Mortalidade

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Era de noite, eu estava no ônibus e me sentia miserável. É que estar miserável era meu estado normal aqueles dias. Aí meu ônibus parou no sinal na frente de outro, e naquela outro havia adolescentes rindo e uma moça com saia curta e uma meia calça de bolinhas. Por algum motivo eu achei que valia a pena estar ali, vê-los rindo, ver a meia calça de bolinhas.

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Eu me pegava muito pensando Nela. Quando as coisas estavam ruins, quando minha mente me torturava pelo fim, pela minha burrice, pelos meus erros, por tudo. Acho que o masoquismo era demais e chega uma hora que o organismo reage. Ele me dizia: “Ok, você está sofrendo muito por ter se separado. Mas o que seria melhor, ser Ela?” Não, eu tinha que reconhecer que não. Ela, naquele momento, não sofria pelo fim de nada porque jamais começou.

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Na noite anterior eu já sentia sinais. Uma contagem regressiva. Eu jamais havia entendido gente que comemora data de morte e coisas tristes, achei que era apenas desligar. Aí descobri que não é assim. Dormi pensando no assunto e já não acordei bem. Tentei várias coisas e nada me animava, até que antes das 10h eu sentei no sofá disposta a chorar todas as lágrimas, o dia inteiro. Foi naquele exato momento que Ele me convidou para almoçar, e quando soube como eu estava, para passarmos o dia juntos.

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Foi a minha dentista que, sem querer, me mostrou que eu era normal. Fomos da mesma turma de pilates durante alguns anos e eu a conheci pouco antes de se separar. “Nos fins de semana eu ia pra casa do meu ex, pra fazer faxina. Imagina só. É que você ainda está tão ligado que não sabe ficar sem o outro, aquela rotina. Com o tempo foi passando”.

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À caminho de casa eu estava pensando em publicar no meu facebook que o meu aniversário está chegando, pros amigos já ficarem sabendo e se esmerarem nos votos de felicidade e memes. Lembrei do Anderson, dos votos lindos que ele fez naquele aniversário, dizendo que eu era uma luz para os meus amigos. Só de lembrar eu me emociono, foi tão importante naquele momento. Quando eu chego em casa, o mesmo Ânderson publicou uma notícia tão triste, da filha que ele desejou tanto.

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O tempo, esse devorador de coisas.

 

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Pra dizer adeus

diante da imensidão do tempo

“Custava ela me dizer que” é sempre a queixa de quando as coisas terminam. O outro lado sempre poderia ter jogado mais limpo, ter confiado mais, dito de maneira mais clara o que queria. Como se não bastasse o rompimento em si, fica a mágoa por ter ouvido uma versão pobre, de um problema ter se multiplicado porque agora há climas e mal entendidos. No término descobrimos no outro um lado pequeno, mesquinho.

Eu acredito que algumas pessoas têm papeis específicos para desempenhar nas nossas vidas; alguns são mais longos do que outros, quase ninguém é pra permanecer a vida inteira. Não tem a ver com afinidade ou a vontade das partes, não tem a ver nem com amor. Tem gente que não nos desce direito e fica toda vida aí, e outras que queremos e admiramos tanto e já vão embora. Uma vez, no tempo da internet à lenha, um amigo estava com um amigo que queria fazer um site falando da doença rara da filha. Na mesma semana eu comecei a trocar mensagens com um cara, e ele trabalhava com isso. Nós encontramos uma única vez. Não sei nem dizer o motivo, foi uma tarde agradável mas nenhum dos dois sentiu vontade de mais. Comentei a história do site e ele se ofereceu pra fazer de graça. Fiquei com a clara impressão de que havíamos nos encontrado só pra isso.

Mas assim é fácil, né? Uma tarefa clara, um contato rápido e sem expectativas. Na maior parte das vezes os benefícios de um relacionamento são internos, as vidas se misturam, obrigações são criadas. É raro que os dois estejam no mesmo ritmo, geralmente um sente que já deu e o outro ainda quer ficar. Eu imagino os rompimentos como uma ordem da presidência, dada num mundo ideal, e na hora que ela chega na sua mão é um “te vira e tem que estar pronto até sexta”. Por isso, desista: no término, ninguém nunca diz ou age como deveria.

