Curtas de meia idade

“O seu cabelo está branco assim ou você faz luzes?”. Bem, pelo menos as pessoas ainda ficam na dúvida.

 

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“As pessoas mais velhas que acham que já sabem tudo, que nem ouvem o que você tem a dizer a elas – entrei naquela fase de achar que não apenas achar elas têm toda razão, como super quero exercer esse direito.

 

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Quando a pessoa te fala de princípios morais, autocríticas gigantescas e boas intenções e você só consegue ver, por detrás de tudo aquilo, que ela ainda não passou por nada.

 

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Quando você passa do estágio do perdão e começa a entender os teus pais de uma maneira profunda. Entendê-los como só um adulto pode entender.

 

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Me pego numa atitude de colecionador, de quem gosta de coisas vintage. Objetos que na época eram tão banais, agora para mim viraram símbolos, ficaram caríssimos. Não pode ser qualquer um, tem que ser aquele, pelo simples motivo de que ele estava lá.

 

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Por Deus, como eu sou lenta na hora de digitar uma mensagem no celular. Eu tentei correr atrás, mas a tecnologia cruzou a esquina e eu fiquei presa no sinal.

Ela vai ficar bem

Convido algumas pessoas pra me encontrar, em cima da hora. Estava doida pra ir pra casa de uma amiga e nem a procuro, porque ela não me diria não e não gosto de passar lá quando ela recebe a visita dos filhos. Um outro já saiu comigo há pouco tempo. Na noite anterior, vi filme iraninano, me enchi de pizza e série até às 3h da manhã. Acordei quase meio dia, com dor de cabeça, tonta e ciente de que não poderia passar mais um dia inteiro sozinha. Feriados ainda são terríveis para mim. Quase começo a agir com desespero, e aparecer sem permissão, apelar pra uma amizade quase no fim e que me cobraria um preço alto demais. No fim, encontro uns amigos rapidinho, meio no horário deles. Depois prolongo meu programa, como um pedaço de torta num lugar que adoro, ando até o shopping, vejo lojas, ando mais, paro do supermercado, carrego as sacolas até minha casa. Enquanto caminho curtindo a noite – vício que adquiri quando estava deprimida e nunca mais me libertei – lembro de uma amiga em comum que morre de ciúmes de mim com o amigo que encontrei e da minha tia confiante que em pouco tempo da separação estaria bem. Penso em todas as pessoas que quase incomodei. Me dei conta de que uma característica que me faz tão boa amiga é justamente essa: eu dou meu jeito. Meus amigos sabem das minhas solidões, mas sabem também que eu vou dar conta, que eu vou ficar bem. Falando assim, soa egoísta, mas somos todos egoístas. Tem dias que é foda dar-se um jeito; mas maturidade também é isso, saber que os dias fodas são nossos, só nossos. Às vezes calha de sermos salvos pro uma festa ou um programa divertido, às vezes não. E quando não, da-lhe HBO ou o que tiver por perto. Apoio incondicional é algo que vai para a área da religião, pessoas não dão conta. Se eu pudesse dar um conselho universal de como conquistar amigos e homens, ele seria: não seja pesada. Lembro de outra pessoa e me pergunto se ela chorou ou se ficou mal por minha causa e logo afasto esse pensamento. Vai ver que sim, e era justamente esse o problema. Dar-se conta de si é o melhor que se pode fazer pelos outros.

Agora eu realmente entendi

Vou colar aqui um dos meus posts antigos, de 14/julho de 2011:

 

Coração 


De acordo com o Livro dos Mortos do Antigo Egito, a pessoa que morria passava numa prova para testar sua pureza. Seu coração era colocado numa balança, e na bandeja oposta uma pena. Somente aqueles com o coração mais leve do que de uma pena poderiam usufruir do paraíso. Apesar de nunca termos falado disso, foi uma rosacruz que trouxe essa história de volta à minha lembrança. Quando a conheci, ela já era uma vovó. Essa senhora me falava muito do seu ex-marido, de quase trinta anos atrás, um viúvo que tinha o dobro da idade dela. “Nunca case com um viúvo. Viúvo é resto de defunto”. Ele era um médico importante e ela começou a fazer medicina para estar com ele. O grande amor da vida desse homem tinha sido a sua primeira mulher – eles eram vizinhos, cresceram querendo se casar e ainda crianças escalavam o muro para se desejarem bom dia. Pelas coisas que aquela senhora me dizia, esse médico foi uma das grandes personalidades da sua época, dessas que a história não guardou: inteligente, empreendedor, bondoso, grande especialista na sua área, admirado por todos. Ela o amava, o admirava e se sentia perfeitamente feliz ao lado dele. Ele dava aulas, viajava, coordenava um monte de coisas e era um homem ocupado. Ela, muito compreensiva, nunca viu nada de mau nas ausências do marido. Até que – quando ela estava no final da gravidez – a levaram para conhecer a amante dele. A mulher lhe falou tudo, quem era e o que sabia da intimidade de ambos, mas ela não acreditou. Ela só conseguiu aceitar a verdade quando a mulher lhe mostrou todos os presentes que havia recebido. O marido sempre comprava presentes iguais para as duas. Ela saiu de casa para nunca mais voltar. Quando o filho nasceu, irritada com a demora do ex-marido em registrar a criança, ela pediu ajuda a um amigo e o registrou com o nome dele. 


