Fantasia

elefante voador - Natu Bieby

Acho que ele percebeu quando eu voltei a sorrir e a contar piadas que estava melhor da separação. Nos conhecíamos a algum tempo e até então ele jamais havia tentado nada. Os nossos horários subitamente começaram a coincidir e ele se sentava ao meu lado e perguntava, de forma nada sutil, sobre o meu fim de semana. Se eu havia ido a algum barzinho. Se havia bebido. Se havia voltado tarde. Se estava saindo com alguém. Eram tantas perguntas e tão longe da minha realidade – passar cal no muro, atravessar a cidade de ônibus ou colocar as leituras em dia – que comecei a brincar dizendo que ele é que deveria me dizer como foi meu fim de semana, que eu gostava muito mais da versão dele do que da minha.

Dividi isso com pouquíssimas pessoas porque tinha certeza que me chamariam de trouxa. Ainda mais se eu mostrasse uma foto dele. Idade regulava (um pouco mais velho do que eu), aparência regulava (bonitão), temperamento regulava (meio reservado, meio brincalhão); a única coisa que não regulava era o meu papel nessa história: casado, muito bem casado, obrigada. Não havia nem papinho de mulher doente, o que ele queria mesmo era cama, no máximo uma amante, quem sabe até remunerada. Pois é, além das qualidades que eu já mencionei, é rico. Nunca rolou uma baita afinidade, mas eu o acho simpático. Quem sabe eu pudesse dizer que se as circunstâncias fossem outras, etc. Mas, sinceramente falando, se as circunstâncias fossem outras, eu não acredito que ele estaria preocupado comigo e sim atrás de uma gatinha com menos de trinta e frequentadora do Clube Curitibano.

Um dia eu lhe disse, espontaneamente:

-Eu pensava que quando me separasse eu iria aprontar, fazer tudo o que eu não fiz na adolescência. Que agora, sem as travas e a timidez da época, madura e inteligente, eu faria diferente e poderia aproveitar tudo o que não aproveitei antes. Aí eu me separei e não fiz nada disso: fico tanto em casa, faço minhas coisas, leio meus livros, igualzinho o que eu fazia antes. Eu não tenho vontade de fazer diferente, não tenho vontade de sair e aprontar. A gente é o que é.

Ele me deu uma resposta sensata qualquer, concordando. Depois nossos horários pararam de coincidir e ele parou de perguntar sobre meu fim de semana. Alguma coisa no meu discurso – a sinceridade, a moralidade embutida? – quebrou a fantasia. Continuamos amigos.

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Fantasia

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O carnaval de Curitiba é isso mesmo que dizem, ou seja, não é. Se não fosse pela internet, não ficaria sabendo das músicas, dos desfiles, de nada. Mas tem as fantasias. Olho os meus amigos fantasiados, os links das melhores fantasias, e começo a imaginar que deve ser muito legal se empenhar a cada ano pra fazer uma coisa diferente, ser um meme encarnado ou aproveitar o seu tipo físico – penso agora no meu amigo Rodrigo, que fica ótimo de Fidel Castro. Começo a me perguntar o que faria, que ia gostar de me arrumar assim, ter amigos animados e sairmos alegres e fantasiados pelas ruas. Aí lembrei da última vez que me preparei com uma roupa especial: uma festa de quinze anos. Minha fantasia foi de mulher lindona. Comprei um vestido de flamenco que me deixava linda (hoje acho que fico pançuda), fiz cabelo no salão, me maquiei e usei salto. Entrei confiante na festa, me apoiando suave e regiamente nos braços do meu então marido, com todos os holofotes imaginários voltados pra mim. Me sentei com toda elegância e catiguria na mesa especial dos parentes, postura reta na pontinha da cadeira. Meia hora depois estava sonhando com chinelo, camisetão e sofá. Não tenho o temperamento certo.

Surto

O rapaz tinha esquizofrenia. Foi para sua terapeuta, apenas para sua terapeuta, que ele contou que estava apaixonado pela professora. Ela havia marcado uma prova. Ele começou a fazer planos: ele iria tão bem, mas tão bem naquela prova, que isso chamaria atenção da professora. Uma vez que ele chamasse atenção da professora, eles poderiam conversar, se aproximar, ela ficaria ciente do que ele sente por ela e eles poderiam viver um romance e serem muito felizes.
Algum tempo depois a família ligou para a psicóloga. O rapaz havia surtado. Ela foi correndo vê-lo, que já havia sido atendido e medicado, tal era seu estado. Ele havia entrado em surto por uma bobagem, por um nada, tal como se crê que são os surtos psicóticos. Ele estava assim depois que havia recebido uma nota baixa em uma prova.
Ela, apenas ela, a terapeuta, entendeu o motivo do surto. Não havia nada de aleatório ali.
Essa história me faz pensar que realmente nada do que é humano me é estranho.

