Fantasia gitana

Não tem aquelas lendas de que a coitada da criança nasceu numa família de classe média e foi roubada por ciganos malvados, que a obrigaram a viver uma vida errante? Pro meu caso instituo a lenda contrária: eu, bebezinha cigana, estava linda na minha barraca e fui roubada por uma família de classe média, que me obrigou a viver entre paredes.
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Troca de TOCs

Assim como ter Transtorno Obsessivo Compulsivo e precisar tomar remédio é um extremo, não ligar para nada e não ter manias é outro extremo. Entre os dois, existem muitas possibilidades e muito graus. A história de me declarar TOC começou com um manual de psiquiatria que estudei na faculdade. Quando você lê os transtornos de personalidade os conhecidos sempre se encaixam. A maioria das minhas colegas era histérica, uma ou outra borderline e era, por unanimidade, TOC. Não que eu mesma não tivesse lido a descrição e me identificado com muitas coisas, mas não imaginava que para os outros era tão evidente. Só porque eu era extremamente perfeccionista em todos os meus trabalhos, sendo capaz de refazer, reescrever e reimprimir quantas vezes fosse necessário só para ele alcançar um padrão mínimo de qualidade? Olha que naquela época que nem tinha as nóias de contaminação que eu tenho hoje. Porque são duas nóias diferentes (de acordo com a minha classificação): a de limpeza é quem se importa com o visível, com o padrão básico que a boa dona de casa deve seguir. Quem se incomoda com contaminação fica de olho nas bactérias, no que toca, no encosta no corpo e no que entra. 
Sempre existe algo que você não havia pensado e conversar com outros TOCs é sempre um risco. É possível sair de um encontro ainda mais maníaco do que entrou. Como a Suzi, que conversou com uma amiga que disse que sempre colocava os pregadores de roupa combinando. “Combinando com a roupa?” a Suzi perguntou. Pela cara que a amiga fez, é provável que ela tenha saído de lá direto pro mercado pra comprar muitas variedades de cores de pregadores (ou pretos, porque combina com tudo). Assim que chego em casa eu lavo as mãos, principalmente se andei de ônibus. Mas como sou uma TOC envergonhada, nem sempre me sinto bem de chegar na casa dos outros e já pedir uma pia. Tive meu primeiro encontro com a gracinha da Ana, pegamos por acaso o mesmo ônibus. Chegamos, sentamos, conversamos e ela fez o favor (digo sem ironia) de pedir para lavar as mãos porque estava incomodada. Um alívio. Enquanto lavávamos as mãos – um lindo momento de congraçamento TOC – ela me disse que tinha uma certa cisma com ônibus. Aí eu lhe disse “eu tenho tanta que a roupa que eu usei em ônibus fica até separada das outras”. Ou seja, se a Ana começar a deixar a roupa do ônibus em cadeiras ou cabides pra não se juntar com as outras, a culpa foi toda minha.
O Luiz não tem os meus TOCs e fica curtindo com a minha cara. Um dia estávamos num restaurante e quando peguei o saleiro, ele estava meio grudento. Falei que agora minha mão estava suja (já havia lavado depois que pedimos), porque, pensando bem, ninguém deveria limpar aqueles temperos. Aí ele começou a apontar o fato de que o cardápio deveria estar sujo também e começou a descrever todas as pessoas que pegaram naquele cardápio – homens que saem do banheiro sem lavar as mãos, crianças com mãos que tocaram o chão, mulheres com mania de mexer no cabelo, glutões que lambem os dedos – durante anos, e que ninguém nunca o limpou. Ou seja, se me virem pegar um cardápio com certa hesitação é que…

História verídica envolvendo mistério, humor e guarda-chuva

Num dia chuvoso, há mais de 6 meses, me rendi ao apelo dos vendedores e comprei um guarda-chuvão vai à dez. Comprei um quadriculado azul e cabo arredondado. Num outro dia chuvoso, não muito tempo depois, cheguei na academia e o porta guarda-chuvas estava cheio. Deixei meu guarda-chuvão lá e quando cheguei não o encontrei mais. Fui logo dizendo pras recepcionistas que tinha sido roubada. Mas aí eu reparei que no lugar do meu havia outro guarda-chuva muito parecido. Do mesmo tamanho, com o mesmo cabo arredondado e quadriculado azul. As únicas diferenças é que o azul era mais escuro e o guarda-chuva automático. Me disseram que os guarda-chuvas tinham sido trocados e que eu devia levar aquele. Meio na dúvida se era isso mesmo e sem alternativas diante da chuva, levei. Quem havia saído ganhando era eu, porque aquele guarda-chuva era melhor. Nos primeiros dias, achei que a velhinha míope (já supondo preconceituosamente) me pararia na rua exigindo o guarda-chuva de volta. Isso nunca aconteceu, o tempo passou e adotei o novo guarda-chuva.

Há poucos dias atrás estava chovendo. Cheguei na academia e o porta guarda-chuvas estava cheio. Deixei meu guarda-chuva automático lá e… É exatamente isso que você está pensando: quando eu saí, meu guarda-chuva havia sido destrocado. Lá estava ele, o guarda-chuva não-automático de quadriculado azul que eu comprei há mais de 6 meses. O bom filho à casa torna e eu ri. Nunca saberei com que ele ficou todo esse tempo.