Homem-Pisa e Quíron

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Numa das muitas histórias dos pacientes descritas nos livros do Oliver Sacks – não sei dizer em qual – tem um homem que estava com um problema no centro de equilíbrio. Ele andava inclinado pro lado, as pessoas diziam que ele parecia uma Torre de Pisa. Mas pra ele, ele estava certo. Era mais do que um problema de equilíbrio, era um problema de propriocepção, porque o corpo sentia que estava certo um equilíbrio que estava errado. Então ele inventou uma barra em cima do óculos, um prumo minúsculo, que ele consultava discretamente quando olhava pra cima e se corrigia. Ele sabia que não podia confiar no que sentia e encontrava uma regulagem exterior. Talvez de tanto submeter o cérebro à medida exterior, quem sabe ele tenha se corrigido.

Antes eu achava que ser sábio, maduro ou terapeutizado era muito a mágica das palavras, como se ao ser exposto à luz, o que há de mal resolvido se alterasse, tipo uma reação química. Para algumas coisas, até reconheço que seja. Mas tem uns traumas que você conhece de cor, toma café com ele todas as manhãs e tá, e daí. Existe na astrologia contemporânea aspectos formados pelo asteroide Quíron. A história de Quíron, um centauro que é filho de Cronos e não sabe, divino demais para um centauro e ainda assim animal, ferido por uma flecha e incapaz de se curar ou morrer da ferida, é uma das lendas mais tocantes que eu já li. LEIAM AQUI. Quíron é chamado de “o curador ferido”. Quíron diz assim: você foi ferido e nada mais muda o que aconteceu, mas esta dor te torna apto a ajudar os que passam pelo mesmo. Já vi astrólogo dizendo que Quíron é o Quasimodo do zodíaco. Eu concordo.

Não some quando toma ar não. Quasimodo nunca ficou bonito e na história original nem ao menos fica com a mulher amada. Uma vez um amigo que ia fazer terapia disse que eu estava estragando o processo antes mesmo de começar, porque eu lhe disse que terapia não nos muda. Psicanalistas concordarão comigo. O que se aprende é saber o que está lá, que existe um pedaço torto e ele nunca será normal e é preciso seguir em frente e ser feliz assim mesmo. Que temos uma lente viciada e mesmo com toda nossa alma, lógica e razão gritar que estamos certos, pode ser que na realidade estejamos ridiculamente inclinados.

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A grandeza de Saturno

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Há algumas semanas, recebi um e-mail, desses de spam que a gente se inscreve e depois se surpreende quando recebe a newsletter, falando que era um dia especial para louvar Saturno. Era bom para quem tem um Saturno fraco no mapa (o meu não é dos melhores), estivesse passando por um período de Saturno ou apenas quisesse melhorar sua relação com o planeta. Sugeria jejum, um mantra que eu procurei no youtube e achei bacana e ler os trechos de um livro chamado “A grandeza de Saturno”. Não sei se tem em português, achei em inglês (The Greatness of Saturn) num site com livros de graça. Vi muitos vídeos de astrólogos, védicos e ocidentais, falando do quanto a maturidade os fez gostar de Saturno, que o tal retorno de Saturno – que a astrologia védica chama de Sade Sati – não é nenhuma desgraça, que é só ser uma pessoa bacana e fazer tudo certo que Saturno te trata bem.

