Único, essencial

Penso nesses atores mirins ou pessoas que fizeram sucesso muito cedo. Pra elas a queda é muito dura e não é difícil imaginar o motivo. Em entrevista, já vi muitos dizerem “estou curtindo o sucesso, preparado para a possibilidade de um dia ele acabar, estou tranquilo”. É claro que eles dizem isso e sabem da possibilidade de acabar, mas é uma repetição, uma conversa vazia. Porque eles não acreditam, de verdade, que aquilo vai acabar. Eles acreditam que o sucesso chegou para eles porque são únicos, insubstituíveis, porque tinha que ser. Todos nós temos esse sentimento de sermos únicos, estamos todos prontos e preparados para que o mundo confirme isso. E mesmo após sucessivos fracassos, a última coisa a cair é esse sentimento. Porque se acreditar único e essencial faz parte do amor próprio, do fato de sermos a única vida que acompanhamos o tempo todo.

Eu escrevo, acho que deu pra notar. Mas se fosse pensar numa pessoa que está à procura de uma blogueira, com textos pessoais e que emocionasse muito, a melhor de todas; para oferecer a ela uma coluna, um salário, uma oportunidade de ouro… Sinceramente? Eu não me escolheria, escolheria a Fal. E pra cada coisa que penso – uma bailaora talentosa, uma pessoa que sabe envolver os outros, uma pessoa cheia de iniciativa, uma pessoa sensível e empática, uma pessoa determinada, etc – sempre eu encontraria um nome muito bom para colocar diante de mim. Não é complexo de inferioridade, é reconhecimento. Reconhecimento das características bacanas que existem pelo mundo, do talento dos outros, da especialidade de cada um. A gente cresce e abandona o lado “astro mirim” e percebe que não é único e insubstituível, não no sentido estrela-pop-que-só-falta-ser-descoberta. O mundo está cheio de gente e cheio de talentos. Pra cada coisa que você é ótimo, existem milhões que são igualmente ótimos na mesma coisa. Se achar o melhor é sempre uma temeridade; é muito mais provável que você não conheça as pessoas melhores do que você, e não que essas pessoas não existam.

Aí a gente se obriga a achar uma outra forma de pensar. De que cada um é e não é único e essencial. Não somos, na medida em que é possível colocar qualquer outro na função que gostaríamos que fosse nossa. E, surpresa, ele pode se sair melhor. Mas, ao mesmo tempo, cada um é sim único e essencial. Pergunte pra quem está do seu lado, para o seu amor, para o seu amigo. Não basta colocar alguém com sorriso mais branco no seu lugar e está tudo bem. Sou única e essencial porque só eu faço as coisas do meu jeito, só eu digo o que eu digo.  Na escrita, eu acho a Fal muito melhor, muito mais sensível – mas tem a Fal e tem eu. A Fal fala coisas maravilhosas e eu falo de outras coisas. Podem não ser maravilhosas, mas são outras. E tem coisas que nem eu e nem a Fal falamos, então é preciso que existam outros. Melhor em quê e melhor pra quê? Pra certas coisas não existem medida, apenas preferências. Ser único, hoje, me parece uma construção. Quero encontrar a minha voz e que ela seja inconfundível.

Para conhecer alguém

Eu e a Luzia já trabalhávamos juntas, pelo menos, há um ano. Íamos realizar aquela que seria minha primeira exposição de esculturas, uma exposição coletiva na Rosa Cruz. Eu e ela exporíamos esculturas em resina com pó de mármore. Um problema comum a todo escultor é a questão do acabamento. Fazíamos a peça no barro, molde o mais fiel possível, preenchíamos com o material e na hora que a peça sai do molde ela sempre tem bolhas, rebarbas, marcas de molde. E o tal do acabamento pode salvar ou acabar com uma peça. Lá no atelier nós tínhamos uma cultura de lixas, de achar que pintar a peça a empobrecia. O grande lance era lixar, tampar os buracos que a lixa fizesse aparecer e lixar de novo.  Dava um trabalho do cão, especialmente nas minhas peças super detalhadas.

