Esfriamento

Eu conheço a Suzana há um ano e ela conheceu meu blog há poucos meses. Eu comentava que tinha blog e ela não tinha lá muita curiosidade, até que um dia entrou e gostou. Ela é leitora da Marta Medeiros, que escreve textos curtos e até eu sei que vende muito, sempre se esbarra com alguma coisa dela por aí. “É rápido, é fácil de ler, faz muito sucesso. Eu acho que o que você escreve tem tudo pra dar certo como livro”, a Suzana me diz. Há dias ela chegou com uma novidade, o caso de mulher de um amigo que publicou um romance com uma editora pequena, bancou metade da publicação. “Junta os textos, faz uma coletânea, escreve um romance! Eu juro que eu compro”.

Suspiro.

Eu sei que em algum lugar em mim, isso é tudo o que eu quero. É nessa direção que eu tenho feito as coisas, é pra lá que minhas preces vão. Sei também que eu não tomei nenhuma decisão no sentido de mudar de planos. Só deixei tudo meio de lado. Mais do que gostaria, na verdade. Vou lá, dou uma chacoalhada de vez em quando e volto pra lida. Tenho andado tão ocupada, tão cansada. Nada demais, nada que me faça sofrer, muito pelo contrário – estou aprendendo coisas novas, resolvendo problemas, abrindo trilhas. Tudo isso tem me tomado tempo e energia. Descobri que até pra ter certas ambições as duas coisas são importantes. “Só mais um pouquinho, só mais um pouquinho”, é o que tenho dito a mim mesma.

A Érica me marcou nesse vídeo lindo do Bolero de Ravel e ele me pareceu exatamente o que tenho vivido, o que são certas fases. O Bolero é essa música conhecida e marcante. Ela é repetitiva, envolvente, cresce com o ouvinte. A coreografia segue a mesma linha. Vejo essas imagens e penso no grau de concentração e força que ela exige do seu solista. Pra começar, nos primeiros minutos a panturrilha já deve ficar em chamas… Eu me coloco no lugar dele e imagino o desafio se manter concentrado todo esse tempo, como deve ser difícil até guardar a coreografia. Ele precisa manter o mesmo nível de energia por mais de dez minutos – primeiro, de forma mais contida e controlada, depois com saltos, equilíbrios e movimentos que exigem grande limpeza. A música se repete, a coreografia se repete, e como não se entediar, como dançar com energia renovada, como quem a cada momento diz algo pela primeira vez ou totalmente diferente.


Foco, energia, constância. É o que tenho precisado.