Como o livro é em inglês, estou levando muito tempo e consigo ler pouco por vez. Começa com a entrada de cada planeta, personificado com um Deus, e acho o desenho de cada um tão bonito que me dá até vontade de um dia fazer quadrinhos. Agora que eu cheguei na parte de Saturno propriamente dita. Um rei fala mal de Saturno. Saturno desce, indignado, e fala que ele estava justamente entrando na constelação de virgem, 12º casa contando a lua do rei, ou seja, o rei ia entrar em Sade Sati e experimentar sete anos e meio de provação e aprender a não desrespeitar os deuses. Poucos dias depois, o rei vai comprar um cavalo, que sai voando e abandona o rei numa floresta. Ele anda muito e vai parar numa cidade onde ninguém o conhece. É acolhido por um comerciante muito gentil, e a filha do comerciante resolve testar o rei (lembrem-se que ninguém sabe que ele é rei) pra ver se casa com ele. A moça entra num quarto todo perfumado e tenta seduzir o rei, que até dorme com a cabeça coberta com um travesseiro de tanto medo do que Saturno pode lhe aprontar. No meio da noite, um cisne sai dum quadro e come o colar de pérolas da moça. Na manhã seguinte, ela diz que o rei, além de impotente, é ladrão. Revistam o rei e, apesar de não encontrarem o colar com ele, ele tem as mãos e os pés cortados (!!!!) e passa os resto dos sete anos como pedinte. Na outra história, Saturno conta que fez mal ao seu próprio Guru, que lhe pediu pra reduzir o período de sete anos em algumas horas. Pra tentar escapar incólume do seu curto Sade Sati, o Guru/Rei foi tomar um banho inocente no rio e colheu dois melões no caminho. Enquanto isso, dão falta do filho dele e do filho do primeiro ministro, e quando o Guru/Rei retorna, abrem a mochila dele e os melões haviam se transformado na cabeça dos dois rapazes. O Guru/Rei é condenado à morte. A esposa, diante de tanta desgraça, decide se atirar numa pira funerária. Todo mundo não morre por questão de minutos, porque o Sade Sati acaba e Saturno desfaz tudo – as pessoas voltam a ver melões e os rapazes retornam, eles só tinham dado um passeio. E nas duas vezes Saturno diz: “só fiz isso porque você é orgulhoso”. Eu me pergunto: e quem não é? Se o objetivo do livro era não ter mais medo de Saturno, acho que não entrei bem no espírito…

Caso haja leitores influenciáveis aqui: Saturno governa outsiders, subalternos, idosos, pessoas em fragilidade social. Tratar bem estas pessoas é tratar bem os seus representantes na Terra. Alimentar e vestir quem precisa é ainda mais excelente. Alias, descobri que fazer caridade como “chantagem” com os céus, que eu jurava que tinha inventado, é uma recomendação constante dos astrólogos hindus. E, por favor, nada de falar mal de Saturno por aí. Vai que ele está passando justamente pela 12º casa da sua lua e…

Indireta astrológica

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Já li uma comparação que diz que, assim como um vinho é determinado pela safra das suas uvas e o envase, que um vinho feito na primavera é diferente do vinho feito no inverno, essa é a mesma lógica que a astrologia aplica às pessoas. Quando o bebê sai da barriga e na primeira respiração, é marcado para sempre pelo céu daquele momento. Ele será um bebê diferente se nasceu de dia ou de noite, na primavera ou no verão, em 1990 ou 2020. Daí porque, apesar da precisão dos cálculos que demonstraram que a Astrologia sempre soube que a Terra não era o centro do universo, os cálculos são antropocêntricos – cada pessoa que nasce é um centro de universo. Sendo a Terra o centro, os planetas podem ser visto como interiores ou exteriores: interiores são os que estão entre a Terra e o Sol, a saber, Mercúrio e Vênus. Os exteriores, os que estão fora da trajetória da Terra: Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Os três últimos, de tão distantes e lentos, exercem influências sobre gerações e são deixados de fora em análises tradicionais da astrologia védica e, na astrologia ocidental, costumam ser levados em conta depois de uma certa idade, quando a pessoa está mais madura.

