Abismo II

Meu amigo, você está tão tão ferrado.
Você passeia nas margens, caminha, namora a borda. Sente o vento com cheiro de águas profundas e fecha os olhos, se perguntando qual a temperatura lá debaixo. E quando olha, oh meu Deus, o quanto e como olha!
O que torna o humano um ser tão previsível, máquina: a sua incapacidade de ouvir conselhos quando está cheio de desejo ou a vontade de fazer do próprio desejo e seu desastre iminente uma escolha?

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Ainda sobre sermos máquinas

Não supero essa fase Gurdjieff, eu sei.

Aceitar que somos muito determinados, determinados em quase tudo é fácil, é fato. Mas a teoria de Gurd não estabelece essa estatística, ela diz que todos estamos dormindo mesmo. Ou se está ou não se está. Quem não está é outro nível, é Mestre; nós somos tudo Zé. Gugu diz que é essa reserva moral do “quase” que faz com que o homem não consiga lutar com todas as suas forças pra sair desse sono, porque no fundo ele acha que não dorme tanto assim. E é o sono que nos torna máquinas, sem a menor autonomia, vítima de tudo o que nos acontece ou nos determinou no passado.

“Eu errei, mas se pudesse voltar atrás, faria tudo da mesma forma”. Eu falo isso, eu sinto isso. Fiz cagadinhas e cagadas homéricas; algumas eu só descobri depois de um tempo, mas noutras eu me sentia um touro correndo em alta velocidade em direção a uma parede. Eu sabia o que ia acontecer, eu sabia que não era a melhor decisão, mas já tinha pegado velocidade. Dentro do contexto, do que estava acontecendo, do que eu sabia e quem eu era, não havia possibilidade de fazer diferente. Eu fiz o que tinha de ser feito. Sofro as consequencias, lamento minhas decisões, não gosto nem de pensar, mas sei tão profundamente que não poderia ter sido diferente. Pra isso eu precisaria ser diferente e eu só sei ser eu.

Se isso não é ser máquina e determinado, não sei o que mais é.

Uma leitura bem torta de Gurdjieff

“A dança é uma forma de meditação muito poderosa”. Ouvi isso apenas uma vez e concordei, mas na verdade eu nunca havia lido nada a respeito e nem relacionado uma coisa com a outra. Mas a frase ficou martelando no inconsciente e um dia estava sem ter o que fazer e decidi buscar no Google alguma linha de pensamento que relacionasse dança com meditação. Cheguei nas Danças Sagradas de Gurdjieff. Adorei a parte teórica – a dança como uma forma de quebrar padrões de movimento, lidar com o controle e a frustração são coisas que vivi muito desde que me embrenhei nesse caminho. De um lado, começar a dançar desde cedo dá uma riqueza muito grande, mas de outro, começar tarde acaba servindo como uma forma de luta e autoconhecimento que eu também considero bonita. Mas nem tudo é perfeito: a execução das Danças Sagradas, pelo menos nos vídeos que eu vi, me pareceu bem decepcionante. São chatas e quadradas.

 

Uma coisa leva à outra e comecei a me interessar por Gurdjieff e querer ler suas teorias. Gostei muito dele; eu e Gugu (ou Gudigudi?) já somos íntimos. Como toda teoria mística, tem coisas que não tem como comprovar e não fazem sentido (com o que vivemos no dia a dia), aí ou você acredita ou desacredita. Acho que sou meio louca, porque quanto mais duro o autor, mais eu gosto. Os que falam de amor e dão lições de moral me enchem de tédio, gosto dos que dizem que o universo é matemático. Gugu e Krishnamurti jogam nós, as pessoas comum, na lama. Pra Krishnamurti, a gente fica o tempo todo com os pensamentos ao léu, perde o momento do que está vivendo, dispersa toda energia em besteiras e com isso perde a iluminação. Para Gurdjieff, somos máquinas loucas, que fazem tudo no automático e “dormimos” o tempo todo. No fundo, me parece que eles falam da mesma coisa.