Eu não entendia como ela podia falar desse homem com tanto carinho. Era um canalha. Por esse grande homem ela nunca mais se casou, não aceitou mais ninguém ao seu lado. Sua maneira de ver a situação me remetia ao Livro dos Mortos: “Quando a gente pesa o nosso coração numa balança, e coloca lado a lado tudo o que de bom e ruim que alguém nos fez, se a parte boa ficar um tantinho assim maior do que a ruim, essa pessoa já é alguém para se lembrar com carinho”. Ela guardou a maneira como ele sorria, como a punha no colo e a acalmava, como dedilhava um sambinha no violão.

 

Eu escrevi essa história por ela ser muito bonita, mas na época não havia realmente entendido como era possível que ela amasse tanto um homem que a traiu. Há muitas mulheres que amam e relevam homens que as atraíram, mas se aquele não era o caso dela, como era possível que tivesse essa saudade. Hoje, só hoje, eu a entendo. É um olhar para trás e ser grato pelo que viveu. É entender o papel que cabe a cada um nas alegrias e nas culpas. É saber que o desentendimento de hoje não invalida o carinho de ontem. É, enfim, é saber olhar com mais amor na nossa própria história.

Um puxão no cachorro

Eu te seguro, eu me seguro, igualzinho faço com a Dúnia. Eu não achei que a maturidade (ou a sabedoria) fosse assim, como um puxão num cachorro preso numa corrente. Quem sabe mais tarde eu alcance a placidez do sábio, que era o que eu achava que acontecia. Mas, se um dia acontece, não é espontâneo, não é pela indiferente constatação do que funciona ou não funciona. Não é um olhar de desapego. É no puxão, é no controle, é como eu e a Dúnia. Nos nossos passeios diários, apesar do adestramento e dos pequenos rituais que dizem ao cachorro quem é que manda, a Dúnia vai na frente, se vê com líder, e eu vou pensando na vida. Quando tenho mais tempo e mais necessidade de ar fresco, o passeio é mais longo. Quando vamos na versão curta, eu paro no lugar da meia volta, e ela se empina observando o horizonte. E ficamos nós duas – ela olhando o horizonte e a ser explorado e eu à espera do fim da cena. É a sua forma de me dizer que quer ir em frente e é a minha forma de dizer que não sem ser rude. Não quero ser rude. Eu já aprendi o porquê de tantas classificações de pessoas – eneagramas, tipos psicológicos, signos, transtornos de personalidade, etiquetas – e que todos dão certo. Eu já sei que defeitos e qualidades são uma coisa só, que não se pode querer que o organizado seja também artístico, desejar que às vezes que o espontâneo seja controlado e esperar estabilidade do agressivo. Então, na maior parte do tempo, tal como amo a Dúnia, amo minha infantilidade, minha surpresa, minha abertura. E já não espero mais de mim a ambição, instinto de liderança e planejamento que me fazem falta. Só que às vezes eu passo dos limites, como a Dúnia que quer atravessar a rua e não entende o raciocínio de esperar, de olhar o horizonte, das coisas grandes e apressadas que passam nas duas direções e podem nos machucar. Aí eu puxo. Fico com vontade de dizer que estou apaixonada, que quero o mundo, quero correr pela rua, quero chorar, quero morder. Eu quero já e quero tudo, ou não quero nada e quero mais que morra. Por que o mundo não entra na minha e corremos todos felizes em direção ao sol? Ou latimos até doer? A Dúnia tem quase vinte quilos e quando ela me pega distraída, ou cisma muito, é um tranco puxar aquele cachorro, quase caio no chão. A grama é verde, o cheiro é bom e deu vontade de fazer cocô naquele instante. Mas é pra isso que serve o racional, pra não deixar que o animal amado se mate, pra olhar pro horizonte e dizer que naquele instante não dá. Eu queria que fosse plácido, como o sábio na montanha. Eu não queria que fosse um puxão de estraga prazeres, um mandar em si mesmo. Mas é impulsivo e apaixonado, animal e lindo, amor e vira-lata.