Nós chamamos de planetas e o termo hindu Grahas parece se referir mais a corpos que estão no céu e nos influenciam. A cada momento, eles estão num lugar diferente do céu, e o círculo onde costumamos ver o mapa também pode representar uma grande mesa redonda. De cada posição, os planetas se vêem de uma maneira diferente, e com isso entabulam conversas diferentes. Algumas são tensas e outras são boas; alguns planetas se dão tão bem que quase nada é capaz de abalar sua amizade, outros tem uma relação tão difícil que mesmo aspectos benéficos ficam complicados. Saturno é tão sério, velho e responsável, que eu sempre o imagino como aquele que entra na roda e deixa o clima pesado; por outro lado, sem ele, talvez a coisa descambasse pra uma festa regada a sexo e drogas que destruísse a casa. Na astrologia, o Sol é planeta porque também está na festa. Para entender a “personalidade” dos planetas, cada linha apela para as mitologias das suas culturas – na ocidental, os deuses gregos e na védica, a mitologia hindu.

Quero falar de um aspecto específico com o Sol. O aspecto é a conjunção. A conjunção é quando os planetas ficam muito próximos um do outro, a menos de 10º de distância. É como se eles se tornassem um casal, porque passam a fazer tudo em conjunto – as características são combinadas e o que afeta um, afeta o outro na mesma proporção. Isso é bom ou ruim? Basta pensar nos casais de verdade: quando você junta pessoas compatíveis, que se ajudam mutuamente, estar em conjunção é bom. Em outros casos, as pessoas podem estar juntas e brigar o tempo todo, ou um pode tirar vantagem do outro. O Sol tem uma especificidade quando em conjunção que, por incrível que pareça, o torna um planeta maléfico. Simbolicamente o Sol é o nosso ego, o nosso centro. Ele representa figuras de autoridade, como o pai ou o rei; é orgulhoso, confiante, forte, vaidoso. Pensem no que é estar ao lado de alguém assim. Numa maneira mais física, basta lembrar que o sol é uma bola de fogo. Ele é quente e brilhante demais, ficar muito perto se torna desagradável. Por isso, quando um planeta fica muito perto do sol, isso não faz bem a ele. É como se o planeta fosse queimado e ofuscado pelo sol, aspecto que na astrologia é chamado de combustão. Um planeta em conjunção com o sol fica combusto.

Agora eu volto ao que disse lá em cima, sobre os planetas interiores. Vênus e Mercúrio estão muito próximos do sol, eles são pequenos e suas órbitas são muito rápidas. Isso faz com que eles entrem no temido movimento retrógrado com frequência (e saem dele rapidamente) e nunca estejam muito longe do sol. No mapa, eles sempre estão perto do signo solar natal, ou seja, você nunca verá alguém com Sol em Áries e Mercúrio ou Vênus em Libra. Se a pessoa tem Sol em Áries, ela terá Mercúrio em Áries mesmo ou lá por Peixes ou Touro, ou seja, no máximo um signo de distância. Vênus fica mais longe do Sol, então pode chegar, no exemplo, até Touro ou Aquário, ou seja, dois signos de distância. Mercúrio, na mitologia grega, é o mensageiro. É o planeta que associamos à inteligência, rapidez, comunicação. É considerado um planeta neutro, nem bom e nem ruim, porque se adapta à circunstância. Ele fornece os instrumentos, como uma faca que pode ser usada na cozinha ou para matar. E é, de todos os planetas, o que fica mais tempo combusto. Ou seja, em grande parte da população, as características do Sol atrapalham a atuação de Mercúrio. Elas acham que estão olhando a realidade de maneira fria, inteligente e analítica, sendo que na verdade estão sendo egóicas, orgulhosas e autoritárias, estão contaminando a sua análise porque não separam conceito de personalidade. São incapazes de discutir ideias como algo separado delas,  por isso se sentem pessoalmente ofendidas quando alguém discorda das suas crenças. Ideia, conceito, crença, auto-imagem – tudo está misturado. Vai dizer que não é?