 

Agora vem a parte da leitura torta: perguntaram para Gurdjieff sobre o livre arbítrio, se existia. Ele disse que sim e não. Que existe, mas não pra nós. Existe para o homem desenvolvido no pleno uso das suas faculdades, pro sujeito que encontrou a iluminação. Para nós, não. É possível dizer que um trem ou uma máquina de lavar têm livre arbítrio? Porque é isso que nós somos, pura e tão somente máquinas, totalmente determinados pelos nossos condicionamentos. Sem a capacidade de formar um Eu constante que realmente escolha para onde ir, as coisas aparecem e nos atingem, nos levam de um lado ao outro, nos decidem. É uma vida regida pelos acidentes. O homem comum não têm a menor influência sobre o seu destino.

 

Quer dizer que eu não tenho a menor influência sobre o meu destino? Nada, nadinha de nada? Tudo que me acontece vai me acontecer e pronto?

 

Então tá liberado relaxar e aproveitar a viagem.

Curtas sobre menos, muito menos

Não adianta ter os lindos cabelos sedosos, olhos azuis, cintura boa de pegar e até mesmo ter uma sintonia incrível na cama. Você não é irresistível. É, no máximo… uma preferência? Porque existem outros cabelos, olhos e cinturas, que são até de outras cores e formatos, porque a variedade também é atraente. O elemento que torna uma pessoa sexualmente irresistível não está no físico, e sim no coração. Somente a paixão torna uma pessoa única. Sem paixão, basta dizer tchau. O problema é ter culhões pra ouvir do outro lado: tchau.

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Tentar forçar que o outro nos elogie é sempre ruim, mas tem um método que é particularmente muito ruim: o de se desmerecer. Quando a outra pessoa saca, ele é tão chato e óbvio que não dá vontade de elogiar. O silêncio constrangido grita: Carente! Mas às vezes o outro não saca e acaba comprando a ideia, e ao invés de ganhar um elogio a pessoa ganha um complexo novo. Assim: “Eu sempre uso o cabelo comprido porque acho as minhas orelhas feias, elas são meio de abano”. “Sabe que agora que você falou…”

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Eu continuo, e acho cada vez mais, que a vida é leela. Um lacaniano diria: o ser humano está sempre atrás do gozo. O problema é que algumas formas de gozo nos parecem muito bizarras, incompreensíveis. Há gozo no aparente sofrimento, na manutenção de situações difíceis. Quando a pessoa não quer, quando a situação não lhe dá algum tipo de ganho secundário (pra usar um termo psi), ela sai dali o mais rápido que pode. Se a vida, em leela, é um grande parque de diversões, o que fazer se tem quem goste de ficar o tempo todo no trem fantasma.

Descida

Eu entendo o sentimento dos crentes chatos que ficam falando de Jesus. Entendo a lógica dos vegetarianos que enchem o saco dos que comem carne, dos não fumantes que não deixam a pessoa fumar em paz. Sei porque os não-tatuados falam do envelhecimento, dos futuros empregos e as mudanças de vida. Os que recomendam concursos públicos, carro ao invés de bicicleta, cortar o ovo e a manteiga. Eu mesma tenho que morder a língua e não sair por aí falando da importância do alongamento. Pode parecer exagero, mas é a mesma, a mesmíssima lógica de quem é contra as drogas ou quer que a amiga não se envolva com aquele cafa que está lhe sugando até os ossos. É duro admitir que nem todos querem as decisões sensatas. Nem todos querem os dias tranquilos, a conta bancária equilibrada e o colesterol baixo. Claro que em alguns casos a decisão não é a mais sensata, é apenas a nossa maneira de ver a vida. Projetamos nossos valores e achamos que são a medida de todas as coisas; quanto mais a pessoa está convencida de que sua maneira é a certa, mais quererá se meter no cu (agora é pra você pensar naqueles que são contra gays) dos outros. Mas tem outros casos – como o da droga ou da amiga – em que a pessoa toma claramente o caminho mais destrutivo. Não é por falta de inteligência ou reconhecer que os conselhos sensatos são sensatos. É a pulsão de morte freudiana. A pessoa quer viver aquilo. Ela quer se rasgar, sofrer, quer conhecer seus limites, chegar perto da destruição. Ela sabe que está numa descida e ainda corre pra ganhar velocidade. Nada pode detê-la. Não há lei, polícia ou conselho que consiga evitar impedir a pessoa determinada a abraçar o desastre. É um direito inalienável. O inferno existe e está aí pra isso. Ela quer, ela vai, ela pode. Aos outros só resta esperar e torcer.

