O narrador e a narrativa

Veio parar nas minhas mãos o livro Com qualquer um de nós: um guia de terapias complementares para pacientes de câncer, ou para quem busca uma vida mais saudável. Ele foi escrito por Vitor Caruso Jr, um executivo que virou monge depois de lutar contra o câncer e dá palestras por todo país. Logo na capa, há uma frase do prof. Hermógenes: “Há décadas não lia ininterruptamente um livro. Um gesto de amor a todos que tiverem a graça divina de o ler”. Depois de ler algumas passagens, só posso concluir que o prof. Hermógenes não pegava num livro há décadas…

O livro só não é péssimo porque ele tem 66 páginas – pra ser péssimo em poucas páginas é preciso muito talento. Justamente isso falta ao autor. Veja essa passagem, do capítulo A noite em que morri, onde ele descreve o que sentiu diante da idéia da morte:

Naquela noite eu esperei para encontrar a morte, pois com o diagnóstico de aneurisma, ainda mais daquele tamanho, ela estaria, muito provavelmente, pela vizinhança. Passei a noite a imaginar como seria: Será que vai doer? Jesus vai me receber sorrindo? (e imaginava ele sorrindo). Será que virá o Sr. Morte, com aquele espeto na mão? Ou serão uns diabinhos risonhos, iguais aos do filme Ghost? Como será sair do corpo? Está demorando. Acho que devo ver aquela luz branca. Todo mundo fala que cairia na gandaia se tivesse uma última noite de vida, mas eu não estava com a mínima vontade de farrear. Será que vai passar a vida toda pela cabeça em alguns segundos? Se for assim, vou começar a reviver já, para poder fazê-lo com mais calma. Puxa, será que a hora em que a luz branca vier, vou escutar o barulho dos carros lá fora? Se eu fizer muito barulho, vou acordar a Marília. Tô demorando pra morrer.

Será que só eu penso MORRA! quando leio essa passagem? Olha, esse livro me fez duvidar da experiência desse cara; pra escrever desse jeito, ele deve ser ainda um executivo desses que acha Quem mexeu no meu queijo? o máximo. Esse troço de virar monge foi pura jogada de marketing, isso sim!

Aí lembrei de uma discussão muito interessante de Geertz, um antropólogo pós-moderno. Para ele a questão da narrativa é essencial na ciência, e quanto menos reconhecemos esse fato tanto mais dominados por elas. Pense num antropólogo excelente – que vai a campo, conhece todos, entende a realidade local, tem várias idéias… mas que escreve mal. Agora imagine outro que nem é tão bom assim, mas que sabe escrever de uma maneira mais profunda ou agradável. Ninguém saberá o que realmente eles fizeram – no final das contas, a maneira como a experiênca foi narrada se torna a verdade. No caso do monge, péssimamente narrada!

Pro pessoal de literatura essa questão é muito comum, mas a coisa é ainda mais profunda. As discussões pós-modernas apontam que tudo é uma forma de narração – algumas mais assumidas, como na literatura, e outras menos, como a ciência. As regras da ciência dão a ela uma aparência de imparcialidade, como se ela pairasse por cima das pessoas e do tempo. Na realidade, a ciência é feita por homens; que contam os fatos melhor ou pior, que escondem fracassos e exibem sucessos, que precisam passar por pessoas e disputas de poder dentro da academia, que escolhem objetos de estudos de acordo com sua vida e posturas pessoais… E quanto mais nos recusamos a olhar pra essa realidade, agindo como se a ciência fosse algo quase divino, mais difícil fica reconhecer os erros que ela comete.

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