Uma manhã, no salão…

Eu cheguei pouca coisa antes do meu horário, e minha cabeleireira estava ocupada. Na pequena salinha de espera, uma TV estilo retrô, no mute, passava algum filme que eu nunca vi e não faço ideia de qual é. Pra quem quiser descobrir: a mocinha, acho, é a Penny do Quase Famosos, numa versão mais velha e menos fofa. O marido (marido?) dela é o Gael. 

Cena num restaurante chique. Penny estava com um vestido simples e delicado, com os cabelos sem presos e os cachinhos caindo pelas laterais do rosto. Sentado diante dela, um homem mais velho de terno, com pinta de pai. Todo aquele clima de que ela-é-um-pessoa-simples-que-não-concorda-com-os-valores-da-família-rica. Essa ideia é reforçada quando, sem dar tempo nem de trazerem os pães, ela troca meia dúzia de palavras com o suposto pai e olha pra cima com ar de enfado. De tão indignada, ela pega o casaco e sai batendo o pé. Depois de atravessar o salão e a fachada chiquérrima do restaurante, há um táxi na porta à espera dela. Aparentemente, esse foi o tempo que levou pro pai pagar a conta da entrada que não comeu e ir atrás dela. A moça abre a porta do táxi. O pai a chama. Ela se vira. Ele fala alguma coisa. Ela não acha suficiente e retruca, agora quase entrando no táxi. Pai fala mais, ela não se convence mas se vira pra ouvir. Aí ele fala mais, discursa. Acho que na hora ele disse que a ama, lembra do tempo que comprava sorvete pra ela, diz “sim, eu errei, mas errei por amor, você é a minha filhinha!”, promete deixar de ser materialista, dar os bens pra caridade, virar budista, aquela coisa toda. A expressão da mocinha vai mudando ao longo do discurso, ela desemburra. Ele diz tudo o que tinha pra dizer. Suspense. Ela sorri, vai até ele, eles se abraçam emocionados. Se reconciliaram, o almoço foi um sucesso, economizaram terapia, tiveram ali a conversa das suas vidas.

Eu, enquanto isso, pensando na irritação do taxista. 

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Na superfície

Da fabulosa entrevista do Dr. Drauzio no Roda Viva
(Sim, vejo os programas com atraso. Roda Viva on line: melhor coisa pra quando você tem muito tempo livre pra ficar na net.

– O senhor gosta desse ambiente (presídio)? Por que não fazer outra coisa, ir ao cinema, sei lá?

– Porque eu acho que é um ambiente muito rico. Eu acho que isso me deu uma visão, não só da vida, da organização da sociedade brasileira, mas acho que da complexidade da alma humana muito mais profunda da que eu tinha e da que eu teria se não tivesse frequentado esse mundo. Eu acho que é ao contrário, cada vez eu tento penetrar mais fundo, porque é um mundo muito rico. E você hoje na vida moderna, se você bobeia um pouco, você começa a conviver com pessoas que são idênticas a você o tempo inteiro. Pessoas que pensam mais ou menos como você pensa, que usam mais ou menos as mesmas roupas, frequentam os mesmos lugares… isso empobrece muito a visão do mundo. Eu acredito que a vida seja uma só e que no decorrer dela você tenha que ter a experiência mais profunda possível, a mais abrangente que você conseguir.

.oOo.

Estou em aula. O prof. Bodê lança para a turma a pergunta sobre como a questão da doação de orgãos tinha repercutido nas pessoas, as novas carteiras de identidade que tinha recém surgido, onde era possível discriminar a informação de não ser doador. Eu levanto a mão:
– O porteiro lá do prédio da minha mãe veio me mostrar a carteira nova dele, que ele tirou só para colocar que não era doador. Ele estava feliz. O que ele me disse era que essa doação compulsória era para salvar os filhos dos ricos. Que se ele, pobre, fosse parar no hospital, poderiam matá-lo para dar os orgãos para os outros. Com a carteira nova, ele garantia sua sobrevivência.

Silêncio na sala. A turma há muito me era hostil e tive a certeza de que meu comentário não tinha soado bem quando uma das CDFs líderes ergue o braço e mal esperou a permissão do professor para falar num tom muito irritado, como quem não se continha diante de tanta burrice.
– Claro que não é isso. A questão da doação de orgãos levantou toda a problemática social do imaginário da morte e… [insira aqui uma explicação altamente erudita]

Depois de ouvir a aluna com muita paciência, prof. Bodê delicadamente disse que não sabia dizer a posição das pessoas com relação ao imaginário da morte, mas o que ele tinha sentido era exatamente o que eu disse, que as pessoas tinham medo dos seus orgãos serem retirados em prol dos mais ricos…

Clichê

O mundo inteiro deve saber como é uma high school americana, de tanto os mesmos personagens aparecerem nos filmes: a loira gostosa e suas amigas gostosas, geralmente chefes de torcida, rainhas do baile, que são as mais populares e antipáticas da escola; seus respectivos namorados, riquinhos, violentos, bonitos, jogadores de futebol americanos; os losers, comumente seduzidos e humilhados por alguém do grupo anterior. Existem os clichês dos filmes policiais, com o policial branco e o negro e a máfia estrangeira; tem o clichê do homem e a mulher que se detestam e são radicalmente diferentes, mas quando o destino os obriga ao convívio descobrem um no outro o amor da sua vida, e por aí vai. E mesmo tendo clichês continuamos assistindo esses filmes, porque é muito difícil sair do clichê. Talvez porque a vida também seja cheia de clichês.

Não sei se foi a sociologia ou a idade que me deixaram assim, mas tenho visto o mundo em forma de clichês. Dito de outra forma, eu despersonalizo as coisas que me acontecem. Ao invés de achar que quem está me prejudicando é a Mariazinha, de vinte e poucos anos e usa camiseta rosa e mora no Batel, eu a vejo como parte de uma situação, como uma personagem. Assim como ela é representada pela Mariazinha, poderia ser outra pessoa. Os lugares têm a sua dinâmica e de certa forma isso é previsível. Em todo trabalho existe o piadista, existe a cobra, existe algum tipo de líder, tem aquele que está atulizado nas fofocas… De certa forma, a gente sempre está atuando em alguns desses papéis. Igual aquela piada que diz: Todo mundo conhece uma piranha, se você não conhece nenhuma é porque a piranha é você.

A consequência disso é que me pego sentindo menos raiva das pessoas, porque não estou levando à sério. Olho para a Mariazinha e sei que, talvez, numa outra circunstância, as coisas entre nós poderiam ser diferentes. Quem sabe se tivéssemos sido apresentadas numa festa, como seria? Onde e como conhecemos alguém faz muita diferença. Pode ser que tenhamos entrado na vida de alguém justo da pior forma, com nossa pior face. Não tenho ilusões: a Mariazinha no papel de vilã é apenas mais uma vilã, de todas as vilãs que aparecerão em toda minha vida – porque sempre há uma vilã. Aprender a lidar com ela me ajudará com todas as vilãs futuras.