Pessoas Não

Li em algum livro do Osho ele dizer que existem pessoas que são Sim e outras que são Não. Os Sim são os continuadores, os que conservam as tradições. Os Não são os destruidores, os rebeldes. Quando li, me achei incontestavelmente uma pessoa Sim. Eu (na época), a boa filha, boa aluna, boa esposa, boa qualquer coisa que implique em disciplina. Alias, as pessoas me descrevem tanto usando essa palavra – disciplinada – que me pego desenvolvendo complexos relativos a isso. Mas aí é outro tema.
Aí tem uma história num livro do Paulo Coelho, deve ter sido no Diário de um Mago ou no Alquimista, porque não acompanhei muito a carreira dele depois disso, que o personagem quando precisava descobrir alguma coisa usava duas pedras para perguntar, Urim e Tumin. Uma significava Sim e outra Não. Não sei qual era qual. Sei que eu e meu irmão André éramos considerados Urim e Tumin. Pra qualquer questão, fosse quem gosta de doce de leite, ou a opinião sobre o assunto do momento, nós tínhamos visões diferentes, partíamos de pontos de argumentação opostos. Meu irmão, na época, o cara legal que começou uma faculdade, trancou, trabalhou um par em coisas diferentes, fez outra…
Apesar de não fazer nada pra isso, de ser uma pessoa que gosta de acordar cedo, não come carne, não tem tatuagens e todos os sinais exteriores de rebeldia, hoje sei que sou uma pessoa Não. Meu irmão, o oposto a mim, está fazendo seu pós-doc e vai seguir a segura carreira de professor. Eu continuo sem saber para onde vou. Achei que sabia aos vinte, que saberia aos trinta, e agora espero saber aos quarenta. Porque é foda. É legal mas também é foda.
Eu invejava o Farruquito, por ter nascido numa família flamenca e hoje ser um grande bailaor flamenco, representante de uma linhagem. Nasceu no meio daquilo, faz parte dele; e eu, aqui tentando aprender a entrar numa bulería. Mas, quer saber? Certeza que se eu tivesse nascido numa família flamenca, igual a do Farruquito, eu teria virado dentista.

Um dia o Ale me mandou este vídeo. Fiquei muito emocionada quando recebi, é muito eu:

As duas caixas

Eu estava sendo atendida por uma caixa muito velha, de cabelo todo branco, preso, o rosto muito enrugado. Sábado, quatro da tarde e uma mulher daquelas não está em casa vendo TV. Embalando as compras estava um velho, que também deveria poder estar em casa vendo TV. No caixa atrás dela, uma mulher com uns quarenta anos. Esta caixa, a de quarenta anos, estava passando compras de um cliente e já havia puxado a portinha que indicava que o caixa estava fechado. Aí surge do nada uma moça, também com o uniforme do supermercado, abre a portinha e passa correndo. Enquanto a moça está atravessando a portinha, a mulher de quarenta solta uma expressão de indignação. Depois, começa a reclamar pra caixa velhinha e pra mim (quem mandou fazer contato visual): aquela mocinha era sempre assim, vivia fazendo dessas, passava voando, não pedia licença, se achava melhor do que os outros e outra apenas outra caixa, de onde ela tinha tirado que podia fazer dessas coisas, etc. Eu pensei, cá com os meus botões, em quantas vezes passei desabaladamente também, sem pedir licença apenas pela ingenuidade de achar que não precisa pedir licença e por ser naturalmente agitada quando mocinha. Quantas antipatias gratuitas no meu passado, quem sabe, podem ser explicadas por isso.
A minha caixa, a velhinha, não ligou pras queixas. Não falou mal da moça, desconversou, sorriu, falou de que sorte a colega já estar de saída. Olhou para as minhas compras e do seguinte na fila e calculou que só nós dois e chegaria quatro e meia, hora dela ir embora. Que bom, ela estava quase indo embora. A outra, não encontrando uma colega pra reclamar junto, ficou quieta.
Às vezes me parece que reclamar virou esporte olímpico e só eu não estou sabendo. Qualquer unha quebrada e o universo que aguente o mau humor. Quando a gente quer dar um feedback pra pessoa, nunca consegue, ninguém nunca sabe o que ela está passando. Você pode ter passado pela mesma situação um dia, pode estar passando por um período foda hoje, mas o outro sempre terá desculpas – “o meu caso é pior”, “pra você é fácil dizer”, “mas é que você é (insira aqui um adjetivo) e eu não”. A verdade verdadeira, como no caso dessas duas caixas, é que há uma margem de escolha sobre ao que dar importância.