Na minha idade

Uma vez me disseram que eu tenho Complexo de Peter Pan. Fiquei chocada e concordei. Nunca pensei em mim mesma como alguém que faz um esforço deliberado para não crescer. Ao contrário, em certas coisas me sinto uma verdadeira sexagenária. Mas tenho que reconhecer que pra outras ainda estou no jardim de infância. O argumento que a pessoa usou foi o que meu problema em seguir uma carreira é justamente o complexo. Começo, mudo de área, recomeço, nunca me firmo, porque se firmar numa profissão é uma coisa bem adulta.

 

Várias vezes achei que me tornaria professora universitária, e várias vezes investi em roupas mais sérias pensando nas minhas futuras aulas. E, invariavelmente, essas roupas ficavam paradas no guarda-roupa sem uso, até serem doadas. Calças sociais, blazers, sedas. Há poucos dias desabafei no meu facebook sobre o assunto:

 

Às vezes eu penso se não deveria me vestir de forma mais compatível com a minha idade. Mas, afinal, o que as mulheres da minha idade usam?

 

Os amigos vieram em meu socorro, dizer que uma mulher deve vestir o que quiser, o que for adequado ao seu estado de espírito. Há os que perguntaram afinal como é que eu me visto, e eu acho que me visto igual a uma universitária – coisa que não sou há mais de dez anos! Claro que, sendo meus amigos, apareceu conselhos de que o que me falta é um xale. Pra combinar com a cadeira de balanço.

Eis que de manhãzinha estava saindo cedo de casa, com a minha bike, e encontrei a vizinha. Ela tem mais ou menos a minha idade e é psicóloga. Olhei para ela e descobri o que uma mulher com meu físico na minha faixa etária usa: camisa branca, calça social bege, salto agulha e yorkshire.

Lá atrás

 

Em nenhum momento ela usou a palavra amor ou mágoa. Ela se limitou a descrever a situação: como o conheceu, o que viveram juntos, as declarações de amor, as promessas, a ruptura sem explicações. Mas as duas palavras estavam lá, no seu tom de voz, no seu sofrimento. E sua amiga, tão mais experiente em anos e relacionamentos, apenas disse:

– Eu fico até sem graça, sem saber o que dizer. Há muito tempo eu não sei o que é gostar de alguém desse jeito.

À medida que me afasto da adolescência, eu olho para trás – e vejo todos olhando para trás também. Há algo lá que não somos mais e que gostaríamos de ser. Adivinhamos que tem a ver com a juventude, e tentamos nos fazer mais jovens fisicamente. Ou buscamos essa juventude através de terceiros, sejam eles filhos ou parceiros mais jovens. Me pergunto até se esse nojo e violência que é a pedofilia também não tenha raiz nessa busca. Alguns identificam que a grande questão é o risco. Um adulto é capaz de se antecipar muito mais, e isso tira o risco e com a falta do risco perdemos a adrenalina. Uma maneira é apelar para esportes radicais. Ou radicalizar na vida, mergulhando de cabeça em algo que nem nos cabe mais, numa atitude bastante auto-destrutiva. Quem sabe o grande prazer que sentíamos nas festas de faculdade e namoros na praia fosse a descoberta do sexo. Nesse caso, sem as nóias e proibições da adolescência, um adulto pode fazer sexo com muito mais liberdade. Pode repetir e repetir, cada vez mais, com pessoas ainda mais belas, mais jovens, com mais pessoas, com fantasias cada vez mais sofisticadas. Há várias formas de ver, há várias formas de buscar. Existem até os que não fazem nada, por acreditarem ser inútil. O fato é que há algo lá atrás que se perde com o tempo. Um adulto rejuvenescido e descolado não passa de uma farsa que não engana ninguém. Envelhecemos e ganhamos estabilidade, previsão, experiência, dinheiro, auto-conhecimento, força, estratégias, influência e o diabo a quatro. Ganhamos tanto e perdemos a cor, a capacidade de tornar a vida interessante. Perdemos a intensidade.

Pessoas Não

Li em algum livro do Osho ele dizer que existem pessoas que são Sim e outras que são Não. Os Sim são os continuadores, os que conservam as tradições. Os Não são os destruidores, os rebeldes. Quando li, me achei incontestavelmente uma pessoa Sim. Eu (na época), a boa filha, boa aluna, boa esposa, boa qualquer coisa que implique em disciplina. Alias, as pessoas me descrevem tanto usando essa palavra – disciplinada – que me pego desenvolvendo complexos relativos a isso. Mas aí é outro tema.
Aí tem uma história num livro do Paulo Coelho, deve ter sido no Diário de um Mago ou no Alquimista, porque não acompanhei muito a carreira dele depois disso, que o personagem quando precisava descobrir alguma coisa usava duas pedras para perguntar, Urim e Tumin. Uma significava Sim e outra Não. Não sei qual era qual. Sei que eu e meu irmão André éramos considerados Urim e Tumin. Pra qualquer questão, fosse quem gosta de doce de leite, ou a opinião sobre o assunto do momento, nós tínhamos visões diferentes, partíamos de pontos de argumentação opostos. Meu irmão, na época, o cara legal que começou uma faculdade, trancou, trabalhou um par em coisas diferentes, fez outra…
Apesar de não fazer nada pra isso, de ser uma pessoa que gosta de acordar cedo, não come carne, não tem tatuagens e todos os sinais exteriores de rebeldia, hoje sei que sou uma pessoa Não. Meu irmão, o oposto a mim, está fazendo seu pós-doc e vai seguir a segura carreira de professor. Eu continuo sem saber para onde vou. Achei que sabia aos vinte, que saberia aos trinta, e agora espero saber aos quarenta. Porque é foda. É legal mas também é foda.
Eu invejava o Farruquito, por ter nascido numa família flamenca e hoje ser um grande bailaor flamenco, representante de uma linhagem. Nasceu no meio daquilo, faz parte dele; e eu, aqui tentando aprender a entrar numa bulería. Mas, quer saber? Certeza que se eu tivesse nascido numa família flamenca, igual a do Farruquito, eu teria virado dentista.