Alguém nos sugeriu fazer um jateamento, tal como se faz em vidro. A exposição se aproximava e estávamos desesperadas. Ela levou uma peça e eu levei outra. Explicamos para o sujeito, dissemos a numeração do jateamento que queríamos e voltaríamos em poucos dias. Quando voltamos, o jateador estava muito orgulhoso com o trabalho que ele havia feito. Era um homem que só jateava vidros, então ele se empenhou pessoalmente naquela tarefa. Quando ele trouxe as peças de volta, a da Luzia parecia um queijo suiço e a minha, que era grande, ostentava as marcas do jato, como se fossem grossas pinceladas. Depois a Luzia contaria a história dessa forma:
– O cara veio todo orgulhoso com as peças, que ficaram um lixo. Quando a Caminhante olhou para a peça dela, dava pra ver a decepção no olhar. Achei que ela ia fazer um escândalo, protestaria, brigaria com o sujeito, pediria o seu dinheiro de volta. Mas a Caminhante se limitou a agradecer e pegar a peça de volta. Nesse momento eu entendi quem ela é.

Eu não gostei nada dessa conclusão. De tantas coisas que havíamos vivido juntas, tantas risadas, tantos desafios, tantas conversas, e ela achou que minha personalidade foi desnudada por uma momento tão… pouco viril. Eu teria escolhido outros, eu teria me descrito de outra forma. Teria citado, quem sabe, quando fiz uma peça maior do que eu e a concluí sozinha, ou quando me dediquei até o fim pra terminar aquela encomenda, ou o dia o fato de que tiraram onda com a minha cara por ser tão mais nova e pouco a pouco conquistei o respeito de todo mundo. Se me pedissem uma seleção dos meus momentos, como uma grande apresentação, esses seriam eles. Mas a verdade, a grande verdade, é que o que somos não está contido no que dizemos, no que gostaríamos, no que exibimos, enfim, na personalidade domingueira. Uma pessoa se revela quando recebe um serviço mal feito, leva uma invertida de um amigo, faz mais um esforço quando está exausta, é pega de surpresa, precisa decidir rápido, disputa uma vaga, esquecem de trazer a sua comida no restaurante. A personalidade de quando tudo está sob controle às vezes sugere o que está embaixo, às vezes é completamente ilusória. Somente um grande momento simbólico e não programado pode nos revelar alguém. Pode ser algo grande, um gesto heroico que muda uma vida; pode ser uma reclamação que não foi feita. Mas, até que aconteça, não conhecemos realmente alguém. E sem conhecer uma pessoa não podemos ter certeza de amá-la.