Carnaval, concerteza e amor

Carnaval, assim a Madonna, é dessas coisas que eu fui criada para não gostar. E meu pai querer me obrigar a pular atrás do trio elétrico quando eu era criança não ajudou em nada… Passei alguns anos fugindo dele e torcendo para as férias escolares acabarem antes do carnaval. Os anos se passaram a deixei de ter essa preocupação, e morar em Curitiba torna para mim o carnaval apenas um feriado grande, com rumores de coisas que acontecem em outras cidades. Aqui, pra mim, não chega nem uma bolinha de confete. 

No litoral tem carnaval. E o meu amigo Ricardo é de lá. Ele postou algumas fotos no FB dele, mostrando a preparação, a fantasia elaborada dele e dos amigos, as poses, as figuras, a festa toda que fizeram. E me peguei com vontade de estar lá com ele, de também vestir uma fantasia, andar por aí, tirar um monte de fotos. Fiquei com vontade de também fazer parte daquela família tão calorosa, de viajar de carro para vê-los, de ficar hospedada, de voltar depois da festa. Fiquei com vontade de entrar no universo dele. 

Aí lembrei de outra coisa, que eu quase transformei em post porque me causa um certo incômodo que não sei direito como expressar. Também no meu FB compartilha-se muito mensagens sobre o quão difícil é encontrar alguém que saiba escrever direito, sobre candidatos que são eliminados ao escreverem concerteza ou quizer. Também são erros que me doem a vista quando vejo, eu entendo exatamente o que tais mensagens querem dizer. Só que quando falamos desses erros, estamos falando de erros básicos de escrita, e quando falamos de erros básicos de escrita, geralmente estamos falando de pessoas que tiveram uma formação escolar ruim. Escola, gente, apenas escola. Aquele lugar que nos passa um monte de informações, quase todas inúteis. Escrever certo ou errado não me informa nada sobre o caráter de alguém, sobre sua doçura, sobre sua capacidade de amar, sobre coisas essenciais num relacionamento. Eu jogo tudo isso no lixo quando digo que para chegar perto de mim, o primeiro requisito é ter uma linguagem escrita impecável. Encontro muita gente que escreve bem e muito menos gente com quem tenho vontade de me relacionar. Vocês têm certeza que escrever direito é tão importante assim?

Também não sei se conseguiria ficar com quem escreve concerteza. Mas eu vejo isso como uma forma de fracasso. Isso me mostra o quanto algo sem importância consegue adquirir uma importância que não deveria. Ligar para bobagens como essas apenas exibe a minha incapacidade de lidar com as diferenças, a minha incapacidade de negociar, o meu elitismo cultural. Porque eu sei que o que eu quero, em essência, nada tem a ver com isso. Tem a ver com o Ricardo, de quem eu tanto gosto, pulando carnaval. O meu coração precisa se sentir quentinho. E quando alguém de quem eu gosto me mostra um universo diferente, eu me pego com vontade de estar lá, de misturar o meu universo com o dele. Amar me tira de mim mesma, me leva a conhecer algo que sozinha eu jamais alcançaria.

Corredor 10, porta 14

Essa eu achei no Facebook, faz tempo. E achei meio irritante ver que havia discussões nos comentários, das pessoas quererem ter a melhor explicação sobre o que é o Corredor 10 é. Não é nada, é tudo, vai de acordo com a subjetividade de cada um. Não acredito que haja uma resposta fechada. É como escrever prosa para explicar poesia – você está matando alguma coisa quando faz isso.

