O óbvio

É uma semana inteira de meditação, mas o estalo que me deu foi logo na primeira que eu me sentei, nos primeiros minutos. Não foi um estalo – nunca é – ou uma sensação de uma grande descoberta. Foi algo tão ridiculamente óbvio que cheguei a mover a cabeça para os lados, inconformada. Lembrando que eu deveria me manter completamente imóvel nos próximos quarenta minutos, sentada de pernas cruzadas e olhando para a parede.

Eu comecei a meditar sozinha aos quinze anos, mesma idade que parei de comer carne, e as duas decisões não foram coincidência. Ávida leitora de livros de Yoga, eu queria seguir seriamente um caminho espiritual. Naquela época, calculei que começando tão mais cedo do que as outras pessoas, aos trinta já seria um ser tão meditativo e iluminado que já poderia ter contato com algum mestre, sem dúvida teria experiências como extases, sartoris, completo domínio dos meus pensamentos. Quase trinta anos depois, posso dizer: não tive nada. Se paro para pensar no assunto, me sinto a pior meditadora possível. Nunca tive estado nenhum, nunca consigo controlar nada. Faço lista de compras, penso no almoço, no que vou tuitar, no vizinho, cantarolo, conto o barulho dos segundos no relógio, tudo. Mas, de alguma maneira, minha mente parece gostar disso.

Comecei a frequentar o centro pouco antes da pandemia, porque meu irmão já ia. Eu queria incrementar minha meditação, depois de tantas décadas sem progresso e sem conseguir aumentar minha prática, achei que um grupo seria uma boa. Conheço várias pessoas que admiram muito a Monja Coen e eu nem ao menos sou uma delas. Não estou dizendo que desgosto, mas ver na minha TL gente dizendo que sente paz só de olhar para a foto dela é muito para mim. Assim como uma vez uma amiga desceu o pau nela, com argumentos da qual ela mesma se arrependeu mais tarde e ficou impressionada com a minha paciência: “Como eu pude falar mal da Coen justo pra você, que frequenta um centro dela! Era o caso de você ter me mandado tomar no cu.” Juro que não foi nenhuma bondade que me fez não mandar. Talvez eu devesse ser mais apegada a Coen; meu pensamento no momento que eu ouvi aquelas coisas foi de que minha amiga prejudicava apenas a si mesma – eu não iria deixar de frequentar, a Coen nem ia ficar sabendo, já ela ia deixar de ouvir voluntariamente algo que parecia estar lhe fazendo bem…

Poucos meses depois de eu começar a meditar com eles nos sábados, anunciaram um retiro de Carnaval. Eu estava muito mal naqueles dias e previa que ficar sozinha no Carnaval não seria bom pra mim. Teve uma vez que eu viajei pra uma fazenda com o Alessandro Martins, um daqueles rolês bem aleatórios, e minha motivação para o retiro foi basicamente a mesma daquela época: não quero ficar só. Então enfrentei dias de meditação, saía de casa de manhã e voltava à noite, completamente quebrada. Tem hora que a gente já sente o ciático doer só de olhar para a almofada. Decidi algumas vezes chorar e derramar minhas dores todas ali, o que fiz. Mas era tanta meditação que eu chorava, secava, ficava com o olho ardendo por causa do salgado das lágrimas e ainda estava sentada. É uma sensação bastante ridícula.

Foi no retiro que eu descobri que Buda não curtia astrologia. Repetimos várias vezes aquele que foi o último discurso dele antes de morrer e acreditam que uma das primeiras coisas da qual ele fala é que não é pra fazer mapa astral? Não nessas palavras, mas ele fala para não consultar as estrelas. Buda era indiano, várias coisas nos textos fazem referência ao hinduísmo e os budistas nem tem muita noção do que é. Falam de Indra, falam das cinco direções. Ter que repetir aquele discurso, aquele trecho, me deixava muito magoada. Se o Divino achava errado, por que me deixou sem opção? Um dos motivos para estar sentada em retiro, sentindo o coração em carne viva, era o fato de que tentei muitas coisas na vida e fracassei em todas. Estava naquela fase da vida cheia de talentos e experiências, mas incapaz de me manter, pressionada por ex-marido, sem amor, sem livro publicado, sem nada. Das minhas muitas paixões, a única que estava dando brotinhos era a astrologia, e esse pouco que o destino me permitia tinha que ser avacalhado constantemente pelo centro que eu ia? Eu não poderia fazer parte de uma crença que desprezava o que eu fazia. E é Kshatriya, que aportuguesam como Xaquiamuni. É a casta guerreira, a mesma da família Bharata, do Mahabharata.

Aí veio a pandemia. Não preciso explicar a pandemia, as muitas lives, as inúmeras reuniões de zoom, o que perdemos e o que ganhamos, disso falaremos o resto de nossas vidas. Eu já fazia parte do grupo de whats da sanga e o começo foi confuso, sem horário, tentando ver o que dava para fazer por zoom. No fim, de todas as atividades da pandemia, meditar pelo zoom é a única que eu realmente achei que funciona – talvez porque basicamente a gente já não se olha mesmo. Havia dias que meu único contato humano era a sala de meditação. De pessoa que ia lá só aos sábados, entrava muda e saía calada, acabei virando das mais participativas. Insisti num horário de meditação porque ele me era conveniente e, como apareci lá sem falhar todos os dias, o horário pegou. Meu professor começou a dizer que eu já meditava pra caramba, já havia feito retiro, participava de grupo de estudos, zoava as pessoas pelo whats, por que não assumir publicamente meu comprometimento e virar budista de uma vez? Eu dava risada, dizia que gostava muito de ser leiga, dizia que sabe-se lá que nome budista me dariam.