Limpinho e correto

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Eu falei dos ashwinis no último post porque tem a conclusão bacana da parte do meu irmão; se a minha intenção fosse apresentar a astrologia védica, aquele seria minha última escolha. Porque o que eu acho muito legal da história dos nakshatras é justamente eles não serem limpinhos e equilibrados como na astrologia ocidental. Mesmo sem perceber, aplicamos a ela aquela lógica de final feliz de filmes americanos, onde cada ponta solta gera uma resposta. Acho que Ashwini é o que tem a melhor descrição de todos, melhor no sentido de positiva. Mitologia indiana é muito antiga e muito pra lá de politicamente incorreto. Eles não têm a preocupação de dizer que todo signo é igualmente bom e ruim – alguns nakshatras tem descrições tão negativas que você decide que nunca gostaria de cruzar com uma pessoa dessas na sua frente, ou, caso você o tenha, que nunca vai poder dizer pra um indiano que aquele nakshatra aparece no seu mapa, sob o risco dele lhe virar a cara. Na história do Krittika, as coitadas das Plêiades foram expulsas por um adultério que não cometeram e ninguém se deu ao trabalho de desmentir. Tem nakshatra que fala que a vida vai ser muito difícil, de puxa-sacos manipuladores, de bem-sucedidos incapazes de ternura, que predispõe a incesto. Assim como há, quando se vai pensar em mapas para casais, três tipos de pessoas: as que beneficiam e fazem bem a quem quer que esteja do seu lado, as que tem uma troca regular e, por fim, aqueles que se aproveitam e prejudicam o parceiro.

O pressuposto básico da astrologia que uma pessoa é seu local e horário de nascimento, é altamente contestável – mas sabemos que os indianos têm razão, o mundo e as pessoas são mais do que defeitos e qualidades igualmente distribuídos numa balança. Os melhores astrólogos que tenho visto falam a mesma coisa, que a graça não é querer fazer previsões e dizer que é assim ou assado e sim aprender com essas metáforas, entender o que os nossos ancestrais tentaram nos falar, o que temos em comum com pessoas que viveram em outras épocas e também amavam, sofriam e pensavam sobre a vida. Existe algo de atraente nos nakshatras, nos Irmãos Grimm, nas Fábulas Italianas do Calvino; é mais humano do que um autor qualquer possa criar, elas transmitem muito mais do que a nossa mente cheia de tabus é capaz de reproduzir. Tenho me refugiado nos nakshatras porque encontro neles verdade, variedade e tempero, enquanto o mundo lá fora busca a pasteurização, odeia a variedade, nega o diferente.

Ashwinis

ashwini

(Vocês não sabem a dificuldade que tem sido não falar sobre política o tempo todo. Seguimos)

Finalmente consegui baixar um livro que estava a fim de ler faz tempo, sobre nakshatras. Eu tenho uma maneira caótica de estudar, sou obsessiva e consumo tudo, indo e voltando pros assuntos, o que faz com que eu não entenda nada e entenda tudo ao mesmo tempo. Comigo funciona. Algumas coisas que a astrologia védica que eu ao meu respeito são tão dolorosas – e devo reconhecer que acertaram na mosca – que acho que jamais terei coragem de ler um mapa védico pra alguém, caso um dia consiga. Sobre os 27 nakshatras, embora já tenha lido sobre todos, retomo e tento personalizar. É muito mais fácil prestar atenção quando ele fala de você ou de alguém que você conhece. Então o primeiro de todos, o Ashwini, é bastante fácil pra mim porque meu irmão tem a lua em ashwini (o que torna esse nakshatra o seu signo védico, digamos assim) e eu tenho marte e vênus lá.