A grande obra ainda não produzida

Sei da importância e tudo mais, mas não consigo gostar de Picasso. Talvez seja um dos pintores que eu tenha pesquisado mais do que outros justamente porque tentei entender e, quem sabe, produzir em mim um gosto pela obra que nunca me surgiu espontaneamente. Nessas pesquisas descobri que, ao contrário do que muitos pensam, ele tinha pleno domínio das técnicas de desenho e pintura. O leigo pode ver aqueles desenhos de perspectivas estranhas e achar que qualquer um faz, que desenhar não importava e sim a ideia. Quando mais estudo, mais me convenço de que nunca é assim. Seja no jazz, na escrita, na pintura, na escultura, pra inovar é preciso um grande domínio sobre a técnica tradicional. Só essa intimidade permite desconstruir.
Me identifiquei como escritora (o velho problema de sempre: que dizer quando me perguntam o que faço) e minha amiga me disse que o marido dela também escreve muito bem. Que ele era um grande contador de histórias, que tinha a imaginação muito rica e tal. Não tenho porque duvidar – um casal de advogados bem sucedidos e inteligentes, se ela disse que seu marido escreve, certamente escreve bem mesmo. Ela me disse que ele comprou um livro ótimo, que ela podia me emprestar, com todas as técnicas de escrita, como chegar a certas emoções num romance, etc. Não pude aceitar porque o livro está em inglês. Pensei: é claro que algum esperto já tinha que ter feito um livro desses, dando todos os instrumentos, todas as dicas para ser um grande escritor.
Somos muitos. Muitos os que sabemos fazer. Muitos que somos estimulados pelos nossos amigos, que temos meia dúzia de fãs caseiros. Já tem até livro. Potencialmente, somos todos como Picasso. Se eu fosse numa cartomante, quem sabe ela me dissesse que há, aqui, uma futura grande escritora. Está tudo na mão e é justamente isso o que dá medo, esse o problema. Podemos. Mas também não podemos. Temos que descobrir sobre o que escrever, e depois sentar para escrever até ficar bom. Em algum momento, é preciso se decidir e levar à sério esse potencial. Fazer de si um projeto. Passar meses com a bunda na cadeira, escrever, reler, reescrever até o infinito. E mesmo assim… Ao tentar de verdade, existe a terrível possibilidade de descobrir que não tão bons, que a tarefa é muito mais difícil e assustadora do que parecia a princípio.
É isso o que tenho feito, tenho escrito. Com este blog pouco frequentado, com o outro blog pouco frequentado, com umas histórias que poucos amigos leram. Estou me dando a tentativa de presente. Ufa, eu não sabia que tentar requeria tanta convicção! Um brinde aos que tentam, aos que se arriscam. Essa é a única parte que está sob nosso controle, o único e grande passo a ser dado: a tentativa.

Resposta. Ou melhor, não importa

Tenho me torturado faz tempo com a pergunta sobre ter talento. O que é o talento, o que é esse mistério que torna a mesma coisa diferente de uma maneira definitiva, que faz com que um seja comum e outro, do mesmo tema e material, ser inesquecível? Seria o talento inato, construído, melhorável, conquistável? É possível ter mais de um talento, amar sem ter talento, ter talento naquilo que não é a nossa vocação? Devemos fazer aquilo em que somos bons ou aquilo que amamos – e se o amor não vier acompanhado de talento? Qual a fronteira entre ser apenas bom ou ter talento? Posso formular perguntas desse tipo ad eternum, e é o que tenho feito. Meu cérebro é excelente perguntador, pena que não consegue resolver um décimo. Pessoa insegura que sou, temi muito pela minha falta de talento. Temi pela dança, por ter começado tarde. Há um mundo de ritmos, movimentos e expressões na minha frente. É a sensação de começar uma corrida quando seus companheiros já estão vinte voltas na sua frente. Temi por gostar de escrever e vocês, que me lêem, serem poucos e não me renderem nenhuma grana. Já pensei muitas vezes em postar aqui – “olha, vocês não me pagam e eu vou embora. Se tiver alguém aí que pode me contratar, faça logo senão não tem mais!” E não fiz porque sei que um amigo ou outro viria me pedir para não interromper o blog, que me amam e tal. Mas reconhecimento e dinheiro que é bom, que fazer. Não é assim que se conquista leitores, com base na chantagem emocional.

