Despersonalização?

Eu tenho uma característica pessoal que não sei como se chama. Eu chamo de despersonalização, do meu lado Zelig. Descrevo aqui pra ver se mais alguém se sente assim.

Por exemplo, reality show. Nego chega num BBB com toda aquela ideia de quem ele é. Eu sou bacana, forte, amigo da galera, divertido. Sou Fulano que frequenta tais bares, que namora com tais tipos de pessoas, formado em não sei onde e com tantos mil na poupança. Ou: sou um talento a ser descoberto, vou estourar, virar capa da Playboy e ser famoso. Aí ele fica confinado em hotel, fica confinado com um bando de desconhecidos, sofre situações estressantes e tudo o que ele achava que era deixa de ser. “As máscaras caem”, como se diz. A questão é que não são apenas máscaras do que a pessoa pensa que vai ser lá dentro, caem também aqueles conceitos que a pessoa constrói sobre si mesma. Eu, por exemplo, achei que tiraria de letra aprender a dirigir. Nunca me imaginei chorando durante aula prática, precisando fazer instrutor de psicólogo. Morro de vergonha perante mim mesma.

O que eu chamo de despersonalização é que eu esqueço bem rápido quem eu sou. Enquanto tem uns que não esquecem dos seus títulos jamais, ou que precisam ficar confinados durante muito tempo pra ficarem confusos, comigo é Pá Bum. Me põe uma roupinha diferente, muda meus horários e eu já não sou mais ninguém. Quer dizer, não mais quem eu era antes. No meio de artistas eu falava de arte, no meio de acadêmicos eu falava como intelectual, no meio de bailarinos eu falava de dança. Se perto de pessoas que me valorizavam eu me sentia bem, também junto dos que me viam como desprezível eu também me via como tal. Eu não uso uma bagagem prévia como defesa, sabe? Acho que isso me faz absorver mais dos lugares onde vou do que as outras pessoas. Como disse no começo, não sei se é bom ou ruim.
(Quando eu vi o filme, décadas atrás, eu não fazia ideia de quem eram os entrevistados que apareciam no começo. Estou encantada!)