Um pouco do nakshatra: ele é simbolizado por dois cavalos. A esposa do sol precisava de um tempo, porque o marido dela era literalmente muito quente, e fez uma cópia de si mesma para que ele não notasse sua ausência. Mas ele notou, quando a sua clone tratou mal um dos filhos deles. O sol foi atrás da esposa pela floresta, que se transformou numa égua, e ele se transformou num cavalo, e da união deles nesse estado nasceram os gêmeos Ashwinis. Numa das histórias, para descobrir o néctar da imortalidade, eles substituem a cabeça do sábio que tem a receita, porque um deus disse que cortaria se ele revelasse o segredo. Ele revelou, a cabeça foi cortada, mas era a cabeça de um cavalo e os Ashwinis colocaram a cabeça original no lugar depois. Por causa disso, esse nakshatra tem ligação com medicina, cirurgia, dons de cura. Em outra história, os aswinis quiseram casar com uma princesa que havia estourado sem querer, pensando que eram besouros, os olhos de um sábio, e foi viver com ele na floresta. Os Ashwinis eram fortes, jovens e bonitos, enquanto o marido dela era velho e cego, e mesmo assim ela não aceitou. Eles então ofereceram tornar o marido dela jovem e recuperar a visão, mas a princesa teria que escolher um dos três para se casar e eles estariam muito parecidos. O casal topou e a mulher, muito virtuosa, conseguiu saber qual era o marido dela. Essa história fala dos outros dons dos Ashwinis: restaurar a visão (há outra história com o mesmo tema), beleza, juventude e correção de caráter (por terem cumprido a promessa. No mundo das lendas védicas tem cada uma…). Quando um nakshatra é simbolizado por uma animal, conhecer o comportamento do animal é conhecer a natureza do nakshatra. Por serem representados por cavalos, os ashwinis são rápidos, fortes, inteligentes, dóceis e gostam de espaços amplos.

Eu tinha visto várias referências que diziam que era comum que irmãos gêmeos tenham esse nakshatra. Nunca dei importância, porque não sou. Hoje descobri que é possível que a pessoa tenha como se fosse um falso gêmeo, um outro muito parecido com ela. Aí pensei no meu irmão, e a maneira como nos achavam gêmeos durante boa parte da nossa vida, apesar de termos um ano de diferença. Pensei em nós dois de mãos dadas no recreio do colégio na nova escola e me emocionei. Ele é ashwini, eu também, somos mesmo gêmeos um do outro. Aí fiquei emocionada.

Nodo faminto

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Quanto mais leio sobre astrologia védica, mais me parece que não sei nada. E ainda por cima devo estar desaprendendo o que eu sabia da ocidental. Mas tão lindas as histórias! Olha que diferente a maneira como tratam os nodos: os nodos norte e sul existem em ambas, embora a astrologia ocidental dê tão pouca importância ao nodo sul que geralmente ele nem aparece no mapa. São pontos matemáticos relativos à posição do sol e da lua e cobre um eixo de casas opostas, a saber: casa 1 e 7, casa 2 e 8, casa 3 e 9, casa 4 e 10, casa 5 e 11, casa 6 e 12. Se você o nodo sul em uma casa, necessariamente o nodo norte está na direção oposta, nodo sul na casa 1 indica que o nodo norte fica na casa 7 e por aí vai. A astrologia ocidental não gosta de pensar em vidas passadas, então geralmente falam que o nodo sul trata daquele assunto que você já domina, por isso ele lhe é sem graça, enquanto o nodo norte fala daquilo que você deve procurar aprender. Tudo muito limpo e racional.

Agora, à maneira védica: Rahu é o nodo norte e Ketu o nodo sul, também chamados, respectivamente, Cabeça do Dragão e Cauda do Dragão. Ele era uma espécie de demônio, que provou do néctar da imortalidade apesar de não lhe ser permitido. Vishnu tentou detêlo e o cortou – como ele já estava imortal, virou um corpo com dois pedaços. Ketu é a cauda e indica o que já foi feito repetidamente nas vidas passadas. É um corpo sem cabeça, burro; indica facilidade e isolamento, o que vem fácil mas sem o menor sabor, e espiritualidade. Rahu, como cabeça sem corpo, come sem parar porque não tem um estômago pra reclamar que já está cheio. Mais do que o que buscamos nessa vida, Rahu mostra onde temos uma verdadeira compulsão. A sua energia se molda de acordo com o lugar do mapa que ele está, mas numa versão “com esteroides”: exagerado, indomável, apto a tomar atalhos para conseguir o que quer. Enquanto Ketu fica quietinho no canto dele, Rahu quer fama, holofotes, prazeres. Ele é a figura simpática que coloquei para ilustrar o post.