Aí você fica mal. Os dias de chuva te deprimem, os dias ensolarados são insuficientes e os problemas alheios batem no peito com tanta força como se fossem nossos. O noticiário se torna insuportável, os funerais de novela também, nos filmes repetidos você sai da sala no momento dramático pra só voltar quando tudo ficou bem de novo. Eu clamo – uma boa notícia, por favor, uma boa notícia! e isso tem o mesmo sucesso do sábio que percorria o mundo com uma lanterna à procura de um bom homem. Quando tudo parece uma merda, apenas duas coisas são capazes de impedir que eu me afunde: as aulas de flamenco e escrever. Então, já pouco me importa que eu nunca vá me tornar uma grande bailaora, que o meu tacón direito não soe e eu não consiga bater palmas sincopadas. Já não importa que eu não escreva nada permanente, nada que se destaque, nada que convença alguém a me pagar. Eu simplesmente faço. Minha existência é nula se não o faço. A conta é simples: se faço me sinto bem, se não faço morro. Se me dizem hoje que não tenho o menor talento para ambas as coisas, continuarei igual. Mais triste, mas continuarei. Que se dane. Quem sabe um dia eu acerto, quem sabe um dia eu fique boa, quem sabe um dia me paguem. Senão, continuo pagando eu.

Vida cagada

O que eu guardei da época que estudei Feng Shui, muito mais do que saber onde colocar um espelho ou uma cama, foi a noção de que a vida tem ciclos, altos e baixos. A questão é saber onde estamos e como agir. Se você está num ciclo de expansão, expanda. Crie, aumente, invista, cresça, usufrua. Se você está num ciclo de retração, o melhor é ficar encapsulado, como as bactérias – elas são capazes de se manter inativas durante séculos, até o meio se tornar favorável de novo. Parece óbvio mas não é. Já dei muito murro em ponta de faca, por ansiedade, por achar que as coisas tinham que ser do meu jeito e quando eu queria. Nadei muito contra a maré e sei que cansa. Às vezes, quando a sorte muda, podemos já ter gastado toda energia no período errado, o que é uma dupla cagada.
Mas são ciclos, né? Tem nego que nasce em berço de ouro em castelo europeu, enquanto outros tiveram a vida construída em cima de cemitério indígena. Mas mesmo assim, mesmo assim, tem a questão de como se administra a sorte que tem. Não me venha com discurso de coitadinho. Mesmo quando tudo está contra, sempre existe uma escolha menos desvantajosa. Conheci algumas pessoas com a vida muito cagada, que tinham problema com os pais, gravidez com sexo casual, obesidade e demissão, tudo ao mesmo tempo. Aí você conhece a pessoa, conversa com a pessoa, olha para a vida da pessoa com uma lente bem poderosa e conclui: fez por onde. Ninguém tem ciclo ruim a vida inteira em todos os setores, pode arranjar outra desculpa. A vida cagada, toda cagada, é sempre culpa do dono.

Tragédia grega

Tenho minhas dúvidas sobre a existência de um Deus, e mesmo que ele exista, tenho certeza que não perde tempo controlando cada folha que cai no chão. Acredito que aqui e acolá temos a chance de mudar de vida – uma decisão minha pode fazer a diferença entre entrar para o circo ou trabalhar num banco, de ter uma vida longa ou morrer numa passeata. Ao mesmo tempo, nenhuma das minhas decisões poderia ter me tornado esposa do George Clooney. As escolhas são feitas dentro de uma esfera limitada de ação, como se fosse um círculo imaginário com pouco mais de um metro de diâmetro. Se eu quiser terminar a minha vida no Afeganistão, terei que ir muitos metros para o Oriente, tomar muitas pequenas decisões na mesma direção, tantas que talvez seja impossível. Já se eu morasse ou nascesse no Tajiquistão, seria muito mais fácil. Acredito que a vida se faz de pequenas decisões pequenas e idiossincráticas, quase sempre previsíveis. Decisões, muitas decisões. Talvez justamente por acreditar em decisões, o sentimento que tive em alguns momentos da vida – o de ser como um personagem de uma Tragédia Grega – me parece assustador.
Há um ditado grego que diz “o destino conduz a quem consente. A quem não consente, ele arrasta”. Por mais que eu não acredite em destino, tenho que reconhecer que em alguns momentos me sinto conduzida. As coisas podem acontecer em momentos exatos, ter uma série de coincidências, sequencias de acontecimentos totalmente improváveis. Pior, acontecer no dia preciso. Se acontecesse um dia antes, ou um dia depois, a sua atitude seria diferente. Quando as coisas acontecem assim, a gente vira à direita, à esquerda, à direita de novo, anda alguns metros para frente, e quando se dá conta está onde nunca pensou que estaria. Ou nunca desejou estar. Como se fôssemos um personagem duma tragédia grega – a quem não consente o destino arrasta, esqueceu? Às vezes o destino da pessoa é comer a própria mãe. O pior de tudo é que, nas tragédias gregas, é quanto mais a gente foge do destino, mais o cumpre.