Exílio

Seria ótimo pensar que o que eu estou vivendo agora é uma espécie de exílio. Pra ter sido exilada, em primeiro lugar, um dia eu fui importante. Eu cresci com um sentimento de importância. No meu passado, eu me sentia tão confiante, tão destinada às grandes realizações, eu não era todo mundo. Mais de dez anos depois, eu me pergunto onde tudo foi parar. Pensar que virei à esquerda quando deveria ter seguido em frente é uma explicação muito madura e banal. Estou falando aqui do que eu gostaria, então me deixem. Quero crer que eu ainda sou aquela que eu me sentia antes, que era tudo verdade: forte, especial, capaz de qualquer coisa a que me propusesse, especial. Especial não por ter nascido com algum sobrenome ou dinheiro, coisas que eu realmente não tive, e sim por ser uma pessoa diferente. Alguém com muita contribuição para dar ao mundo. Pra eu brilhar, era apenas uma questão de tempo.
Se nada disso aconteceu, a culpa foi da bruxa má que me soltou um feitiço. Não, melhor: como no Ramayana, minhas atitudes nobres e a necessidade de salvar o equilíbrio do universo me fizeram abrir mão do meu destino, mas só temporariamente. Por um longo período de anos, aceitei me vestir de pessoa comum e parti em busca da sabedoria. Fui para o exílio. Exílios bons, exílios de raiz, são sempre longos, por isso a impressão de que eu fracassei. As pessoas são assim, elas não enxergam a verdade, elas esquecem. A própria palavra exílio já mostra o quão temporária a minha situação é: só pode ir quem um dia esteve, só pode voltar que um dia se foi. Essa que vocês estão vendo é uma versão exilada, eu sou muito mais, eu garanto…
Pena que o meu exílio não é na floresta. Não há uma plaquinha que indique, não há sinal externo. Já estraguei o sapatinho de cristal, usei o manto real como coberta e todas as jóias se foram para comprar comida. Da minha origem, tenho apenas as minhas lembranças. Ou seriam minhas fantasias? Se pudesse, andaria pelas sombras e cantos, evitaria todos os conhecidos. Ando pelas ruas longe das minhas glórias e de mim mesma.

A casa

A casa é como um segredo meu, com a vantagem de que não estou guardando segredo. Ela está lá, para quem quiser ver. Mas aquela rua é isolada, muito ruim para os carros e faz parte de um caminho a pé que só eu faço. Então, a casa é só minha. Na primeira vez que a vi, ela me chamou tanto atenção que fui andando devagar, olhando para ela, e quase torci seriamente o pé. É uma casa de madeira, dessas polonesas que pouco a pouco estão deixando de existir. Ela teria tudo para ser igual às casas vizinhas, que são de tijolo mas claramente um dia foram iguais a ela. O que a casa tem de lindo, de diferente, é o toque hippie que os donos colocaram. A parte do gramado da frente é toda cercadinha, com várias plantas e pedras espalhadas. Recentemente, fizeram um canteiro de flores em forma de coração. Logo atrás dele, há um sofá antigo com vasos de plantas. É tudo feito como eu e você faríamos, dá pra ver que não há um trabalho de um paisagista ali. Por todo muro- daqueles antigos, de concreto – há vasos de plantas. Nas janelas, há bandeirinhas indianas, que parecem de festa junina, com dizeres em sânscrito. No meio das duas grandes janelas da frente, há como se fosse uma bandeira, com um símbolo esquisito, com três bolas grudadas dentro de outro círculo. Por causa dessa bandeira eu me pergunto se ali é alguma espécie de associação. A subida que conduz o carro à garagem também tem vasos de plantas. A entrada principal e da garagem são as mesmas. Nessa entrada, há uma placa em bronze, logo acima da campainha, com uma mensagem, algo como “aqui cultivamos sorrisos”. Há sinos dos ventos, bandeirinhas, mandalas, várias coisas penduradas para captar o movimento. Não sei descrever a quantidade de penduricalhos que tem lá. Todo material usado é pedra, madeira, coisas simples, com história e que tendem ao oriente. Da rua dá para para perceber que no fundo da casa há mais plantas, redes, cadeiras, tudo convidativo. Há também um vira-lata, daqueles amarelos.

 

Sempre torço, quando passo por ali, para ver alguém entrando ou saindo. Eu vejo uma vez ou outra um carro, que ao invés de estacionar na garagem ou passar pelo canteiro de flores, pára meio de lado na grama. É um carro desses grandes (não me peçam mais informações porque carro é tudo igual) e tem um adesivo de Ganesha. A casa me convidava de tal maneira que muitas vezes estive muito perto de apertar a campainha, ou até mesmo de passar pelo portão. Ela me faz pensar que seus donos são um casal hippie de meia idade: ele, de longas barbas brancas e camisa de tie die colorido; ela, com um cabelo longo e acizentado, partido no meio, e saia até os pés. Simpáticos, eles me convidariam para entrar, e conversaríamos como velhos amigos em cima de almofadas coloridas, cheiro de incenso e ao som de Ravi Shankar. Claro que as possibilidades disso ser verdade são mínimas, nulas. Gosto de fantasiar que naquela casa há um portal para outro mundo, com amigos e relações que estão inacessíveis para mim. Que se eu virasse à direita – a casa fica sempre à minha direita quando estou caminhando – poderia começar relações novas, experimentar amigos e coisas que nem imagino, totalmente distantes do que eu tenho hoje. Ela está lá, me convidando todos os dias e todos os dias eu lhe digo que não, que estou feliz no meu atual caminho.