Por mais que os dois termos falem do mesmo ponto matemático, Rahu e Ketu não são muito mais interessantes do que nodo norte e sul?

Védico e sideral

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A ideia de gostar de um outro país e tê-lo como sua cultura do coração sempre me pareceu meio boba. Sempre tive simpatia pelos argentinos, mas eu sei que diante de um argentino de verdade eu nada mais sou do que uma brasileira, e por aí vai. Então, eu mesma fiquei surpresa quando comecei a ler sobre os nakshatras e sentir uma euforia no coração. Não tenho como explicar, apenas adoro coisas relativas à Ìndia. Passei a adolescência inteira lendo sobre yoga e parei de comer carne por isso, sonhava em ir pra um ashram, ouvia as músicas, enfim, seguia toda cartilha mística.

Em linhas gerais, é assim: existem duas grandes correntes na astrologia. A que se pratica aqui é a tropical e a que se pratica no oriente é a sideral. Sem entrar em detalhes, a diferença de cálculo é porque na tropical a mudança dos signos está ligada às estações do ano, na sideral às constelações. Os pressupostos de uma e outra são diferentes, e querer transportar automaticamente o conceito de uma para outra é igual quando a gente acha que sabe espanhol e se depara com falsos cognatos. Os signos da astrologia védica são quase um signo inteiro para trás. Aqui é signo é determinado pelo sol e lá pela lua. Exemplo: no mapa ocidental, eu tenho o sol em gêmeos e a lua em touro, o que me torna geminiana; no oriental, eu tenho o sol em touro e a lua em áries, o que me torna ariana.

Aqui um signo é sempre igual nos seus trinta graus. Tem os quadrantes, mas na prática ninguém diz que alguém que nasceu no início de um signo é diferente de quem nasceu no fim. Lá, os signos são divididos a cada 13 graus e 20 minutos, que são os nakshatras. E cada nakshatra tem 4 subdivisões, os padas. Cada nakshatra corresponde a um símbolo, um modo de energia, estrelas, deuses. As histórias indianas me fascinam pelos caminhos inesperados, algo que uma mente ocidental jamais conseguiria produzir. Olha que legal esta história (resumida), que corresponde a um nakshatra que fica em câncer sideral.

O grande sábio Kashyapa , o filho nascido em desejos do Senhor Brahma , era casado com as duas filhas Kadru e Vinata . Ambas as irmãs eram de grande beleza e inveja uma da outra. Kashyapa ficou extremamente satisfeito com os dois e ofereceu a cada um deles uma benção.

Kadru disse: “Que mil filhos de incomparável força e valor nascem para mim!” E para Kadru nasceu a raça das serpentes, um total de milhares delas, dotadas de grande força. Quando chegou a sua vez de escolher seu benefício, Vinata disse: “Que dois filhos sejam nascidos para mim, os quais eclipsarão os filhos de minha irmã em força, valor e fama”. Vinata colocou dois ovos. Quinhentos anos se passaram, mas os ovos não nasceram.

As irmãs Kadru e Vinata se envolveram em uma discussão. Kadru perguntou a sua irmã: “Irmã, qual é a cor do cavalo divino Uchaishravas que pertence a Indra ?”

Sua irmã respondeu: “É de uma cor branca impecável, desde o nariz até a cauda magnífica”.