Não é você, sou eu

Não acredito que escolhas e opiniões são baseadas em juízos perfeitamente racionais. No geral, não são. Se o são, é só para temas tão abstratos e longe do cotidiano quanto os spins das partículas quanta. De resto, o que nos afeta, é primeiro formado pelas experiências, a criação, a rotina, enfim, o que nos parece mais confortável. Primeiro, as idéias se afofam com o que somos; depois é que vem a busca pela justificativa moral, o floreio, os autores e estudos científicos que comprovam que estamos certos. Igualzinho quando estamos doentes e primeiro achamos que estamos deprimidos, ou que o dia foi ruim, pra só depois nos darmos conta que o mal começou no corpo. Primeiro tem a sensação e depois a mente cria uma historinha em cima – é pra isso que as mentes servem. Dito isso, sei que tenho umas premissas comigo do que eu faço ou tolero. Outros fazem e eu não, outros podem e eu não. Algumas parecem bem razoáveis, outras covardes. Sei que não são más em princípio, apenas que são más para mim. Do mesmo modo, minhas escolhas são más para outros. Que bom que existe a diversidade. Essa é uma pequena lista do que EU NÃO:

* Abraço causas: acho lindo, nobre e muito necessário. Mas eu não consigo. Tenho minhas opiniões, procuro ampliar meus horizontes de maneira a entender a espécie humana como uma só, e que independente de gênero, nacionalidade, credo ou cor, todos têm direito à felicidade. Só que eu não consigo agir no sentido de escolher um tema para repetir e convencer os outros. Eu me sinto chata, fico enjoada de mim mesma. Pior: tenho um certo espírito do contra e isso faz com que eu não consiga aderir às agendas dos movimentos. Acho importante todos irem numa direção, para reforçar, entendo a dinâmica. Mas eu não vou, não sou eu.

* Me envolvo em argumentações furiosas: aí são dois motivos. O primeiro é porque não acredito em discussões furiosas. Quando se atinge o nível de fúria, são dois bichos orgulhosos se degladiando. Se o importante é ganhar e esmagar o adversário, ninguém se deixará convencer de nada. Em segundo lugar, sou tranquila demais para manter um debate. Gosto de adrenalina, mas não dessa. Não sou assim no meu dia a dia. Nas poucas vezes que sou, é porque saí do meu normal. Tenho um acesso de raiva e em alguns instantes ele passa. Pra se manter numa discussão furiosa é preciso manter aquela energia. Vejo que tem quem se sinta mais vivo quando discute; em mim, é uma energia que faz mal.

* Fico ao lado de pessoas instáveis: instabilidade emocional não é falha de caráter. A pessoa pode ter um coração bom, ser confiável, carinhosa, boa amiga e ter imensas qualidades sendo instável. Um dia ou outro, em anos, é possível que essa pessoa não consiga manter sua civilidade e lhe fale coisas duras, coisas guardadas, pra logo depois se arrepender e querer voltar às boas. É uma agressão de momento, igual aqueles cães que quase matam os donos num acesso de loucura e depois estão abanando o rabo pra ele. Pra mim não vai. Talvez seja algo de criação; há um limite de respeito que eu jamais ultrapasso, às vezes nem com inimigos. Prefiro que respirem, pensem bem, se acalmem. Quando me dizem algo, eu levo à sério. Comigo não cola querer voltar atrás depois.

* Alimento pessimismos: eu mesma já fui depressiva e via na obrigação pela felicidade algo nocivo. Eu gostava de papos profundos, e achava que uma amizade só era amizade quando um conhecia o pior lado do outro. Lutei muito para sair desse estado, e de certa forma ainda luto. Hoje gosto de ficar feliz e de amigos que me façam rir. Eu não aguento muita queixa ao meu lado, não quero que aumentem a minha carga. Eu sei consolar e apoiar, mas espero que meus amigos usem esse serviço com a mesma parcimônia de quem aperta o alarme de incêndio. Falando em português claro e cruel: eu não sou amiga para todas as horas. Quando em dificuldades, eu faço o meu possível antes de pedir arrego; dos meus amigos, espero a mesma coisa.