Tempo

Olho para trás e nem sei como pude fazer aquilo. A minha rotina era acordar cedo e ir para a faculdade. De tarde, ia para o mestrado. Não eram dois lugares diferentes, eram dois estados diferentes. A mesma rua, o mesmo local, tudo pode ter um significado totalmente diferente se você passa lá com o intervalo de algumas horas. Assim era eu, em poucas horas – aluna de graduação e de mestrado. Quando tentei o mestrado, estava no segundo ano da graduação e já tinha outra faculdade. As pessoas já não iam muito com a minha cara na faculdade, a CDF mais velha que tinha desprezado abertamente o centro acadêmico logo nas primeiras semanas de aula. Mas os professores gostavam de mim, aquela aluna que sentava na frente, anotava muito e prestava atenção. Só que, como vocês podem imaginar, as coisas não foram feitas para que as pessoas façam graduação e mestrado juntos. Eu pude porque a matrícula de graduação fica num registro geral de alunos e a de pós fica no departamento, então eu aproveitei a brecha. Os alunos que já não iam com a minha cara passaram a me detestar – o que foi bom, porque eu não precisava fazer social e podia passar todo tempo lendo. Os professores acharam que eu devia largar a graduação. Claro, eu devia largar o menos importante em nome do mais importante. Mas eu sabia que se fizesse só o mestrado, seria para sempre a psi com mestrado em sociologia, e eu não me via como psi há muitos anos. Mais ainda depois de dois anos estudando sociologia. Então eu queria muito o diploma de socióloga. Se fosse para escolher trancar alguma coisa, por incrível que pareça, eu teria trancado o mestrado. Por isso resolvi ir levando, fazendo mestrado e graduação juntos. Numa tacada só, desagradei todo mundo. Como a expectativa era que eu não desse conta, soube que jamais poderia me queixar, pedir pra que aliviassem algo, me dessem um prazo maior para entregar um trabalho. Por isso levei ambos a ferro e fogo, fazendo tudo direito, comparecendo às aulas, ao grupo de estudo, às palestras, entregando todos os trabalhos, fazendo todos os seminários. Passar doze horas dentro da Reitoria era o normal. Eu estava sempre tão ocupada que, por mais que trabalhasse, sempre havia mais uns cinco trabalhos me esperando. A vantagem do fim de semana era trabalhar de pijama, só. Minha carga de leitura era inacreditável, eram centenas de páginas por dia. Foram dois anos inteiros sem saber o que é descansar, sem ter tempo para nada. Quando um amigo queria me ver era um problemão, eu ficava torcendo pra não me ligarem. Isso me obrigava a abrir espaço na agenda e  atrasar toda minha programação fechada, sendo que na verdade eu não sentia falta de ninguém porque pra mim o tempo sempre voava. Meu descontrole emocional no fim daquele período era tão grande que eu chorava em praças de alimentação, em saída de livrarias quando não encontrava um livro, na frente do computador quando recebia e-mail do meu orientador. Eu não lembro do que vestia, do que comia, como era o meu cabelo na época. As pessoas me admiravam, achavam que eu era um gênio sociológico e eu jamais havia me sentido tão miserável. Naquela época eu tive clareza de que aquele sonho acadêmico era o da minha mãe e não o meu.
Mas apesar de tudo isso, havia uma tranquilidade. Em meio àquela atividade frenética, eu tinha a certeza de estar fazendo o meu máximo, que eu ia chegar a algum lugar, que eu era competente. Hoje somos socialmente estimulados a não ter tempo pra nada. Há a tendência a achar que quanto mais ativo melhor, o que não é verdade. É a diferença entre se debater e nadar, esmurrar e dar um soco. A quantidade de coisas que eu li naquela época foi tão grande que minha mente apagou tudo. Dei as costas a tudo, exausta, achando que depois colheria os frutos e nunca mais consegui voltar. Lutei tanto por algo que nem… Sofri um efeito rebote e da loucura de trabalhar o tempo todo fui para a disponibilidade total de tempo – meu destino parece gostar de seguir os mesmos extremos da minha personalidade. Hoje tenho toda pausa e solidão que preciso, até mais do que preciso. Dos extremos, o agitado é mais fácil para mim. Ele é mais fácil de explicar, é mais o que se espera. Fazer o que os outros esperam de mim: tenho um lado Augie March difícil de curar. Eu era mais, aos meus olhos e aos dos outros. Não tenho saudades do descontrole emocional e da absurda falta de tempo, mas tenho saudades do sentimento de importância. Aquele não era o melhor dos mundos e este não é o melhor dos mundos. Esse negócio de lançar sementes e esperar brotar da terra é o avesso do que sou. Sinto como que se não estivesse fazendo nada, como se tivesse morrido. Descobri que espera e inferno são aparentados. Se não estou torturada pela atividade, me torturo com dúvidas. Tenho que achar um meio termo, eu sei.

Não é você, sou eu

Não acredito que escolhas e opiniões são baseadas em juízos perfeitamente racionais. No geral, não são. Se o são, é só para temas tão abstratos e longe do cotidiano quanto os spins das partículas quanta. De resto, o que nos afeta, é primeiro formado pelas experiências, a criação, a rotina, enfim, o que nos parece mais confortável. Primeiro, as idéias se afofam com o que somos; depois é que vem a busca pela justificativa moral, o floreio, os autores e estudos científicos que comprovam que estamos certos. Igualzinho quando estamos doentes e primeiro achamos que estamos deprimidos, ou que o dia foi ruim, pra só depois nos darmos conta que o mal começou no corpo. Primeiro tem a sensação e depois a mente cria uma historinha em cima – é pra isso que as mentes servem. Dito isso, sei que tenho umas premissas comigo do que eu faço ou tolero. Outros fazem e eu não, outros podem e eu não. Algumas parecem bem razoáveis, outras covardes. Sei que não são más em princípio, apenas que são más para mim. Do mesmo modo, minhas escolhas são más para outros. Que bom que existe a diversidade. Essa é uma pequena lista do que EU NÃO:

* Abraço causas: acho lindo, nobre e muito necessário. Mas eu não consigo. Tenho minhas opiniões, procuro ampliar meus horizontes de maneira a entender a espécie humana como uma só, e que independente de gênero, nacionalidade, credo ou cor, todos têm direito à felicidade. Só que eu não consigo agir no sentido de escolher um tema para repetir e convencer os outros. Eu me sinto chata, fico enjoada de mim mesma. Pior: tenho um certo espírito do contra e isso faz com que eu não consiga aderir às agendas dos movimentos. Acho importante todos irem numa direção, para reforçar, entendo a dinâmica. Mas eu não vou, não sou eu.

