Possessão

Quando M me dizia que seu segundo nome era Ciúme e seu terceiro nome era Desconfiança, eu não sabia que viveria um inferno por causa disso nos próximos anos, quando nos tornariamos namorados. Mas na verdade nem é necessário namorar alguém pra sofrer com essas características. Amizades podem ter o mesmo olhar perseguidor, o mesmo jeito orgulhoso de declarar que tem muito ciúme dos amigos. De outra forma – meus amigos precisam andar na linha! Além de todo o controle sobre olhares, a memória sobre as mínimas frases e a observação das minúcias, toda pessoa com esse perfil submete os outros a testes. Testes pra ver se você ama, testes pra saber se é fiel, testes pra saber se é confiável. Na cabeça dela, esses testes são legítimos, são feitos pra saber se estão lidando com alguém que mereça a sua confiança. Na prática, esses testes não param nunca – há sempre algo a mais para provar, cada situação é uma situação nova. Testar pode dar certo, mas também pode fazer a pessoa sair correndo. O outro pode se cansar de apresentar testemunhas, responder a mesma questão em ocasiões diferentes ou à queima roupa ou mostrar provas materiais pra ser acreditado. Mesmo quando age da maneira mais perfeita, mais idônea, sempre resta a possibilidade de que aquilo foi apenas uma atuação, com o objetivo de iludir o desconfiado. Ser assim possessivo exige tempo, energia e uma certa dose de loucura.
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Testes

Eu já falei várias vezes – meio brincando, meio sério – que só acredito na declaração de amor de um homem se ela vier acompanhada de alianças. Porque os homens se acham muito sinceros por não dizerem com todas as letras que nos amam; mas sua maneira omitir e nos deixar fazer todos os planos não deixa de ser uma forma de mentir. Mesmo dos amigos mais fiéis pode vir uma traição, então a gente fica calejada. Começa a ver todos como potencialmente nocivos e se sente madura por isso. Passa a jogar o jogo do perguntar várias vezes a mesma coisa,pra ver se a versão muda. Ou só se convence quando outro confirma – mas não um outro qualquer, tem que ser um outro de fora. Como se fosse muito sutil nunca dar crédito à primeira versão. Mas isso só se aplica com as coisas boas, porque acreditar na sujeira é rapidinho.

O problema é que isso tudo é uma neurose nossa; o outro não tem nada a ver com isso, ele não estava lá. Desconfiança enche o saco e quem pode vai embora. Com toda razão. Penso sempre numa historinha do Osho, que é mais ou menos assim:

Um homem ficou sabendo que uma das pedras de uma imensa praia era a pedra filosofal. Pra saber qual é, bastaria pegá-la na mão – ela estaria fria. O problema é que a praia era coberta de pedras. Então, para não repetir as pedras, ele pegava cada pedra, trocava de mão para sentir a temperatura e depois a jogava no mar. Ele ia todos os dias na praia e repetiu esse gesto durante dias, meses, anos. Até que um dia ele pegou a pedra fria. Mas o gesto estava tão automatizado, que quando ele se deu conta, já havia trocado de mão e atirado a pedra filosofal no mar…