Síndrome de Lar Doce Lar

Eu sempre gostei de decoração, por isso a-do-ro o Lar Doce Lar. Quando não vejo pela TV, acesso o site e tudo. Só que esse quadro me dá um efeito colateral péssimo, que o Luiz já se acostumou: fico achando minha casa feia, e saio por aí á caça de algum modo de arrumá-la. Hoje, por sorte, tinha uma estante de plástico que compramos de manhã, pra dar jeito na bagunça da nossa área de serviço semi-descoberta.

E por falar em semi-descoberta, que tempinho lazarento o de Curitiba nesse fim de ano. Pra cada dia bonito, duas semanas de chuva e frio. Ninguém agüenta mais. Minha garganta dói, chove horrores e minha casa não é linda. Só wii fit salva!

Um imóvel não é um lar

Hoje assisti um daqueles programas de vendas que eu adoro, o Imóveis na TV. Adoro ficar babando com os apartamentos de 260 mil reais, que tem até sensor de impressões digitais pra fazer o elevador sair do lugar; por outro lado, é bom ver que argumentos eles usam pra convencer a gente a comprar terrenos lá na pqp ou de metragem minúscula. Eu já passei pela experiência de procurar aquele lugar pra morar. Gamar nos imóveis caros é facílimo e dá a impressão que tudo custa, no mínimo, 10 mil reais a mais do que a gente pode. O sonho vai ficando menor à medida em que da gente conhece os imóveis e fica menor ainda quando descobre de quantos detalhes é feita uma casa. Logo no meu primeiro dia na minha casa, eu percebi que tapetinhos de banheiro são itens essenciais. Assim como um kit básico de costura.

Tirando aquele topo da piramide que se muda pra um lugar pré-decorado, tudo é feito muito aos poucos. Até hoje tenho na minha sala de jantar uma mesa de plástico que pertencia aos meus sogros. A gente acha que cada mês vai fazer uma coisa, mas aí um troço estraga, um cano arrebenta e um vazamento surge: pronto, lá se foi o plano de fazer aquela super compra linda. Como fazer? A gente empilha uns livros no canto e coloca uns quadros no chão e finge que tudo está no seu lugar.

Tem casas que são mais bonitas incompletas, porque elas parecem com seus donos – e não aquela mesa de vidro com espelho e aparador que todo mundo têm. Que bom se toda casa conseguisse refletir aquele ar de casa nova, onde tudo é essencial e personalíssimo. Não gosto daqueles lugares que você pode tirar a pessoa que mora ali e substituir por outra que está tudo bem. Assim como na vida, eu acho que as regras foram feitas para serem quebradas. Num imóvel, isso pode ser a derrubada de uma parede, fazer da sala de estar uma grande lan house ou até mesmo não ter sala de estar. Um lar, pra mim, deve ser um pedaço de seu dono, refletir quem ele é. E nem todo dono precisa de uma grande mesa de vidro com espelho e aparador.

Eu e a rede, a rede e eu

Assim que me mudei pra cá, colocar ganchos para a rede foi uma das primeiras providências. Quando meu pai me ofereceu um presente de casamento, não tive dúvidas: pedi uma rede. Ele, como pai, protestou, queria me dar um presente melhor, porque eu estava montando minha casa e etc. Mas eu lhe convenci quando expliquei que sofá eu encontro aqui facilmente – mas onde encontraria A Rede, como só no nordeste tem?

Quando estou bem, quando tenho tempo ou quando, como hoje, não estava bem e tinha tempo, vou para minha rede. O tempo ajudou e depois de semanas de céu cinza, ele se fez subitamente azul e ensolarado. Estar na rede é uma das coisas mais curativas que tem. Hoje, como tinha sol, dormi na rede. Noutros, a cura é olhar o céu sem pensar.

Nos dias de muito calor, não é possível ficar na minha rede ao meio-dia, porque nesse horário ela fica quente demais. Nos dias frios, como hoje, é o horário certo. Quando faz calor, o melhor é deitar de camisola. Quando estou estudando o livro, levo lápis e papel se for necessário. Quando a tarde está melancólica, nada melhor do que música e incenso. Nos dias de frio, uma técnica: deitar na rede completamente enrolada, senão a bunda gela.

Minha rede é meu bem precioso, muito mais importante do que qualquer sofá que eu poderia ter ganhado do meu pai. Aliás, minha sala ainda não tem sofá – isso pode esperar.

Não há melhor lugar…

Durante muito tempo, meu lar foi o meu quarto. Ele tinha algo como 2 x 3 metros. A cama o ocupava quase inteiro. Era úmido, frio, apertado, cheio de traças no rodapé. Mas era o meu quarto. E eu empreendia uma luta espartana para deixá-lo agradável: limpezas profundas toda semana, janelas sempre abertas, organização impecável, combate aos habitantes indesejáveis.

Agora meus domínios se estenderam para uma casa inteira. A falta de armários e prateleiras faz com que a organização seja sempre difícil, uma vez que o lugar correto de muitas coisas é no chão ou em cima de outras coisas mesmo. Durante algum tempo, consegui manter as coisas mais ou menos aprensentáveis. Isso antes do mestrado, que me faz ficar fora o dia inteiro e simplesmente atirar as coisas no chão e sair correndo pra faculdade. Isso antes do cachorro, que agora inventou de roer o rodapé.

Eu sempre acreditei ver refletido no espaço onde ocupo o meu estado de espírito. Tantos projetos, tantas paredes para pintar, tantos móveis e prateleiras, até mesmo as pedrinhas para colocar no fundo da casa! Quando olho para essa bagunça, essa sujeira, as tantas coisas que simplesmente não tem lugar… Além de me sentir a última das donas de casa, tenho a impressão de que estou desorganizada internamente, de que não controlo mais minha vida, de que as coisas me acontecem e não sei como classificá-las dentro de mim. Talvez por isso que eu acredite em Feng Shui, porque dizer que a casa muda e reflete a sua energia pra mim faz todo sentido. Eu tenho, eu tenho, eu tenho que arrumar a casa.

{Um comentário: por que diabos os homens são incapazes de colocar algo no lugar????}