* Me envolvo em argumentações furiosas: aí são dois motivos. O primeiro é porque não acredito em discussões furiosas. Quando se atinge o nível de fúria, são dois bichos orgulhosos se degladiando. Se o importante é ganhar e esmagar o adversário, ninguém se deixará convencer de nada. Em segundo lugar, sou tranquila demais para manter um debate. Gosto de adrenalina, mas não dessa. Não sou assim no meu dia a dia. Nas poucas vezes que sou, é porque saí do meu normal. Tenho um acesso de raiva e em alguns instantes ele passa. Pra se manter numa discussão furiosa é preciso manter aquela energia. Vejo que tem quem se sinta mais vivo quando discute; em mim, é uma energia que faz mal.

* Fico ao lado de pessoas instáveis: instabilidade emocional não é falha de caráter. A pessoa pode ter um coração bom, ser confiável, carinhosa, boa amiga e ter imensas qualidades sendo instável. Um dia ou outro, em anos, é possível que essa pessoa não consiga manter sua civilidade e lhe fale coisas duras, coisas guardadas, pra logo depois se arrepender e querer voltar às boas. É uma agressão de momento, igual aqueles cães que quase matam os donos num acesso de loucura e depois estão abanando o rabo pra ele. Pra mim não vai. Talvez seja algo de criação; há um limite de respeito que eu jamais ultrapasso, às vezes nem com inimigos. Prefiro que respirem, pensem bem, se acalmem. Quando me dizem algo, eu levo à sério. Comigo não cola querer voltar atrás depois.

* Alimento pessimismos: eu mesma já fui depressiva e via na obrigação pela felicidade algo nocivo. Eu gostava de papos profundos, e achava que uma amizade só era amizade quando um conhecia o pior lado do outro. Lutei muito para sair desse estado, e de certa forma ainda luto. Hoje gosto de ficar feliz e de amigos que me façam rir. Eu não aguento muita queixa ao meu lado, não quero que aumentem a minha carga. Eu sei consolar e apoiar, mas espero que meus amigos usem esse serviço com a mesma parcimônia de quem aperta o alarme de incêndio. Falando em português claro e cruel: eu não sou amiga para todas as horas. Quando em dificuldades, eu faço o meu possível antes de pedir arrego; dos meus amigos, espero a mesma coisa.

Apesar de você

Eu tinha uma amiga que tirava tantas fotos de si mesma que era até cansativo. Eu sou muito chata com as minhas fotos, odeio quase todas. Então quando tirávamos fotos juntas e ela dizia “vamos tirar outra” porque nenhuma das duas achou que tinha saído bem, a sugestão era bem vinda. Mas quantas vezes uma pessoa comum aguenta repetir a pose, o sorriso de foto? Eu largava na terceira tentativa. Aí eu aproveitava pra comprar alguma coisa, ir no banheiro, ler um edital, enquanto ela continuava com suas milhares de tentativas até sair algo perfeito. Obviamente o perfil dela era cheio de fotos, todas descoladas e que passavam aquela mensagem – olha como eu vou nos melhores lugares, me visto bem, sou linda e popular. De todas as fotos que ela tinha, eu gostava de apenas uma, que tinha sido tirada por um amigo, de surpresa. Mais tarde ela até tirou do álbum. Naquela foto, ela estava com os braços apoiados na mesa, a cabeça abaixada e rindo. A foto passava uma sensação muito boa, dava vontade de rir também. Ela estava descabelada, com uma roupa de ficar em casa e tal, mas ali ela estava linda. Naquela foto eu via a amiga de quem eu gostava, a que ela nem sabia quem é, a que estava por dentro da super-descolada que ela tenta ser.

Tenho até uma certa dificuldade em explicar. Eu vejo que algumas pessoas compram uma idéia de que elas são um tipo de pessoa, e que essa é a sua marca registrada. Como essa amiga, que se achava descolada. Outras pessoas gostam da idéia de que são boazinhas, ou muito sinceras, ou a encarnação da moralidade, ou divertidas, etc. Só que elas não são. Ou até são mas não naquela intensidade, não de modo caricato, não o tempo todo. Mas elas forçam essa imagem, achando que é isso que as define. E não é. Na verdade, a gente gosta da pessoa apesar da imagem, da pessoa que ela é atrás da imagem, da que aparece quando ela está distraída. Era essa pessoa que aquela foto mostrava. Só que não dá pra dizer isso para a criatura, porque sem aquele papel ela pensaria que não é ninguém. Se ela soubesse que a tal imagem é justamente seu problema… O que quer dizer que se um dia ela conseguir ser cem por cento aquilo que ela sonha que é, o que havia de melhor ficou para trás.