Aparelho, crush e solidão

te creo

Logo depois de colocar o aparelho, olhei meu reflexo e disse que estava horrorosa. Meu ortodontista defendeu seu trabalho e disse “ah, não fala assim!”. Talvez, de tanto colocar aparelho, ele consiga ver beleza em dentes metálicos. Já eu sentia minha boca enorme, obstáculos, coisas em lugares que até meia hora e dez anos atrás estavam lisas. Eu ainda era aquela, lisa. Coloquei massinha pra dormir, xinguei muito no twitter, economizei sorrisos. E por força, há tantos dias sem nunca ter trégua na sensação, sem poder tirar e nem me recusar a continuar, tenho deixado pouco a pouco de ser quem eu era. Durante quanto tempo a gente consegue resistir e guardar algo que não está mais lá? Falo mais do que um sorriso branquinho – falo do calor, dos assuntos, dos objetos, das expressões nos olhares novos e antigos. Estou falando da vida que muda de forma contínua e em todos os detalhes. Quando estamos infelizes queremos correr, correr, correr. Corri, consegui, agora estou em outro lugar. Nem melhor e nem pior, outro. Aí me pego segurando as lembranças como quem atravessa uma piscina com um papel na mão. Eu não sei mais o que é estar acompanhada. Eu desligo o alarme de manhã, eu apago as luzes da casa à noite. Imito os uivos da Dúnia quando vou encher o pote de água, como diante do computador, verifico os risquinhos na bateria do celular, carrego quilos na mochila em viagens de ônibus pela cidade inteira, em qualquer horário. Um dia não foi assim, eu me lembro; quando eu tinha outro nome essa casa tinha mais gente, eu não conseguia dormir sozinha e comentava em voz alta qualquer coisa interessante que via na internet. Um dia meus pés foram bonitos, meus cabelos enroscavam e a minha pele era macia. Hoje não sei. Olho para essas lembranças e… vai ver que são apenas implantes de memórias, igual dos replicantes. Eu me pergunto qual o ponto de querer um homem. Fora o hábito da carência e da programação feminina, fora o sexo, qual o ponto? Fui acusada de não querer realmente nada com ninguém, senão teria tentado me aproximar do crush. Um crush que nunca esteve longe, em nenhum sentido. Não nego. Agora ele está com namorada e “Olha a prova de que eu não tinha chance, quem gosta de uma perua dessas jamais gostaria de mim!” – digo com a certeza de quem se vê no lado oposto às peruas. Mas qual lado é esse, o que um homem buscaria em mim? Nunca soube direito, nunca fui boa nisso. Eu era recém-formada e morava com a minha mãe a última vez que essa questão se apresentava. E achei, quando me casei, que essa questão estaria resolvida para sempre. Eu me desacostumei em ter quem se importe com os meus horários, me veja nos fins de semana e se apresente como algo meu. Eu estou tão só – às vezes isso é flutuar, às vezes é não existir. A vida tem trocado todas as células e os objetos de quem eu fui, nos mínimos detalhes, até nos que ainda amo. Minha solidão é dor e é incômodo, mas também é meu berço, meu alimento, meu cobertor. Carrego comigo galáxias, desenho em nuvens, choro e sorrio pro vento, à espera de saber o que fazer com tudo isso.

Curtas bobinhos

espacateEu e minha eterna vergonha de comprar vaselina. Comprar camisinha seria mais fácil.

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Quando descobri que tinha Guerra e Paz na biblioteca em edição de bolso, estavam lá os volumes 1, 3 e 4. Supus que o 2 estava emprestado e peguei o 1. Quando devolvi o 1, o 2 já havia voltado e peguei o 3. Aí não tive mais tempo de ler, devolvi, peguei de novo e finalmente terminei. O 4 não estava lá. Porra, outro leitor do Guerra e Paz, você quebrou a corrente!

