29. Christina Oiticica e o novo Paulo Coelho conhecem uma mulher misteriosa

Eles se viram no meio da rua; talvez pela sonolência e a surpresa, nem atinavam onde estavam e para onde deveriam ir. Todos os planos de Christina Oiticica iam até a placa e resolver o problema, ela não quis nem pensar na possibilidade de não dar certo. A tristeza tomou conta deles, dos seus rostos, dos seus gestos, nos passos desanimados, nas sombras que projetavam na rua. As sombras que as ruínas projetavam eram sombras tristes, os ecos dos passos na rua eram perdidos, o ar da noite era de desesperança. Surgiu, eles não souberam localizar da onde, uma mulher muito velha e expressão bondosa. Sem dizer nada, ela fez um gesto com a mão pedindo para que eles a seguissem, e eles foram atrás dela por dentro de uma ruela escura.

A mulher virou uma ruína pra lá, uma escadinha medieval pra cá, entrou num beco e, numa rua sem saída, entrou numa portinha ao lado de uma loja de souvenires numa construção toda de pedra. Subiram um andar e a escada era de pedra e os degraus altos, desajeitados. Quando a porta da frente se abriu, deram de cara com a sala e uma ampla janela com vista para a praça. A lua estava cheia e a sala cheirava incenso. A mulher acendeu a luz, mas ela era tão fraca que foi quase como se não tivesse acendido. As paredes eram forradas de tecidos de cores intensas e detalhes bordados em dourado. Christina Oiticica e o novo Paulo Coelho sentaram em volta da mesa redonda e aguardaram em silêncio enquanto ouviam a movimentação na cozinha. Pouco tempo depois a mulher surgiu com xícaras descombinadas cheias de café com leite e algumas bolachas.

O nome dela era Tâmara. Ela lhes perguntou pouca coisa, os seus nomes e de onde eram. Achou o Brasil “tão longe”. Ela não, nasceu e cresceu naquele lugar, naquela casa. Embora estivessem os três à mesa, Christina Oiticica percebeu que era como se ela não existisse – Tâmara se dirigia somente a Paulo Coelho, que lhe correspondia com um olhar hipnotizado, absorvido. Enquanto mexia vagarosamente o café e fazia a porcelana tilintar de maneira ritmada, Tâmara então começou a lhes contar da sua mãe, que usava uma saia volumosa que se arrastava pelo chão e mal lhe cobria os pés descalços. Que o corpo da mãe cheirava a incenso e curry. De que puxava a saia para chamar atenção da mãe, que lembrava das suas mãos presas na saia, tufos de tecido entre os nós dos dedos gordinhos. O braço bronzeado da mãe sobre a mesa, a mão forte que subia e descia com a tesoura quando ela fazia roupas para as duas. Daquela mesma janela, ela via o homem passava pela rua acendendo os lampiões. A casa tão quente com o forno à lenha, os adultos que apareciam na janela para chamar quem estava na rua. O pão com alecrim. Enquanto Tâmara falava, a lua se movia lentamente no céu, criava sombras estranhas e Christina sentia suas pálpebras pesarem. Jogar frutinha nos turistas em cima da árvore. O amor, ah, o amor. O calor quando via o moço bonito esperando ela passar pra pegar água. As roupas apertadas quando os seios começaram a despontar. A mão do vizinho por debaixo da blusa, no muro que fica logo ali. O vestido de casamento reformado de presente da vizinha. Partir um pão em quatorze pedaços pra ele durar a semana inteira. Tiros de madrugada, os soldados de Franco. A vida crescendo dentro dela. Os olhos da mãe se tornando azuis.

Quando a lua completou todo seu passeio e o sol surgiu no horizonte, rasgando o céu limpo e transformando em desenhos de elefantes miúdos, padrões geométricos e flores de lis o que até pouco tempo eram pequenas manchas nos tecidos, Christina Oiticica abriu os olhos e viu de novo onde estava. Piscou, e piscou novamente tentando ajustar o olhar, tentou espantar o sono e as visões. Mas não era o sono e nem visão: as linhas em torno dos olhos e da boca de Tâmara se desfaziam suavemente, exibindo um rosto forte de uma mulher morena de lábios carnudos, enquanto Paulo Coelho perdia seus cabelos, a gordura se acumulava na barriga e suas mãos exibiam manchas senis.

 

FIM