Paradoxo

É duro tentar ser fã de um artista de outro país.

Quando descobri a Bebe, fiquei muito entusiasmada. Ela tinha uma coisa de libertação feminina, como a música Malo, que diz que “não se bate nas mulheres“, ou a música Ella, que pra mim é um verdadeiro hino – “não dormiu esta noite, mas não está cansada/ Não olhou nenhum espelho, mas se sente tão gata”. Outras músicas são de uma fragilidade extrema, algo sincero e meio depressivo. A música Siempre me quedará, pelo que eu li, fala de um aborto que ela teria sofrido: eu guardo a sua lembrança/ como o melhor segredo/ que doce foi ter-te dentro. Razones, cantada à capella, é a canção mais linda que já ouvi sobre saudade: o ar cheira a ti/ minha casa se cai porque não estás aqui/ meus lençóis, meu cabelo, minha roupa, buscam a ti.

Comprei o segundo CD com entusiasmo, mas já era flagrante que muita coisa havia mudado. Me busco ainda lembrava a outra fase (“me busco, me busco e não me encontro”), mas tinha também músicas provocantes como a Uh, uh, uh eu gosto de você/ Eu gosto de você e do seu irmão. Ou a muito quente La bichaque quando quero levo calças/ mas gosto mais das sainhas/ para quem me metas a mão por debaixo/ e me arranque todo arrancável. Ou em Se va, se fueque me importa que agora entre ou saia/ o que me importa é o instante (…) capazes de provocar em mim tanta brutalidade carnal. É óbvio que muita coisa havia mudado entre um disco e outro. Ela cresceu, virou uma artista famosa, realizou seus sonhos, passou a se sentir mais segura. O segundo disco não me tocou tanto quanto o primeiro mas, vá lá, as pessoas mudam.

Aí soube do terceiro CD, lançado no início do ano, um trabalho ainda fresco. Ao contrário dos outros, ele não foi um sucesso. E muitas pessoas que eram fãs dela deixaram de ser por causa do que ocorreu quando ela convocou uma coletiva para divulgar seu trabalho. Como se não bastasse o ataque de estrelismo, achei a música péssima… Fiquei com a impressão de que ela pegou esse lado sexual e foi mais fundo. Se eu quisesse ouvir isso não precisava buscar uma cantora espanhola.

Tudo isso foi pra dizer uma coisa: é paradoxal você gostar de alguém e o seu gostar alimentar um lado que você não gosta. Se ela nunca tivesse ficado tão famosa, seria sempre aquela Bebe…

O horror

Tem uma historinha que quase publiquei aqui, faz tempo, mas não tinha gostado do tom moralista dela. É assim:

Desde a sala de embarque, fiz amizade com um músico. Uma dessas amizades que duram apenas durante o vôo. Numa das muitas coisas que conversamos, ele me disse que tinha dois amigos judeus que haviam sobrevivido ao Holocausto. Um deles era um homem sisudo, amargo, pessimista. Ele era assim porque havia visto e vivido o que há de pior na humanidade, ele conhecia seu lado mais cruel. Já o outro amigo judeu era o oposto – festeiro, alegre, piadista, bom de papo, positivo. Ele era assim porque já havia visto e vivido o que há de pior na humanidade, ele conhecia… ou seja: ele já havia passado pelo pior. Depois daquilo, nada lhe parecia tão ruim.

A história fala por si só, pra mim. O chato é que ser uma pessoa otimista junto de pessimistas sempre vira uma disputa de traumas. Você é otimista porque nasceu em berço de ouro e eu não. Você é bonito e eu não, você ganha bem e eu não, e por aí vai. E se você se dá ao trabalho de dizer – não é bem assim, também tive meus problemas, também tenho meus problemas! não adianta, porque a disputa nunca acaba. O outro vai procurar picuinhas, até cansar, só pra justificar que o destino o condenou à infelicidade. E que a felicidade do outro é consequencia natural das coisas, sem qualquer mérito. Aposto que se esses dois judeus se encontrassem, era capaz de rolar um “mas o meu campo de concentração era pior do que o seu!”