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O aparelho. As braquetes não são parte da boca. Ela ressecam, grudam na gengiva e machucam. Aí a gente tem que ficar descolando a boca, enchendo de saliva, passando a língua. Ô trem chato.

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Toda noite tenho sentido vontade de tomar chá. A mudança é possível, a humanidade tem jeito sim.

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Sobre os piores conselhos possíveis: os meus. Meus conselhos sempre se encaminharão para pés quentinhos, contas pagas e coração tranquilo. E, definitivamente, não é isso o que as pessoas buscam.

Casa nova e Paraísos

Fiz cagada com a mudança de Caminhante Diurno para At., Caminhante. Eu mudei a URL do blog sem saber direito que o Blogger fazia isso, e quando eu vi já não dava para voltar atrás e – o que é pior – um link não dava para ir direito para o outro. Muita gente veio me dizer que o blog saiu dos feeds e não adiantava nada mudar o link, as notificações não chegavam mais. Isso sem dizer nos anos de referências por aí como Caminhante Diurno que eu não tenho como voltar atrás e dizer “ei, sou eu!”. Mas, enfim, acontece, também não era nenhum nome de um milhão de dólares.

Então deixa eu avisar agora, com mais antecedência: em breve, estaremos de casa nova. Estou fazendo um site novo no WordPress. Tá ficando legal. Estou na dúvida sobre comprar domínio e outros detalhes que me fazem não querer colocar o link ainda. Acho que vocês me matam se eu mudar de Blogger pra WordPress e de WordPress pra .com em tão pouco tempo, né? Então, coming soon. Estejam avisados.

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Hoje é aniversário dela, da amada Fal. E hoje vi também este vídeo do projeto novo dela, o Paraísos de Papel. Sei lá, a gente vai envelhecendo e ficando besta. Chorei vendo o vídeo e pensando nas citações que elas não falaram mas que talvez adivinhe, no amor, no diabo, nas horas contínuas de leitura quando adolescente, na solidão acompanhada que é ler… Mas não quero ser repetitiva e nem estragar o vídeo. Clica aí.

Mais humor, por favor

Uma decepção insuperável que eu tive com o mundo da dança foi perceber que, mesmo lá, as pessoas se levam à sério demais. Pra mim, todo mundo que subia no palco era meio “povo do teatro”, e como povo do teatro – só falta os próprios também não serem assim! – eu entendia que era um pessoal diferente, que via a si mesmo e ao seu corpo como um instrumento de trabalho a ser modelado, superado, um brinquedo. Eu achava que ser capaz de subir num palco de roupa coladinha dava licença pra tudo. Mas não, por incrível que pareça. No balé e no flamenco existem as fórmulas, que embora possam parecer radicais à primeira vista, protegem. É roupa justinha sim, é rebolada sim, mas a pessoa diz pra si mesma que “é assim que essa dança é dançada” e com isso se protege. Aí a quebra que poderia acontecer não acontece – “faço, mas é no contexto, continuo sendo pessoa direita”. Uma pena! Tente propor algo novo, uma fala, uma história, uma teatralização, pra você ver as caras fechadas. “É que isso não é (insira aqui o nome da dança)”. Eta mundão de continuadores. Amamos a inovação sim, desde que aconteça lá longe, de preferência em outra modalidade artística.

 

Fiquei refrescada quando vi isso daqui (presente da Luciana). Pelo pouco que conheço de atletas, pode multiplicar as travas do pessoal de dança por dois.

Três curtas sobre o ponto

Visconde partido ao meio/ Italo Calvino

Dr. Drauzio, no livro Carcereiros, conta que parou de falar das suas experiências no presídio com os de fora. Como chegar para sua mulher e amigos, felizes num jantar, que ele tinha acabado de ver um jovem morrer ensangüentado e violado? Quem sabe Drauzio até sentisse alívio; em compensação, o jantar acabaria, os envolvidos sentiriam seu mundo como um lugar pior. E a respeito do jovem em si, nada mudaria.

