Unhas roídas

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A mãe da Letícia roía as unhas, bastante, e como todo mundo que rói unhas já tinha tentado de tudo para parar, de força de vontade a passar coisas amargas embaixo. “Ela parou de roer unhas por causa de um velório”, a Letícia me contou no carro, naquela típica antecipação de quem sabe criar um suspense. Foi assim: ela foi num velório e a morta estava num caixão aberto. Toda arrumada, como convém. A mãe da Letícia se aproximou, tocada. Aí percebeu, sobre o peito, a mão toda encolhidinha. Com as unhas no cotoco. Aquilo mexeu com ela – a morta, toda caprichada, unha no cotoco. Ela não desejou estar assim no funeral dela. Depois, cada vez que ia colocar a unha na boca lembrava da morta. “Hoje tem uns unhão grande, forte, que vê nem imagina que roía muito”

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No creo em brujas, pero…

Por mais que se sinta a morte de alguém, estar num funeral nos conscientiza da impossibilidade até física de passar o tempo todo no luto. O corpo cansa. A gente cansa de chorar, de sentir pena, de lembrar. E cansa também de ficar sentado ou de ficar de pé. E sente fome. Depois de comer precisa ir no banheiro. Não temos queixas do serviço que ofereceram ao meu sogro. A funerária fica num prédio novo, bonito, de três andares. Cada andar tem um ou dois salões, ou seja, pode ter vários funerais ao mesmo tempo. Naquela madrugada fomos apenas nós, no térreo. Meu sogro ficou numa capela simples, que era sem luxos mas bastante confortável: a antessala tinha chão de porcelanato, sofás de couro branco, mesinha de café, lugar para colocar as bolsas. Na recepção, há pelo menos funcionário disponível 24h. Há até a possibilidade da família solicitar um banheiro onde possa tomar banho. O banheiro comum, que fica no andar, é limpo. Lá tem dois reservados, uma pia, sabonete líquido e papéis para secar a mão, que saem naqueles negócios com sensor de movimento.
Fiquei boa parte da tarde e da noite lá, mas o Luiz não quis ficar de madrugada e voltamos para casa. A intenção era descansar depois de um dia inteiro de correria, mas a verdade é que a gente quase não conseguiu dormir. Pelo menos ficamos quentinhos – meu sogro morreu num dos fins de semana mais frios e chuvosos do ano, o que deu ao seu funeral uma cara ainda mais triste. Minha cunhada e minha sogra ficaram lá a noite toda, assim como alguns outros parentes. No meio dessa madrugada insone, lá pelas 3h, minha cunhada precisou ir ao banheiro. Saiu da capela, passou pela recepção e foi ao banheiro. Tudo silencioso e vazio. Enquanto estava no reservado, ouviu um barulho. Era o sensor de papel, liberando dois papéis toalhas. “Que estranho”, ela pensou, “quem será que entrou aqui só pra pegar papel toalha?”. Sem dizer que ela não havia ouvido o som da porta. Quando saiu do banheiro, não havia ninguém, só as toalhas liberadas. Lavou as mãos, secou com as toalhas que estavam ali e perguntou na recepção se alguém fora no banheiro depois dela. Ninguém. Ou alguém.

A morte

A morte não senta. A gente descobre isso lendo Contos de morte morrida do meu amigo Ernani Ssó. O livro é uma graça, com pessoas que fazem acordos, ficam amigas da morte, roubam sua gadalha. Fui no velório do meu sogro e a procurei pelos cantos, de pé. Mas, claro, procurei tarde demais. Ela já o havia visitado há horas, em casa. O que tinha ali era apenas o corpo.
Eu gostava muito do meu sogro, mas seria um exagero dizer que éramos como pai e filha. Alias, essa foi uma das reflexões tristes – pra que servem os funerais, senão para reflexões – que tive lá: serei uma estranha no funeral dos meus próprios pais, principalmente do meu pai. Sempre vivemos separados e no dia que ele morrer pegarei um vôo até Salvador, onde os presentes terão de ser avisados que eu sou a filha do morto, aquela que mora em Curitiba…
Eu chorei quando tive a notícia do meu sogro, chorei antes de sair de casa, mas chegando lá meus olhos ficaram secos. Vou dizer: é constrangedor ficar de olhos secos quando pessoas menos próximas que você estão chorando. Eu, que sou tão emotiva. Mas aí seguimos em cortejo, fomos ao cemitério e encontramos a cova. Os homens carregaram o caixão, que desceu em meio à chuva fina e um frio de lascar. Quando começaram a cimentar, toda aquela cena me pareceu insuportável. Quis fugir, quis vomitar aquele momento. Olhei para os lados à procura da morte, aquela que nunca senta, para xingá-la e dizer que a odeio, que não a aceito. No horizonte, nem sinal dela, apenas do que ela fez – centenas de túmulos, centenas de madeiras e lajes, mais pessoas do que se pode contar. Aí eu chorei – pelo Luiz, pela família dele, por todas as famílias, por mim.