Professoras de dança

Posso dizer sem exagero que tive aulas de ballet com as melhores professoras de Curitiba. Cheguei na primeira justamente por isso, porque no meio o trabalho da Cíntia é conhecido e respeitado por todos. Ela já foi primeira bailarina e hoje tem sua própria escola e grupo de contemporâneo. A família toda cuida da escola, e são todos fofos. A escola tem o diferencial de não dar aulas para crianças. Passei por outros professores dentro da mesma escola antes. Quando finalmente virei aluna da Cíntia, só sabia o básico. Fiquei intimidada e fascinada por aquela turma com bailarinos de diversos níveis e objetivos, porque até para os avançados era uma aula aproveitável. Tinha gente que dançou a vida inteira e parou, bailarinos na ativa, professores de ballet, loucos de pedra que simplesmente amavam o ballet como eu. Ela era capaz de explicar infinitas vezes o mesmo movimento, como se fosse a primeira vez. Dizia que levou anos pra adquirir a “generosidade necessária” pra dar aula para o básico. Sabe o que é admirar tanto uma pessoa a ponto de não saber o que falar quando ela está perto de você? Era assim que eu me sentia com a Cíntia.

Não gostei quando ela deixou de dar aula no meu horário e colocou a Nina no seu lugar, por mais que todos garantissem que era outra excelente professora. E era mesmo. Era uma bailarina carioca capaz de ficar no equilíbrio a qualquer momento, partindo de qualquer ponto. Ela fazia as transições mais difíceis com toda naturalidade. E como dançava! Vi o Quebra Nozes no balcão, não distinguia ninguém, mas quando a Nina entrou eu sabia que era ela, o palco ficou tomado. Não é à toa que esse foi o último grande espetáculo que ela dançou antes de ir pra Alemanha. Ela era ousada e nos cobrava ousadia o tempo todo – “Esse negócio de pé esticado vem com o tempo. O importante é aqui em cima, o que você consegue passar pro público”. Lembro de uma aula especialmente complicada, exaustiva, saímos pingando. Ela pediu uns saltos e umas sequencias que eu fiz do jeito que deu, ou seja, igual a uma galinha fugitiva. Na saída ela me falou – “Caminhantezinha (ela sempre me tratou no diminutivo, apesar de ser mais nova que eu), desculpe a aula puxada. É que só estavam vocês, que são roquenrou, e eu me entusiasmei”. Guardei esse elogio pra vida inteira.

Aí eu fui parar na escola da minha última professora de ballet, também dona de escola, conceituada e etc. Eu a conhecia desde a época da Cíntia, fizemos algumas aulas juntas e ela me deu algumas aulas. A escola da Professorona tinha uma estrutura profissional, com aulas diárias, ensaios, exercícios de solo, pilates, alongamento – tudo voltado para o ballet. Tinha outras duas alunas adultas, mas eu era a única que me dispunha a fazer tudo isso, que vivia no grupo. O clima era diferente – no lugar das aulas dançadas, correção dos movimentos; ao invés de conselhos, disciplina; a expressividade ficava jogada no canto, porque o importante era arrumar tudo antes. Ela gritava com aquelas crianças de um jeito que eu, com trinta anos na cara, teria voltado pra casa chorando. Minha técnica melhorou muito e rapidamente. Eu tentava ver na Professorona a pessoa legal que alguns diziam, mas comigo ela foi apenas correta. Levei as aulas dela e da Nina juntas o quanto pude, porque a primeira era obrigação e a segunda prazer. Era uma escola que visava formar bailarinos para o futuro, então tudo era muito sério, muito duro. Por necessidade, por contingência. Pelo menos era isso que eu pensava.

Agora eu sou aluna da Cris. Não é mais ballet, mas ela também é dona da escola e dá aula para todas as idades. Ela formou praticamente sozinha sua companhia, que é conhecida e respeitada. Pra conseguir isso, ela nunca elevou a voz, é adorada pelas crianças, faz com que todos se sintam em casa. A Cris é uma das pessoas mais generosas que eu conheço. O que a Professorona consegue com terrorismo, a Cris consegue com amizade e afeto. É nas pequenas coisas que a gente mostra quem é; não era a necessidade que tornava a Professorona uma pessoa dura.