 

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Antes eu acreditava que, duma maneira meio mágica, a franqueza, a sinceridade, a justiça, a não-violência e a felicidade podiam se combinar para o bem de todos. Era algo preciso, às vezes difícil, mas que existia. Se no seu devido tempo eu tivesse uma atitude correta, conseguiria ser justa com todos e não causar nenhum dano. Tem uma seita na Índia cujos adeptos andam com um pano tampando a boca e evitam colocar os pés no chão, que é pra não matar nenhum bichinho por acidente.

 

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O Luiz sabia muito a meu respeito, talvez tudo. Ele foi testemunha ocular de muita coisa, e o que ele não viu eu contei. Quando novos, nossa concepção de amor é assim: conheça-me por inteiro. Já não sei se mostrar meus esqueletos ajuda alguma coisa. Um dia um homem vai chegar com olhos felizes em me ver, e o que desejarei compartilhar com ele é mais e mais felicidade.

Só li verdades

Quer coisa mais desagradável do que a verdade? Por isso que digo que falar a verdade é um dos meus mais graves defeitos. Para me conter, procuro adotar como regra não dar a minha opinião a não ser que ela seja pedida. Mas o conceito de pedir é tão relativo… Teve uma semana no começo do ano que eu estava atacada, e disse pelo menos umas três verdades por aí. Gente, foi horrível. Mais uma dessas e as pessoas vão fazer complô pra me esfaquear, igual livro da Agatha Christie. Uma das vítimas foi uma amiga, que há tempos vinha exagerando numa insegurança. Uma pessoa boa e tal, mas era um problema de anos, uma lamentação sem sentido, todo mundo naquela atitude de “adoro Fulana, mas que saco quando ela…”. Aí ela veio com aquele papo num dia que meus pacová estavam pra cima e PLÁ, falei a verdade. Não precisei nem de cinco minutos pra escrever a um amigo, já arrependida.

 

(Vivo contando essa história por aí. Ela sempre vem acompanhada de um “por isso que eu adoro homem”. Uma mulher, como vocês perceberão, jamais diria o que ele me disse.)

 

Expus todo caso e as provas. E que tinha acabado de mandar resposta com isso isso e aquilo. Depois de ouvir tudo, ele apenas me respondeu:

– Se ela deixar de falar com você, vai te fazer falta?
– Hummm… não.
– Então está resolvido.

Essa história, por incrível que pareça, é a minha reflexão de 2015. As coisas não foram da forma como eu planejei, de jeito nenhum como eu pretendia, a truculência foi maior do que eu imaginava. Minhas mudanças não têm batido na porta – elas colocam as portas abaixo e vão entrando com suas botas enlameadas. Nada como eu teria feito, nada sob controle. Mas, sendo bem franca comigo mesma: não me fazem falta.

Chá

Foi assim: depois de comer pastéis na segunda noite seguida durante a semana, fiquei muito enjoada e mal conseguia comer. Então tomava café. Quando dei por mim, estava há quase dois dias à base de café, praticamente uma Balzac. Aí decidi fazer uma nova tentativa – nem sei quantas foram ao longo da vida – de me tornar uma pessoa que toma chá. Apesar da minha triste história com chá. Pra falar a verdade, há anos tomo chá socialmente, se a pessoa me oferece um daqueles bem especiais. Fui no super e comprei uns chás bons, misturados e especiais. Agora, principalmente à noite, quando me bate aquela sede que não deve ser saciada com café, leite já larguei faz tempo e refrigerante não bom, tomo chá. Todo dia rola chá aqui, tá bonito de se ver, estou quase uma inglesa. Só falta eu gostar. Boto fé que conseguirei, pelo menos não faço mais careta.

 

É por essas e outras coisas que vejo que cinquenta anos, cem anos, não são nada em termos de mudanças sociais. Opa, comassim o assunto foi de chá à mudanças sociais? Me explico: cinquenta anos não é nem uma geração, cem anos não chega a duas. O ser humano é um bicho resistente, determinado praticamente todo na infância, emperrado e burro, que leva a vida inteira pra mudar um hábito simples como aprender a gostar de chá. O que dizer de coisas mais graves, que incluem a necessidade de rever conceitos, aceitar as diferenças, fazer justiça aos acontecimentos? Nascendo de novo ou só nascendo novos.

