Enquanto os meus olhos vão à procura

Imagine a sensação de aparecer na sua vila, no seu bairro, um assassino tão cruel que as pessoas chegam a duvidar que seja um ser humano. Não é pra menos – além de ser extremamente grande e forte, o sujeito ainda faz questão de colecionar os dedos das pessoas que matou e usar todos unidos num cordão fedorento em volta do pescoço. Ele estaria em busca de um último dedo muito específico para tornar sua fama ainda mais amedrontadora: iria matar sua própria mãe. Com a possibilidade de encontrar esse sujeito na rua e morrer por pura bobagem, aí sim as pessoas praticaram isolamento social e não saíam de casa pra nada. Menos um forasteiro, um peregrino. Ele continuou seu caminho como se nada soubesse, e quando ouviu a voz retumbante do assassino que o mandava parar, respondeu:

-Eu já parei há muito tempo, Angulimala, você que ainda não parou.

Essa é uma história budista famosa e você a encontra facilmente no Google. O assassino veio ferozmente até Buda, que lhe falou de compaixão e perdão, até que Angulimala se converteu. Depois, já monge, Angulimala quase apanhou até a morte, por familiares de suas vítimas, e não revidou. Mas eu quis retirar a parte mítica da história porque eu acho que o que converteu Angulimala não foi nada do que Buda falou, e os budistas não gostam de vê-lo como uma espécie de deus com poderes. Se não foi pelo texto ou pela mágica, o que Buda fez de especial com Angulimala foi olhá-lo. Ele foi o único capaz de ver o ser-humano por debaixo do colar de dedos e se conectar com ele. Essa história me remete a outra, bem mundana, que Gilvan Moura, da Beatles School, contou em um dos seus vídeos (impossível saber qual, foi uma citação rápida). Numa discussão qualquer entre Paul McCartney e John Lennon, as coisas estavam cada vez mais tensas, até que John tirou os óculos e olhou bem nos olhos de Paul e disse: “Sou eu, John”. John, aquele que te conhece desde a adolescência, que sabe tudo a teu respeito e de quem você sabe tudo a respeito, frequentamos um a a casa do outro, brindamos juntos, sofremos juntos. Paul entendeu e se acalmou. Há, no olhar, uma capacidade mágica de trazer de volta, de nos aterrar.

Eu li uma vez – novamente citação sem referência, ter muita cultura inútil é assim – que na cadeia o criminoso mais temido era aquele que havia matado a facadas ou estrangulamento. Numa escala de mortes, até mesmo aquele que desvia merenda escolar ou recursos pra saúde é uma espécie de assassino. Existe quem contrate matador ou deixe o carro da vítima sem freio, mas de todas formas de matar, até mesmo se pensarmos em empurrar uma pessoa da escada ou dar um tiro, nenhuma exige tanto brio quanto ficar na distância de um braço; chegar perto, compartilhar do mesmo ar, sentir o atrito com o corpo, poucos conseguem. Mas acho que o que há de pior nessas mortes é enfrentar o olhar da vítima. Ler nos olhos dela a decepção, surpresa ou seja lá o que ela sentiu, e ler também refletido no olhar dela o seu próprio gesto e se encarar: ASSASSINO. Mesmo que segundos depois aquela consciência deixe de existir, alguém na terra carimbou com o olhar uma verdade que nunca poderá ser esquecida. Acho que ninguém consegue ser mais o mesmo depois de romper o tabu de tirar uma vida.

Nos meus maiores momentos de solidão, a música que mais me tocava era London London, do Caetano. Eu nunca tive vontade de morar fora e sempre tive a impressão de que quem sonha com isso viaja, na sua imaginação, direto para a casa de cerquinha branca e ruas tranquilas, reunido com família e amigos em volta da lareira. Eu não, eu penso nos primeiros meses, andando nas ruas que são tranquilas- todas ruas estrangeiras devem parecer muito seguras para brasileiros -, mas que não são as minhas ruas tranquilas. I cross the streets without fear/Everybody keeps the way clear/I know, I know no one here to say hello. Quando deixei de ser casada, eu descobri o quanto ter outra pessoa do seu lado é ter perspectiva. Outra pessoa é basicamente aquela companhia durante a viagem pra você apontar algo interessante e dizer: você viu? No casamento (e com as amizades muito antigas), os dois viram. Mesmo que nada seja dito em palavras, a existência de outra pessoa confirma a sua visão. E muitas das coisas que vocês viram juntos não existem mais fisicamente, seja porque todo entorno mudou ou até pessoas que foram levadas pela morte. Quanto mais avançamos no tempo, mais as coisas tendem a existir apenas nas nossas lembranças e pessoas que as compartilharam conosco ficam cada vez mais importantes.

