26. Christina Oiticica procura Dom Pepe

-Você tem certeza que quer ter um marido velho de volta? Eu tive uma vez uma cliente. Mônica o nome dela, chegou a atender aqui no centro, trabalhava com terapias alternativas, muito interessada em cultura cigana, tão interessada que eu tinha que dar umas chamadas nela, dizer que não era tudo isso, que cigano tem seus defeitos também. Casou novinha, um rapaz muito bonito e de boa família. Nunca tinha feito esforço na vida, boa pessoa mas um sonhador. Ele não tinha estabilidade, ganhava muito e gastava tudo, não ganhava nada e os pais acudiam. Ela tinha sangue árabe, uma parte de vendas muito forte, trabalhava numa loja e tirava uma fortuna como comissão. Brigava com ele, queria que ele mudasse, a mãe dela pressionava muito. Até que pediu pra separar. Eu falava “não faz isso filha, é assim mesmo, a gente ajuda”. Ela não quis, queria separar de todo jeito. Era orgulho. Ela era nova, não admitia aquilo, que ela fosse a mais forte que sustentava a casa, ele tinha que colocar o dinheiro dele. Já faz quinze anos isso. Acha que ela encontrou alguém pra casar com ela depois? Hoje em dia as pessoas só querem bagunça. Hoje ela fala “Dom Pepe, eu deveria ter ouvido você”. Ele casou de novo. Ela reconhece que não era nada demais, que hoje aceitaria um homem instável financeiramente e bom marido. (Dá de ombros). Quando eu estava encarnado, não tive ninguém pra me avisar, e acho que mesmo que tivessem me avisado, eu não teria feito nada diferente. Ou quem sabe, não sei. O que me entristece não foi o que aconteceu comigo, e sim com a minha tribo, que não merecia pagar pelos meus erros. Logo depois que eu morri, Esmeralda foi levada até a mãe dela e foi presa num barraca sem qualquer contato com de fora. Emalesca disse pra tribo dela que a filha estava com uma doença muito contagiosa, por isso que não podia ter contato com ninguém. Quando Esmeralda deu a luz à nossa filha, Emalesca envolveu a menina num pano e fugiu com ela à noite, até encontrar outros ciganos que estavam passando. Ela inventou uma história e deu a menina pra eles. A Esmeralda não aguentou mais, perder a liberdade, o nosso amor e depois a nossa filha e entrou em greve de fome. Ela morreu de tristeza e inanição. Vocês gadjes ficam muito tempo trancados, passam a vida num lugar só, isso pra um cigano é a morte. Um dia um fala – Vamos para Santa Marta, Cadíz, Valencia? Não precisava mais nada, arrumava as coisas e ia. E é isso, isso era bom, pelo menos pra maioria. Alguns tinham vontade de parar. Não era todo cigano que queria dinheiro, viver era o mais importante, eles não tinham apego ao lugar. Eles não estudavam, não sabiam ler, nem iam a igreja – nem deixariam eles entrar. O mundo era a pátria do cigano. O único local que eles se importavam de ir era para Sevilla durante a feira. Estar sempre de viagem, no carroção, é um trabalho, e ora era a roda que quebra, ora o cavalo ficava doente. Dava mais despesa que outra coisa. Então alguns ciganos paravam. Dalila montou uma loja com o que hoje chamamos de artesanato e parou. Ela fazia flores. Nós e o marido dela fomos embora e ela ficou. No fim, foi bom pra ela. Depois que a Esmeralda morreu, de tristeza e fome, o irmão dela, o Ramirez, ficou inconformado e decidiu se vingar na minha tribo. Foi uma chacina. Zoraide tinha duas tranças pretas, que foram amarradas num rabo de um cavalo e mandaram o cavalo correr. O couro cabeludo foi arrancado; Juanita viu eles chegarem, tentou correr até sua barraca. Jogaram uma adaga nas costas dela, já quase entrando; Soraia: pegou uma carroça e se mandou. Chegou ao litoral, para viver sozinha. Só que ela lá no litoral, passava um gadje e a achou bonita. De tanto passar lá, quis se meter com ela. Ele a agarrou, ela lutou com ele, então ele a estrangulou e afogou. Parece que cigano nasceu pra sofrer, é destino. As ciganas que abordam as pessoas na rua não sabem o futuro mesmo. Nem toda cigana tem o dom de ver, mas toda cigana é ensinada a sua mãe a respeito do que falar. A cigana fala a chamada Bona Dita, ela mente mesmo. Mas ciganos têm poder sim. As ciganas entendem muito de chás e ervas, coisas para a saúde, são muito boas para fazer remédios. O que aconteceu com seu marido é magia cigana. Depois do que fez com o meu povo o Carlos Ramirez cometeu suicídio. Numas ruínas de Sevilla há um busto com um cigano e uma placa que relembra um massacre de ciganos que houve por ali. Eles estavam desprevenidos, morreram todos, nem as crianças foram poupadas. Procure essa placa junto com o seu marido e só assim você vai conseguir ter ele de volta.