Numa fria

“Eu não acredito que você me meteu nesse tipo de fria, de novo!”, disse eu para mim mesma. No caso, o de novo era estar de sapatilha e meia calça rosa, cercada por adolescentes vestidas da mesma forma. É, a vida da gente tende a girar sempre em torno dos mesmos temas, e tantos anos depois me vi vestida de bailarina de novo. Eu não sei como são as outras pessoas, mas eu discuto comigo mesma e com o Universo – outros chamariam de Deus – o tempo todo. “Cala a boca e presta atenção”, eu teria dito a mim mesma, mas o lado para quem eu reclamo não costuma verbalizar tanto. Ele manda e eu obedeço. “Presta atenção”, porque se de um lado eu me sinto desconfortável, de outro é a disponibilidade de me meter nessas frias que tem me enriquecido. Nelas eu relembro o quanto o mundo, os sonhos e os caminhos são variados. Se o mundo nos parece sempre igual, é única e exclusivamente porque escolhemos o igual.

Curtas porque sim

Amigas que têm tentado desesperadamente encontrar alguém e que saem e encontram gente no Tinder e nunca funfa, ninguém quer nada, não lhes valorizam. Mas elas tentam. Os argumentos são ótimos, estatísticos: conhecer gente aumenta a chance, tentar muito aumenta a chance, depois de muitos nãos virá um sim. Trancada em casa é que não se consegue alguém. Mas será que o dano de não tentar não é menor? Vejo todo mundo tão triste, tão traumatizado.

 

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Achei o meu café. Me sinto o próprio James Bond pedindo martini – “batido, não mexido”. Acrescentou glamour e resolução à minha pessoa. Sempre me senti meio besta de ter que pegar o cardápio e reler as descrições dos cafés, afinal, as combinações são sempre as mesmas. Agora  vou logo falando: me vê um carioca. Agora só me falta tomar café com alguém, para impressioná-lo.

 

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Estive tão preocupada e impossível nas últimas semanas. Um problema que estava tirando a minha alegria de estar em casa está quase no fim. Agora estou tão feliz com um projeto novo. Um que pode mudar minha rotina e me colocar em contato com outra realidade, ou seja, o tipo de mudança que eu adoro. Pena que não posso contar ainda, principalmente a última parte. Apenas torçam.

 

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Eu prometi não tocar no assunto, e por caridade cristã não vou falar nada. Mas, se fosse tuitar pra uma pessoa aí, eu apenas diria a ela: Está frio.

 

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Lembro que um amigo ateu recebeu muitos “Deus abençoe” quando a mãe morreu. Muitos com a ressalva “eu sei que você não acredita, mas…” O “mas” era um “eu não sei o que falar”, na verdade. Acho que é o mesmo sentimento que leva as pessoas a dizerem a um doido por flamenco que foi fazer pós na Espanha e chegando lá se decepcionou e está com vontade de largar que “o importante é a satisfação íntima dançando”. Ah, tá. Fiquei com vontade de mandar todo mundo tomar no cu.

Turbilhão

Eu estou quietinha, encolhidinha no meu canto, sem fazer movimento algum. Até porque eu não sei qual movimento faria. E pensei – não vou fazer movimento algum, logo, a vida vai continuar a mesma. Um irmão foi pro Oriente e voltou. Outro irmão partiu pra longe. Um amigo virou paixão, depois grande amigo, depois decepção. Já um nome distante e culto se tornou um amigo, mesmo que ainda distante e culto. Minha grande amiga vai ter de volta um filho em casa, depois de tanto sofrer com a partida, e com a filha reedita coisas que já vi. Vi o que parecia o fim se transformar em uma dádiva para minhas professoras. Uma que já se considerava solteirona vai casar, outra enlouqueceu com um único homem. Virei inimiga pública número um pra algumas pessoas. Mudei de ascendente. Dancei uma patada de flamenco. Ganhei medalhas. Escrevi, corrigi, esqueci, voltei a corrigir. Continuo detestando cozinhar. Vi um show da Salmaso. Como pode tudo isso, se estou aqui, nesse mesmo lugar.