Encontro no além

Não sei porque insistiam tanto que eu seria médium. Nunca viajei por aí enquanto estava dormindo, nem vi espíritos, não falei com parentes mortos e muito menos previ acontecimentos. Não que eu um dia não tenha desejado tudo isso. Hoje acho divertido dizer para os que insistem que eu deveria desenvolver minha pretensa mediunidade que o corpo é meu e não empresto pra ninguém – se eles não usaram direito enquanto estavam vivos, por que eu tenho que ceder o meu? Por que o meu tempo dentro do meu corpo é menos importante do que o tempo deles? Que os tais espíritos encarnem, fabriquem o seu próprio corpo e o aproveitem bem, pra não ter que emprestar o dos outros no futuro. O único intercâmbio com o além que eu gostaria de ter, até o momento, seria encontrar o único amigo que perdi para a morte: o João. Só que se no além as pessoas continuam sendo o que é, encontrar com o João seria mais ou menos assim:

Eu entro numa ombrada, por uma daquelas portas duplas de filmes de faroeste. Dentro, um bar com mesas redondas de madeira e cadeiras combinando. Não reparo nos outros, nem ao menos sei dizer que existem outros. Como quem sabe a que veio, me dirijo ao fundo do salão e lá está o João sentado, muito à vontade. Ele sorri ao me ver, nos abraçamos e ele me oferece uma cadeira. Estou eufórica, digo que estou feliz em vê-lo, pergunto como ele está, ele diz que está bem, e depois desse curto momento percebo que estou falando com um amigo que já morreu, e todas as implicações que aquele encontro tem. Mil perguntas surgem na minha cabeça: quero saber como é a vida após a morte, se somos classificados de alguma forma, se existem ocupações no outro lado, se os que morreram participam de alguma maneira do mundo dos vivos… Ele olha no fundo dos meus olhos e diz:
– Não seja boba, não temos muito tempo. Pergunte algo realmente importante.

Ninguém nunca me conheceu e nem nunca me conhecerá como o João. Ele conhece as mesmas palavras vazias que eu sobre mundos, planetas e evoluções- estudamos as mesmas teorias, deixamos de lado as mesmas teorias. Se ele me dissesse, o que eu poderia realmente entender? Questões que até um segundo atrás pareciam importantes foram caindo uma a uma, suavemente, como areia numa ampulheta. É o mesmo amigo que me viu em tantas crises, e no espaço de alguns anos quase todas sumiram da minha memória. Ele que viveu pouco mais do que eu vivi até hoje; tempo o suficiente pra saber o quão difícil é estar vivo, da nossa ignorância pra tudo, do desejo e tentativas sempre às cegas. Eu era tão jovem quando convivíamos, e quando somos muito jovens cada ano faz muita diferença. Não tenho mais o mesmo olhar, não tenho mais as mesmas dúvidas; mesmo que ele não me vigie lá do alto, mesmo que não tenha lido um arquivo com o meu nome, basta olhar para saber. A própria presença dele já responde mais do que eu poderia desejar. De repente a pergunta surge clara, a única possível, a essência do que me atormenta a cada passo:

– João, tenho escolhido bem?

Ele sorri. Será que a pergunta foi tão boba, será que sou tão previsível?

– Você está feliz, não está?

– Muito, – respondo impulsivamente. E depois de pensar um pouco, respondo para mim mesma – muito.

– Então eu não há do que se arrepender.

Ajuda

– O que eu gostaria é que alguém me falasse – você tem dificuldade em tal coisa e precisa melhorar tal coisa. Aí nós trabalharíamos em cima do que eu preciso.

Quando ele me falou isso, fiquei sem resposta, porque as duas coisas que eu pensei em dizer – “quem dera!” e “ninguém vai fazer isso por você” – dariam a impressão de que eu estava falando mal da escola, e não é nada disso. A questão é muito mais profunda. Estávamos falando de flamenco, mas poderíamos estar falando de quase tudo na vida. Ninguém nunca fará de nós um projeto; não há quem possa dizer qual a direção segura a seguir, qual o próximo passo a dar. Os que acreditam que alguém tem esse poder sempre se arrependem. Cada um se vira com o que tem e melhora como pode. É por isso que é tão difícil, é por isso que tem tanto valor.