Um dia o Ale me mandou este vídeo. Fiquei muito emocionada quando recebi, é muito eu:

Curtas e solteiras

Acho, apenas acho, que as pessoas à minha volta já esperariam que eu estivesse envolvida em alguma história. Romanticamente falando, sabe.
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A tal festa da qual falei no post passado. Eram mesas compridas, cheias de gente, e na prática só dá pra conversar com quem está sentado perto. E eu sentei perto das minhas amigas. Dias depois, comentando sobre a festa, a aniversariante apontou pra mim e pra outras: “Tinha três amigos solteiros lá. TRÊS. E ninguém foi”. Eu não havia me tocado disso: de que agora sou solteira, e quando vou num ambiente devo reparar em todas as mãos masculinas pra ver quem também é solteiro. Aí eu avalio, vejo se quero, e se quiser já parto pra cima. Ou seja, deixa eu mudar o botão do modo “normal” para o modo “desesperado”.
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Na minha adolescência e na faculdade eu passava longos períodos sozinha. Era difícil eu me envolver com alguém. Tinha muitas paixões platônicas, vivia apaixonada, mas só queria algo se fosse assim, apaixonada. Não ia a baladas, e quando ia não ficava porque não via graça. Cantadas me causavam uma reação estranha, quase uma coceira, uma vontade irresistível de responder de maneira cretina. Como vão os namorados? Todos bem, com saúde, graças a Deus.
Eu, casada, olhava para trás e pensava: que boba que eu fui, deveria ter aproveitado mais. Deveria ter namorado, ficado, dado. Agora estou solteira de novo e quem disse? A gente é o que é, não adianta.
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Um dos problemas, um dos meus grandes problemas, é que não sei se sei me relacionar da forma adulta. Agora eu devo olhar pro cara, avaliar se gosto do currículo e se estiver tudo ok eu dou pra ele? Afinal, pra que enrolar se somos dois adultos, sem ilusões e nem expectativas e no fundo tudo se resume a sexo? Não sei se consigo, juro. Se conseguisse, já teria arranjado alguém. Sou ridícula, tô indo pra casa dos quarenta e quero me apaixonar.
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Então eu acho que o sujeito tem que me conhecer e aprender a gostar de mim. Tá bom. Tá bom nada, tenho medo.

Sabedoria

Quantos de nós não fariam igual Peter Pan, se tivéssemos sabido o que nos aguardava a vida adulta. Crescemos e sentimos o mesmo de sempre: a mesma insegurança, o mesmo não saber para onde ir, a mesma solidão, só que na versão maior e mais séria. As atitudes maduras que vêm com a idade não são nada daquilo que eu esperava. Eu achava que com os anos as coisas parariam de me afetar. Sem me deixar afetar por elas, eu olharia para os meus problemas com calma e isso me levaria a tomar decisões sensatas. Pois bem, as coisas que doíam antes continuam doendo depois, só muda o formato. Não dói mais ser rejeitada pelo coleguinha interessante da 6º B, mas dói descobrir que o homem interessante que me olhava é muito bem casado e com filhos. Está tudo lá, igual ao que sempre foi. Se diante das dificuldades da vida eu não saio correndo aos prantos pros braços da minha mãe, é única e tão somente porque pega mal.
A não ser que a pessoa tenha se tornado um ser iluminado que saiu da roda de Samsara, a parte de olhar para os problemas sem se deixar afetar não existe. O que adquirimos é a experiência de já ter surtado, chorado, jogado as coisas pro alto, ter tirado satisfações, se vingado, sambado na cara e, depois de tudo, voltado a chorar solitariamente no quarto. Por causa disso, decidimos poupar todo trajeto e ficamos quietos no canto. Seguramos a onda, só isso. O que quebra não tem mais conserto, tem só remendo, o que não é o mesmo de nunca ter quebrado. Quanto mais cedo aceitamos – céus, odeio essa palavra, a-ce-i-tar! – melhor. A vida fica lá, impassível, esperando a gente parar de se debater e fazer birra na sessão de brinquedos do shopping. Então, ao invés de telefonar e dizer besteira, abrimos uma caixa de Bis. Pra não ficar remoendo pensamentos tristes, assistimos um filme. E por aí vai. O coração se desespera e acha que tudo está perdido, mas tentamos fazer com que a mente não vá atrás. Dizemos para nós mesmos o mesmo que diríamos a um amigo naquela situação. Tal como aconteceria com o amigo, não adianta muita coisa. Alivia apenas o suficiente para seguirmos adiante.
Aguardo ansiosamente (ops!) o dia que serei realmente sábia, sem dor, como deveria ser.