Existem coisas que só vimos com poucos e íntimos, mas existem visões inteiras que são divididas culturalmente. Todas as pessoas que gostam dos Beatles, todas as pessoas que viram o show do Paul McCartney. Lembro de uma propaganda muito antiga onde se descobria um alien disfarçado no meio de astronautas do mundo inteiro porque a Coca-cola era uma referência em comum. A língua que compartilhamos cria uma identidade imediata. O que todos nós vimos por termos a mesma cultura, a mesma idade, as mesmas paixões? Eu lembro de estar numa balada na Espanha e tocar uma música específica que fazia todos cantarem com grandes gestos. Eu achei que fosse algum sucesso e descobri mais tarde que não, era uma música antiga e muito brega, então aquelas pessoas todas cantavam aquilo de forma irônica. É difícil não saber o básico, olhar e não ver porque, como aquela não é a sua história, você não consegue decodificar os símbolos. I choose no face to look at/ Choose no way/ I just happen to be here/ And it’s okay.

Quanto mais extrema a solidão, mais a gente percebe o quanto o olhar de reconhecimento é importante. Na falta do reconhecimento cheio de amor, serve ser conhecido de alguma forma, o importante é ser notado. Qualquer cachorro sabe que qualquer atenção é melhor do que nenhuma atenção e qualquer dono de cachorro descobre que precisa arranjar um jeito de punir seu filho peludo sem correr atrás ou gritar, porque isso apenas os estimula… Quando eu vi o filme A Rede, de 1995, que se pretendia futurista, logo achei o argumento básico furado. A personagem de Sandra Bullock é uma pessoa que trabalha online o tempo todo, então quando o governo a persegue e muda seus registros, não há ninguém que possa reconhecê-la porque nenhuma das suas interações era face a face. Hoje, ainda mais com a pandemia, é muito comum não precisar de nenhum contato face a face para trabalhar, pedir comida ou fazer amigos – mas nós fazemos questão. Nem que seja pedir comida sempre do mesmo delivery e encontrar sempre com o mesmo entregador, há uma necessidade humana de reconhecimento. Nós gostamos que o entregador veja a nossa cara, queremos ser tratados pelo nome, bilhetes escritos à mão em agradecimento nos comovem e nos fidelizam. As grandes empresas já descobriram que a melhor maneira de conquistar o consumidor é tratá-lo da mesma maneira que as pequenas, ou seja, de forma pessoal.

Mas, em termos de tempo conectados e possibilidades de falsear alguém, estamos ainda piores do que o filme poderia imaginar. Quando vejo os trabalhos de Bauman sobre relações e modernidade líquida, eles me lembram muito os trabalhos da Escola de Chicago (de sociologia e não aquela da economia) que descreviam a solidão nas grandes cidades. Tudo é muito familiar, a maneira como eles falam das pessoas andando na rua com olhares indiferentes, porque é muita gente e é cansativo e impossível ser pessoal. Há muito já encontramos diariamente mais pessoas do que um homem medieval via em toda sua vida, a novidade é o volume ainda maior de informação e contato virtual. O mundo descrito pela Escola de Chicago nos anos 20 já se estabeleceu, do mesmo modo que a liquidez descrita por Bauman, então não adianta mais lamentar o que perdemos. Então, já somos muito menos capazes de investir nas relações, nos faltam a paciência e maleabilidade das gerações anteriores que tinham duas opções de jeans na única loja do bairro – então bastava comprar um e o assunto estava resolvido, não havia outra opção possivelmente mais barata, vantajosa ou que manifestasse melhor o estilo pessoal. Para elas o casamento tinha que funcionar, os amigos precisavam ser perdoados, o emprego era aquilo mesmo, etc.

Enquanto todas as projeções apontavam para um mundo cada vez mais virtual, a pandemia deixou claro para todo mundo que imagens em tempo real e microfones são incapazes de substituir de maneira satisfatória o corpóreo. Podemos cometer a insanidade de achar que mil amigos no Facebook significa ter amigos, alimentar nossos egos através de Likes, mas a necessidade de encontrar pessoalmente não apenas não deixou de existir como se tornou um privilégio. Àqueles que queremos bem, não nos conformamos só com o virtual e queremos marcar encontros, e se for preciso até viajamos pra isso. E, sabemos, por experiência confirmada e reconfirmada, que milhares de mensagem de texto informam muito menos do que cinco minutos diante de alguém. Sabemos que digitar lindas mensagens e dizer que ama é fácil, mas que demonstrar com gestos e estar presente é outro patamar. Os videos de cachorros que latem furiosos quando separados e que se calam assim que o pequeno obstáculo é removido resume bem a internet. O anonimato e a possibilidade de ofender de maneira irresponsável têm exposto o que há de pior nas pessoas. É difícil conciliar que aquela tia de cabelo branquinho que faz blusas de tricô pros netos é a mesma que compartilha links preconceituosos de cheios de ódio. Apesar de parecer pura covardia, eu considero o fato de sermos tão mais ferozes no anônimo do que seríamos capazes pessoalmente é mínimo sinal de sanidade. Poucos de nós conseguem ser assassino à distância de um braço. Apesar de tudo, ainda é possível olhar fundo dos olhos de uma pessoa e fazê-la parar.