Mais Drexler, menos Richard

Artistas como Keith Richards são muito engraçados e ao mesmo tempo não são. Existem duas alternativas para trajetórias assim: ou não há qualquer mérito, ele é um sortudo que estava fazendo a coisa certa na hora certa, ou ele nasceu com uma luz e uma genialidade que o colocam acima da avaliação dos mortais comuns – ou seja, conforme-se que uns poucos não seguem nenhuma das regras de bom senso. Com isso, eles apenas não se estrepam como conseguem muito mais do que você.

 

Eu gosto muito de artistas como o Drexler. Um cara que tem um talento enorme e indiscutível, mas olhamos pra ele e vemos o trabalho duro. Ele escrevia, estudou violão clássico, foi gente comum e médico até os trinta. Drexler parece personificar tudo aquilo que lemos sobre o esforço e o bom caráter. Eu olho para o Drexler e vejo mérito, em níveis profundos. Mais do que isso: Drexler me faz acreditar num mundo melhor. No Mundo Drexler, as pessoas amam seu trabalho e o reconhecimento vem na medida do esforço. No Mundo Drexler, a fama, o talento e o dinheiro andam juntos com a pureza de propósito, com os bons sentimentos e a vontade de melhorar cada vez mais. Não estou dizendo que ele é perfeito como ser humano, claro que não, mas não é um porra louca mundialmente famoso sem mais nem porquê. Vejam as entrevistas e os documentários sobre Drexler, todos apontam pra mesma direção. O Mundo Drexler não é o meu, pelo menos não agora, infelizmente. Conheço mais gente que eu gostaria de ajudar do que posso, porque eu também não estou numa posição confortável. É como se esse outro mundo fosse uma rua que corre paralela; não apenas não consigo mudar de faixa como não conheço ninguém que o saiba. Mas eu quero muito esse mundo, quero luz, justiça e beleza. Ele me faz acreditar que em algum lugar o bom existe e saber disso não deixa de ser uma forma de alento.

O que a vida pede

Passei o feriado inteiro meio doente e o dia ficou quase o tempo todo chuvoso. Mas eu precisava ir no supermercado de qualquer maneira. Fui com casacão, cachecol, guarda-chuva e voltei encalorada, equilibrando as compras pesadas junto com o guarda-chuva, desviando das poças. Eu gosto de andar, gosto de fazer compras, gosto até de chuva, mas naquele instante os carros que passavam por mim pareciam bem mais confortáveis. Posso não comprar todos os sonhos burgueses e não estar disposta a todos os sacrifícios necessários por eles, mas não sou imune. O Ernani me fez pensar na maravilhosa entrevista que deu para o Cândido:
Acordar o mesmo, não um inseto monstruoso, não é só uma brincadeira com A metamorfose, do Kafka, um dos poucos livros que considero perfeito. Muitos livros e filmes começam com uma mudança brusca na vida do personagem, uma separação, a morte de um filho, essas coisas. Só que o drama da maior parte das pessoas é não haver mudança nenhuma, é o sujeito continuar o mesmo, preso na mesma circunstância.
Eu também, como todo mundo, olho pro céu e me pergunto se isto – as sacolas de compras pesadas que carrego na mão até a minha casa – é a minha definição, a minha realidade, se a vida não me reservará algo novo e inacreditável. O quanto eu amo, ou o quanto eu aceito, ou até quando eu amarei tudo isso? Dependendo do olhar, não passo de uma pobre coitada. Não precisa ser muito observador pra perceber que levo uma vida simples e que tento obter dela o máximo de felicidade. Minha realidade vai até poucas quadras mesmo, pelo menos por enquanto. O que sei é o que o Farinatti colocou como legenda nesta foto:

A vida pede alegria e um pouco de boa vontade.

