes em desaparecer depois. Até propus uma outra quebradeira, no banheiro, pra ver se ficamos mais interessantes. O último que veio aqui em casa – com a mulher, de chapéu de vaqueiro e F1000 cabine dupla – ficou de nos mandar o orçamento por e-mail, coisa chique. Isso já faz mais de duas semanas, apesar dos nossos lembretes. É que ele está ocupado demais com outro serviço, esse sim grande e complexo. Agora nos resta esperar outro, igualmente estrela, arranjar espaço na agenda para nos dar o prazer de sua visita.