Kadru disse: “Você está errada. Embora seja verdade que seu rosto e seu corpo são de uma cor branca impecável, eu acho que sua cauda só é uma cor preta brilhante. Diga-lhe uma coisa, vamos apostar neste tópico.” Se você estiver certa, eu me tornarei seu escrava. Se eu estiver certa, você deve se tornar meu escrava. “

Vinata aceitou a aposta. Kadru sabia que o cavalo era branco de um lado para o outro, então ela arquitetou um plano. Ela chamou seus filhos e disse: “Eu aposto com sua tia que o cavalo Uchaishravas possui um rabo preto. Você deve fazer as minhas palavras se tornar realidade. Vá em frente e enrosque-se em torno de sua cauda e dê uma aparência preta.”

Retirado daqui.

Só duas cobras não aceitaram fazer parte disso, e são essas duas nagas que fazem parte do nakshatra de Ashlesha.

 

Mapa astral

Não fui criança geniazinha que gostava de dinossauros, mas desde que me lembre eu conhecia a história dos deuses gregos. Havia um motivo muito prático pra isso – se eu conhecesse a história dos deuses que dão o nomes aos planetas, eu saberia o seu significado na astrologia. Os signos todo mundo conhece um pouco, e depois foi ler o significado das casas e entender como signos, planetas, ascendentes, casas e aspectos se movem nesse esquema complicado que é o mapa astral. E, claro, desde criança eu conheço o meu mapa astral. Tinha em casa um livro chamado Curso Básico de Astrologia, que depois de explicar tudo isso, descrevia o que significava cada aspecto. Minha mãe marcou com uma bolinha cada aspecto de cada um em casa, então era fácil saber quais eram os meus. Enquanto a maioria cresce lendo sobre os signos, eu lia sobre o meu marte, os meu stelium, a minha quadratura, etc. Eu sabia de cor não apenas os meus aspectos como quase todas as descrições do livro.
abandonei. Quando minha vida se tornou algo mais independente, quando passaram a fazer parte do meu mundo apenas o que eu busco, a astrologia e todo o conhecimento místico daquela época deixaram de fazer sentido, passaram a ser apenas uma lembrança. Se me falam de tarot, espiritismo, yoga, cabala, sei de tudo um pouco; mas daí eu buscar e me ver como parte disso já não mais. Eu desacredito acreditando, acredito desacreditando. Sei o que é tudo, mas também duvido de tudo.
Só que, acreditando ou não, a vida me colocou de novo em contato com astrologia. Nem que seja apenas com olhos de outras pessoas, de pessoas que são capazes de olhar para mim e achar que eu sou “muito gêmeos” – ver numa pessoa o seu signo, coisa que eu nunca fui capaz de fazer. E de me olhar com os olhos do outro e procurar o que há de tão claramente gêmeos em mim, descubro um pouco da maneira como os outros me vêem. Puxa, eu sou muito gêmeos mesmo. Durante muito tempo lutei para ser profunda, adulta, madura, séria… depois cansei e hoje tento ser leve. Ou ter espírito jovem do geminiano. Fugi tanto e cheguei no gêmeos; como se eu fosse personagem de tragédia grega, que ao lutar contra o seu destino vai de encontro a ele. Falando de amor, penso na minha vênus em touro na segunda casa. As primeiras palavras do livro para me descrever eram: fiel e estável. E sou mesmo. Invejo as que têm no currículo aventuras amorosas, paixões avassaladoras ou filas de admiradores, aquelas que sabem ser sensuais com um olhar. Minha maneira de gostar sempre foi amor, compromisso, fidelidade, confiança. Bem touro mesmo. Nunca serei uma femme fatale; cada qual com o seu jeito, com as suas vantagens e desvantagens. Não é à toa que tenho mais de dez anos de casada…
Quando adolescente eu tinha decorado os meus aspectos, só que eles eram para mim apenas palavras. Eu não sabia o quanto daquilo era verdade, o quanto se refletia em atitudes e escolhas. Eu ainda não tinha vivido, eu não tinha testado. O que me surpreende é ter chegado na fase em que olho para trás e sei dizer quase com precisão quem eu sou. Das muitas coisas que ficam melhores com a idade, mapa astral é uma delas.