Agora volto a mim mesma sentada, no maior e mais importante retiro do ano do Budismo Soto-Zen, o da primeira semana de dezembro. É um retiro de uma semana, que faz referência a uma semana que Buda passou debaixo da árvore, determinado a alcançar a iluminação e só parou quando, ao ver a estrela da manhã no oitavo dia, declarou: “Eu, a grande Terra e todos os seres, juntos, simultaneamente, nos tornamos o Caminho“. Como todos os retiros ao longo da pandemia, foi on line. Há algo de sagrado quando você senta sozinho porém junto, sem olhar para ninguém mais sabendo que estão lá, mais ainda quando há pessoas do mundo inteiro com você. Eu sentei sem ter qualquer questionamento em especial, pelo menos não na minha relação com o budismo ou a meditação. Eu gostava das pessoas da minha sanga, gostava de sentar em zazen e, nessa altura da vida, nem sonho em ter do sentar mais do que acalmar minha mente. Aí a obviedade fez plec e decidi fazer os votos.

Para contar a história de uma maneira gráfica, eu me imaginei no meio da sanga de São Paulo, que é grande. Eu me imaginei vestida de preto e todos vestidos de preto, como manda o figurino. Eu de rakusu, que é o símbolo de ter recebido os votos. Quando precisasse dizer qualquer coisa, o que somos, o que fazemos, no que acreditamos, eu saberia que não era como os outros, professores, ex-católicos, espíritas. Eu me sentiria estranha porque faço mapa astral védico. Veja bem, não é que eu fazia e acreditava, não era o meu passado sujo que abandonei porque virei budista, era o meu presente. E minha relação com isso só fazia aumentar, estudando noite e dia as histórias hindus, amando cada vez mais cada planeta, tendo deuses favoritos, tentando aplicar princípios de ayurveda e remédios astrológicos, absorvendo e sendo absorvida por isso cada vez mais na minha vida. Eu me sentiria mal, eu me sentiria estranha. Mas é claro, é ÓBVIO. Eu me sentiria estranha no meio dos budistas por fazer mapa. Mas se magicamente surgisse um grande emprego, se finalmente virasse escritora, se o destino tirasse a astrologia da minha vida, eu ainda assim me sentiria estranha. Seria por um outro motivo qualquer; como numa caixa de lenços que quando você tira um o debaixo salta pra fora, outro estranhamento surgiria na frente. Eu jamais me sentaria com aquelas pessoas todas de preto sem me sentir diferente, uma farsa, uma que chegou cedo ou tarde demais, impura numa quantidade de crenças e experiências variadas que nunca combinam totalmente com quem está do meu lado. Assim como me sentia assim do lado do pessoal do flamenco, sem jamais ficar tão alegre como eles cantando e dançando nos lugares públicos, sem achar que eu tenho talento, jurando que quando me convidam pra dançar é só porque conto piadas, jamais pela dança em si. E assim foi em toda a minha vida, em todos os grupos, com todas as pessoas, e assim seria no budismo também. Eu jamais me adaptaria a lugar nenhum, eu jamais deixaria de ser um bicho estranho.

E, no entanto, apesar de achar que não faço parte dos grupos, eles me viam como parte deles e me deixavam viver coisas maravilhosas com eles. Os lugares onde eu dancei, nadei, os bastidores, as reuniões, as confidências. O carinho das pessoas, elas me verem e dizerem o meu nome e me convidarem pra entrar. Apesar de tantos fracassos, há os que insistem em dizer que me acham talentosa. Eu nunca fui totalmente de grupo nenhum, mas a culpa jamais foi deles. Eu que sou esse bicho estranho, eu que sou Rahu, eu que sou alien, eu que sou esquisita em nível hard – e tenho desenhos que fizeram de mim, tenho conversas por escrito de amigos que jamais negaram que eu sou muito estranha, mas também jamais se negaram a estar comigo por isso. Então eu me tornaria budista sim, sabendo que jamais entrarei numa sala com eles e me sentirei à vontade, que jamais serei budista o suficiente, que a qualquer momento a vida pode me levar pra outra direção e eu vou largar o tal do rakusu num canto e nunca mais pegar, porque esses movimentos nunca dependeram de mim, eu sou apenas uma marionete. Mas aceitar o que eu estava vivendo naquele momento, com aquelas pessoas, com a sanga de Curitiba da qual eu já gostava tanto, me proporcionaria experiências maravilhosas, como todas as outras experiências que tive em grupos. Como pode alguém ser tão solitária e grupal ao mesmo tempo. Como pode eu ter sido assim a minha vida inteira e isso só se mostrar óbvio agora, quando eu já estou na segunda metade.