Quebrados

Eu entrei na faculdade com outros alunos mais velhos. Uma delas era uma senhora com mais de quarenta anos. Há pessoas e pessoas com quarenta anos; ela era aqueles quarenta na visão que temos na adolescência, a pessoa já com família, filhos, história, peso. Por detrás dos óculos, quando ela via os ativos alunos do centro acadêmico bradarem suas verdades, ela dizia que era exatamente daquela forma quando jovem. Ela sempre falava assim, de como ela era, de como agiria, do que estaria fazendo. Era um contraste o que ela dizia fazer – gritar, bradar, reivindicar – da senhora pacata que eu tinha do meu lado. Não sei se a pergunta do porque ela não era mais assim era evidente ou se um dia ela mesma percebeu. Ela citou, vagamente, que havia vivido muita coisa e perdido aquela confiança.

 

Eu vejo que a vida vai nos quebrando. Que ser confiante quando jovem talvez seja o caminho natural. Acreditar que o mundo nos ama, que vai se dobrar à nossa vontade só porque é a nossa vontade, ou só porque nos parece certo. Difícil é ser assim depois de certa idade, depois de ter sido quebrado e colado em pedaços incontáveis. Quantas vezes somos capazes de quebrar e não perder a força?

 

Sejamos kitsungis.

Adultecência

Atualmente somos em três na turma teórica da auto escola. Claro que no quadro com as fotos de pessoas que tiraram carteira naquela auto escola eu não conheço ninguém; claro que eu sou a mais velha da turma. Idade típica estão os meus colegas. O rapaz acabou de passar em direito e a menina quer fazer medicina. Eles são legais e tal, mas não tenho muito saco de conversar com eles por causa da fase. Quando a pessoa está nessa fase de cursinho, só consegue pensar e falar sobre isso. Lembro de ter passado um ano inteiro sabendo os rankings das melhores universidades, os preços, o número de candidatos por vagas, as diferenças entre currículos. Depois que a gente passa no vestibular, abandona todas essas informações com gosto. Eles ainda não chegaram lá. Sem falar na visão romântica do que é uma carreira, de acreditarem que quem faz o que ama (em oposição a quem faz cursos “que dão dinheiro”) sempre se dá bem e arranja os melhores empregos. A menina, tadinha, já tentou vestibular pra medicina três anos seguidos e não entrou nem em particular. Fico com dó. Pior é que eu duvido tanto que a escolha de um curso superior seja definitiva ou pra vida inteira, que nem sei dizer se vale a pena perder quatro anos tentando medicina. Mas ninguém me perguntou nada. E, mesmo se eu falasse alguma coisa, também não adiantaria nada.
O papo deles é chatinho porque a diferença entre alguém que está no cursinho e quem finalmente está numa universidade – ou já largou mão e está trabalhando – é enorme. Assim como é enorme a diferença entre um universitário e um formado, já na luta pelo emprego. São mudanças que exigem outras conversas, outras posturas. Daqui há seis meses, conversar com esse rapaz já será outra coisa. Então fiquei pensando no caso dessa moça, há três anos com esse papo de rankings das universidades, candidatos por vaga, currículos, etc. É como estar preso num limbo. Enquanto ela não passar (ou desistir) em medicina, estará sempre nessa adolescência chata. Por mais sensível e inteligente que uma pessoa seja, se o meio não exige a gente não passa para a fase seguinte da vida adulta.
Não estou condenando a moça, pelo contrário. Cheguei à essa conclusão justamente porque também me sinto muito adultecente. As mulheres da minha idade discutem sobre filhos e emprego, e nessas horas eu só fico quieta. As que já se divorciaram sabem mais ainda. Na verdade, somos muitos, os adultecentes: mulheres com filhos sustentadas pelos maridos, jovens nem-nem, pessoas que não são e nem nunca serão pais. Também posso pensar em outras experiências definitivas na vida: sexo, morte que pessoa próxima, morar sozinho, envelhecer, etc. Se meu raciocínio está correto, a maturidade não se parece com uma linha do tempo que se ultrapassa e sim com um bingo. Nem todos completarão a cartela.

