Um imóvel não é um lar

Hoje assisti um daqueles programas de vendas que eu adoro, o Imóveis na TV. Adoro ficar babando com os apartamentos de 260 mil reais, que tem até sensor de impressões digitais pra fazer o elevador sair do lugar; por outro lado, é bom ver que argumentos eles usam pra convencer a gente a comprar terrenos lá na pqp ou de metragem minúscula. Eu já passei pela experiência de procurar aquele lugar pra morar. Gamar nos imóveis caros é facílimo e dá a impressão que tudo custa, no mínimo, 10 mil reais a mais do que a gente pode. O sonho vai ficando menor à medida em que da gente conhece os imóveis e fica menor ainda quando descobre de quantos detalhes é feita uma casa. Logo no meu primeiro dia na minha casa, eu percebi que tapetinhos de banheiro são itens essenciais. Assim como um kit básico de costura.

Tirando aquele topo da piramide que se muda pra um lugar pré-decorado, tudo é feito muito aos poucos. Até hoje tenho na minha sala de jantar uma mesa de plástico que pertencia aos meus sogros. A gente acha que cada mês vai fazer uma coisa, mas aí um troço estraga, um cano arrebenta e um vazamento surge: pronto, lá se foi o plano de fazer aquela super compra linda. Como fazer? A gente empilha uns livros no canto e coloca uns quadros no chão e finge que tudo está no seu lugar.

Tem casas que são mais bonitas incompletas, porque elas parecem com seus donos – e não aquela mesa de vidro com espelho e aparador que todo mundo têm. Que bom se toda casa conseguisse refletir aquele ar de casa nova, onde tudo é essencial e personalíssimo. Não gosto daqueles lugares que você pode tirar a pessoa que mora ali e substituir por outra que está tudo bem. Assim como na vida, eu acho que as regras foram feitas para serem quebradas. Num imóvel, isso pode ser a derrubada de uma parede, fazer da sala de estar uma grande lan house ou até mesmo não ter sala de estar. Um lar, pra mim, deve ser um pedaço de seu dono, refletir quem ele é. E nem todo dono precisa de uma grande mesa de vidro com espelho e aparador.

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