O passado é uma roupa que

Ainda não sei se superei o minha insegurança diante de pessoas que admiro muito. Naquela época, mal começando a fazer balé, sem dúvida não tinha. Cada vez que a Cíntia vinha falar comigo, eu tremia nas bases. Ex-primeira bailarina, coreógrafa, professora, uma mulher doce e incrível, muito respeitada na área. A turma que eu entrei teoricamente era de básico, mas vinham alunos avançados, porque ter aula com a Cíntia era aula com a Cíntia, acima de qualquer discussão. De modo que de básico mesmo eu era a única. A mais tongona da turma, pra aumentar a minha insegurança. Durante algumas semanas ela veio dar aulas de muletas. Ela contou como é que foi:
– Eu estava andando na rua, aqui perto. Fui atravessar, não vi direito e pisei em falso, perdi o equilíbrio perto do meio fio e virei o pé. Na hora eu sentei na calçada e ia começar a chorar. Aí eu lembrei que não sou mais bailarina e agora eu posso torcer o pé.

 

Esse é o meu sentimento quando vejo uma discussão acadêmica. Em alguns o academicismo cai muito bem. Em mim pinicava demais.

Aos meus amigos

“Ela não é muito de contato físico, mas gente assim é só tímida. A gente pega ela e abraça do mesmo jeito!”. Ela, no caso, era eu. Muitos anos se passaram desde que ouvi isso da Hermelina, uma colega de faculdade. Até então, eu não sabia que era uma pessoa de pouco contato físico. Meu referencial era a minha casa, onde vivíamos eu, minha mãe e meu irmão. E a gente realmente não se tocava. Aí eu chegava na aula e elas realmente me abraçavam, com gosto. E eu realmente não era capaz de tomar a iniciativa mas gostava dos abraços delas.

 

Muitos anos me separam daquela que não conseguia tomar iniciativa pros abraços. Eu penso, filosoficamente, que a graça de ser Deus seria viver possibilidades infinitas na vida humana. E para todo lado que eu olho, as experiências são tão diferentes. Estamos todos vivendo na Terra na mesma época, no mesmo país, na mesma cidade, vamos aos mesmos ambientes… e não me vejo vivendo nada parecido com qualquer pessoa que convive comigo. E posso dizer o mesmo delas em relação a mim e aos outros. Tudo é único. E nessa unicidade da minha existência, eu levei uma vida para conseguir o que para os outros parece acontecer naturalmente: criar laços, fazer amigos. Este blog é testemunha dessa dificuldade; os textos dos primeiros anos falavam muito de cortes, problemas com limites, exageros. Uma vez até me esfregaram esses textos na cara, como prova de que a complicada era eu. E quem disse que não? Admito que joguei fora o bebê com a água do banho muitas vezes. Complicada, injusta, exagerada, cheia de pontos sensíveis. Humana.

 

Não sei dizer exatamente o que eu fiz, o que mudou. Sei que as queixas foram diminuindo e encontro cada vez mais prazer nas minhas amizades. Que me apaixono pelo jeito de ser de algumas pessoas em poucos minutos, e gosto delas sem ter nem por onde expressar. E quando percebo que elas também vão com a minha cara de graça, é uma surpresa tão boa, é mágico! É uma honra ser parte do círculo de confiança de algumas pessoas, de verdade. Alguns amigos são, UAU, anos luz acima de mim. Pessoas que eu amo tanto, que me ensinam tanto, que eu admiro tanto. E, ao mesmo tempo, um carinho e uma compressão que precisam de muito pouco para serem expressos. Tem gente que me faz tão bem, que nunca na vida encontro meios de retribuir. Pela minha incapacidade de retribuir para elas, desisto e escolho retribuir a outros, sem esperar deles qualquer retribuição.

 

Eu acredito que a vida humana tem um sentido, até mesmo para os que não acreditam em nada. Seja lá qual for a direção, não devemos sair dela da mesma forma como entramos. Que algo mude, que algo se aprenda. Eu aprendi a aprender com os outros.

Feliz dia do amigo! (20/07)