Mapa astral

Não fui criança geniazinha que gostava de dinossauros, mas desde que me lembre eu conhecia a história dos deuses gregos. Havia um motivo muito prático pra isso – se eu conhecesse a história dos deuses que dão o nomes aos planetas, eu saberia o seu significado na astrologia. Os signos todo mundo conhece um pouco, e depois foi ler o significado das casas e entender como signos, planetas, ascendentes, casas e aspectos se movem nesse esquema complicado que é o mapa astral. E, claro, desde criança eu conheço o meu mapa astral. Tinha em casa um livro chamado Curso Básico de Astrologia, que depois de explicar tudo isso, descrevia o que significava cada aspecto. Minha mãe marcou com uma bolinha cada aspecto de cada um em casa, então era fácil saber quais eram os meus. Enquanto a maioria cresce lendo sobre os signos, eu lia sobre o meu marte, os meu stelium, a minha quadratura, etc. Eu sabia de cor não apenas os meus aspectos como quase todas as descrições do livro.
abandonei. Quando minha vida se tornou algo mais independente, quando passaram a fazer parte do meu mundo apenas o que eu busco, a astrologia e todo o conhecimento místico daquela época deixaram de fazer sentido, passaram a ser apenas uma lembrança. Se me falam de tarot, espiritismo, yoga, cabala, sei de tudo um pouco; mas daí eu buscar e me ver como parte disso já não mais. Eu desacredito acreditando, acredito desacreditando. Sei o que é tudo, mas também duvido de tudo.
Só que, acreditando ou não, a vida me colocou de novo em contato com astrologia. Nem que seja apenas com olhos de outras pessoas, de pessoas que são capazes de olhar para mim e achar que eu sou “muito gêmeos” – ver numa pessoa o seu signo, coisa que eu nunca fui capaz de fazer. E de me olhar com os olhos do outro e procurar o que há de tão claramente gêmeos em mim, descubro um pouco da maneira como os outros me vêem. Puxa, eu sou muito gêmeos mesmo. Durante muito tempo lutei para ser profunda, adulta, madura, séria… depois cansei e hoje tento ser leve. Ou ter espírito jovem do geminiano. Fugi tanto e cheguei no gêmeos; como se eu fosse personagem de tragédia grega, que ao lutar contra o seu destino vai de encontro a ele. Falando de amor, penso na minha vênus em touro na segunda casa. As primeiras palavras do livro para me descrever eram: fiel e estável. E sou mesmo. Invejo as que têm no currículo aventuras amorosas, paixões avassaladoras ou filas de admiradores, aquelas que sabem ser sensuais com um olhar. Minha maneira de gostar sempre foi amor, compromisso, fidelidade, confiança. Bem touro mesmo. Nunca serei uma femme fatale; cada qual com o seu jeito, com as suas vantagens e desvantagens. Não é à toa que tenho mais de dez anos de casada…
Quando adolescente eu tinha decorado os meus aspectos, só que eles eram para mim apenas palavras. Eu não sabia o quanto daquilo era verdade, o quanto se refletia em atitudes e escolhas. Eu ainda não tinha vivido, eu não tinha testado. O que me surpreende é ter chegado na fase em que olho para trás e sei dizer quase com precisão quem eu sou. Das muitas coisas que ficam melhores com a idade, mapa astral é uma delas.

Prendas adultas

Quando minha colega chega maravilhosamente trajada na aula de flamenco, com um vestido lindo, tecido maravilhoso, babados e acabamento perfeito, eu não consigo deixar de pensar que isso mostra que ela não lava a própria roupa. Não lava e não passa. Digo isso porque eu lavo. Na casa do meu pai, eu tirava a roupa suja e colocava numa portinha do armário embaixo da pia do banheiro e semanas depois ela voltava passada para a minha gaveta. Quando a gente tem a própria casa e começa a se preocupar com os tecidos brancos ou coloridos, com os que soltam tinta ou os que podem ir para a máquina, do que leva tempo para passar ou que basta dar uma batidinha quando a roupa está úmida, a relação com a roupa muda, e para sempre. Minhas roupas lindas de flamenco estão todas no guarda-roupa, esperando ocasiões especialíssimas. Pra ir pra aula, só roupa prática.

