Não fique muito longe

A publicidade já sabe disso faz tempo: quem quer ser importante precisa ser lembrado. Ver o símbolo da Coca-Cola toda hora, em todos os lugares, parece não ser nada, mas em algum lugar do cérebro, teremos sempre em mente que na hora de matar a sede existe Coca-Cola. Por mais que o tempo não cure tudo, não a ponto de fazer com que nunca mais doa, ele apaga um bocado. Apaga mais do que gostaríamos, quando amamos alguém. Some o cheiro, nas lembranças e nos objetos; some o calor do abraço, som da risada, o jeitinho especial de virar os olhos e sorrir. Chega uma hora que precisamos muito de retratos para que o rosto não suma inteiro. Com as coisas ruins, parece que o tempo se arrasta e não se vai nunca, que dez anos às vezes é pouco. É e não é. Mesmo não do tamanho da nossa pressa, as lembranças ruins também vão apagando, apagando, até que elas surgem apenas de vez em quando, repentinas, como uma sombra num beco. E o que é o amor senão um conjunto de sons, cheiros e toques repetidos e bons? Por isso que a distância é inimiga natural dos amantes. O amor é publicidade, é Coca-Cola, é como o cartaz que se repete em todos os lugares. Quem quer ser amado tem que se fazer sempre presente, porque senão um dia se vai. Seja pequeno ou grande, seja amor ou seja ódio. Por isso, não fique muito longe.
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