Falando assim dá a impressão de que sou muito adulta, e não sou. Essa de lavar a roupa é, digamos, coisa de pobre. Conheço quem mora sozinha, paga suas contas e a faxineira mensalista faz isso. Casar é algo que adultesce bastante a pessoa, mas ter dinheiro pode atrasar (ou nos poupar de) muita coisa. Uma dessas coisas, para mim, sempre foi a relação com a cozinha. Evitei durante muitos anos cozinhar melhor, apelei para comer fora e para um marido que tem excelente mão pra cozinha. Como boa preguiçosa, troco tranquilamente um almoço por uma tigela de pipoca ou um sanduíche de atum – ia dizer “um belo sanduíche de atum”, mas nos últimos tempos só enfiava o atum no meio do pão com manteiga. Agora estou fazendo dukan e atingi outro estágio de prendas: estou catando e fazendo receitas. Tudo porque ou tomava as rédeas do que como ou passava mal de tanta ricota e camarão. Não tem jeito, o humano é só se mexer quando a água bate na bunda.

Uma coisa que faz com que eu me sinta muito imatura – e nisso serei sempre imatura – é quando minhas amigas citam o ponto de vista de uma mãe. É quase sempre inesperado pra mim, porque não é uma coisa óbvia como falar de crianças brincando no parquinho. Ou do meu choque quando um pai me disse que a filha de quatro anos era viciada em refrigerante e facebook. São coisas como a Klenny se preocupar de suas filhas sofrerem no colégio com as coleguinhas falando “a sua mãe chupa, a sua mãe chupa!” enquanto nos divertíamos com a versão poética da Valeska Popozuda com o Mr. Catra. Ou quando a Tina, ao ver uma noiva fazendo voto de obediência ao marido, se imaginava tirando a filha dela aos tapas do altar se ela falasse uma besteira dessas. A maternidade leva a outro estágio, o emprego leva a outra estágio, a morte leva a outro estágio. Como hoje é possível casar sem cozinhar, ter filhos sem educar e tantas dificuldades que muitos nunca passarão, me parece que ser adulto é quase como um sistema de pontos que nem todos alcançam. Minha visão de ser adulto é algo meio:

Adulto completo: mínimo de 1000 pontos

Estudou em escola particular: 40 pontos
Estudou em escola pública: 80 pontos
Não estudou: 700 pontos
Perdeu um dos pais: 300 pontos
Perdeu um dos pais na infância: 800 pontos
Casou e foi morar em casa própria com empregada: 40 pontos
Casou e foi morar de aluguel sem empregada: 200 pontos
Divorciou bem: 70 pontos
Divorciou e descobriu que o ex é um ladrão filho da puta: 140 pontos
Tem filho(s): 900 pontos
Nasceu lindo: -100 pontos
Nasceu rico: -500 pontos

E por aí vai…

Segurar a onda

Eu tinha uma amiga que trocava e-mails comigo enquanto trabalhava, então a conversa tanto poderia durar muitas horas como ser bruscamente interrompida. Falávamos de várias coisas quando ela citou um convite que havia me feito para passar um fim de semana. Quando ela me convidou, mais de uma semana atrás, estava dentro do carro, dirigindo, e passaríamos o fim de semana numa casa da família do namorado que ficava perto de não sei que cidade de Santa Catarina. Ou seja, um convite bastante vago. Naquelas alturas, eu já tinha falado com o Luiz e feito outra programação. Respondi pra ela que não ia dar e não recebi mais notícias, o que não me causou nenhum estranheza. Essa conversa foi antes do almoço. Meia noite, quando estava desligando o computador, recebi um e-mail dela, enorme. Nela, ela me xingava de curitibana (ela era carioca) e jogava na cara vários aspectos do nosso convívio e da nossa personalidade que podiam ser atribuídos à minha curitibanidade. Respondi no mesmo tom e como resposta veio um “não quis dizer o que eu disse, alias, ia te convidar pra ir lá no outro fim de semana”. Fiquei sem palavras diante de tanta imaturidade. 
Eu me lembrei do tanto que o meu primeiro namorado reclamava. Ele era doze anos mais velho do que eu e mais brigávamos do que ficávamos bem. Eu fazia igualzinho – me aborrecia, dizia o que me dava na telha e depois pedia sinceras desculpas. O quanto que ele reclamava disso, o quanto dizia que era adolescente! Mas ele suportava porque eu realmente estava na adolescência. Tem quem nunca saia dela, claro. Vejo que o que divide os adolescentes dos adultos não é deixar de sentir as coisas e sim se segurar. Essa minha amiga deveria ter falado mal de mim pro namorado, me xingado de todos os nomes e reclamado o dia inteiro, mas jamais ter feito aquilo. Aquele gesto custou uma amizade que eu sei que ela não tinha a intenção de romper. Depois disso passei a ver com outros olhos o fim do casamento dela e problemas que até aquela data ela me parecia coberta de razão. Todas as grandes qualidades dela não aliviariam o fato de que eu teria como amiga uma bomba-relógio, que diante de qualquer contrariedade viria me xingar e estragar o meu dia. Preferi romper.
Lembrei de tudo isso porque tenho sentido muita vontade de despejar minhas merdas no mundo. Tenho tido vontade de reclamar muito no twitter, tenho sentido inveja, tenho me sentido desprestigiada, tenho sentido um bocado de coisas ruins. Mas tenho segurado tudo isso porque é a melhor coisa a se fazer. Posso ser acusada de muitas coisas, mas ninguém pode dizer que não tenho segurado a minha onda, que tenho sido imatura. Segurar a onda ajuda todo mundo: ajuda os meus problemas a não se tornarem maiores, me ajuda a manter amigos que talvez não merecessem o que eu teria para lhes dizer agora, ajuda as pessoas a não se preocuparem ou se aborrecerem com o que não diz respeito a elas. A adultecêssencia, esse estágio que a gente entra sem querer entrar e de tão poucas vantagens, não é deixar de sentir e sim saber como, quando e o quê expressar. Eu seguro minha onda e espero, apesar de ter o mesmo coração ardente e explosivo de sempre.

Eu quero

Criança quer. Conta a minha mãe que qualquer propaganda que eu via me fazia pedir pra ela um igual, fosse o que fosse. Um dia eu lhe pedi um “já nas bancas”. Não tão criança assim, eu olhava o corpo das outras mulheres e queria algumas coisas e rejeitava outras. Pés de galinha eu não tinha nada contra, mas ficar com aquelas linhas que se juntam nos lábios eu não queria. Eu gostava de pernas longas e não de pernas curtas. Como é que algumas mulheres se deixavam ficar feias e pesadas com o passar dos anos? Eu não, eu queria envelhecer magra e bonitona. Minha mãe me explicou que ela também pensava assim quando era mais jovem, como se o corpo que a gente tem fosse uma escolha. E quando eu crescesse eu perceberia que o meu corpo é como ele é, e não um conjunto de coisas que eu gosto. 

Algumas pessoas são troncudas, outras têm membros compridos. Mulheres podem ter ombros largos e quadris estreitos, ou quadris largos e ombros estreitos. Algumas acumulam gordura em cima e ficam com as pernas fininhas, outras é o contrário. Peitão e bundão nunca costumam aparecer juntos. Cachinhos são lindos quando definidos, mas dão muito trabalho para ficarem assim. Cabelos lisos são práticos, não embaraçam, mas também não têm volume. Se eu tivesse escolhido, jamais teria pedido as mãos pequenas que tenho, e sim dedos longos e talhados para tocar piano. Mas com pai e mãe de mãos pequenas, minhas chances eram quase nulas. A famosa barriginha chapada eu nunca tive, nem quando adolescente. Grande parte da vida isso não me incomodou; depois da década de 90 a barriga ficou subitamente importante. Passou a ser exibida em piercings, tattoos, cinturas baixas, videoclipes, atrizes que acabaram de parir. Eu passei, então, a ter uma parte do corpo para rejeitar.

Numa coisa minha mãe estava errada: nem todo mundo cresce e descobre que o nosso corpo é o que é. As plásticas e as dietas dão a impressão de que superamos nosso fenótipo. As pessoas escolhem seus corpos como quem vai ao mercado. A peituda não se conforma em não ser também bunduda, a de membros curtos fica anoréxica pra se parecer com a de membros longos. E todas elas querem parecer ter dezessete anos. O corpo que você deve querer: já nas bancas.

Lalá

Alguns diziam que ela levava alegria por onde passava. Acredito que a maior parte das pessoas se irritavam, inclusive as que a chamavam de alegria. Porque Lalá chegava literalmente gritando. Ela gritava, corria, beijava, abraçava, ria, fazia tudo alto e de maneira espalhafatosa, como uma criança. Ela convencia tanto com esses gestos, que eu só fui ter real dimensão da idade da Lalá quando ela me revelou a data de nascimento, e percebi que é a mesma idade da minha mãe. Não que não dê pra perceber que existe uma vovó ali, olhando o seu rosto. Mas o seu corpo durinho, magro e bem cuidado de quem cavalgava pelo interior do Rio Grande, dançou ballet nos Estados Unidos, fez apresentações de patinação artística e hoje joga tênis, deixavam-na em algum lugar indeterminado- mais jovem e ativa do que a turma que deveria ser a dela, mais velha do que a maneira como se vê. Quando Lalá começou a costurar e mostrar para todos o seu trabalho, uma mudança estava em curso. Uma mudança tão sutil quanto os próprios acabamentos das costuras, que foram ficando cada vez mais caprichados e complexos. Embora continue espalhafatosa, reparando bem, ela parou de gritar. A mulher que estava por baixo, que pra falar sério precisava ser praticamente invocada, está mais fácil de acessar. Sentamos para conversar com um pouco mais de tempo e Lalá me contou que o marido dela fez uma besteira financeira muito grande. Algo que só de pensar a mata de raiva. E uma mulher como ela, que sempre teve de tudo, às portas de fazer sessenta anos, tem que vender costuras pra pagar o que a mantém feliz.