25. Christina Oiticica leva o novo Paulo Coelho para casa

Christina Oiticica não podia negar que seu marido estava um gato, ainda mais novo e bonito do que quando eles se conheceram. A primeira atitude dele quando chegaram em casa foi querer aproveitar a cama, e eles passaram dias ardentes nela e em outros cômodos da casa – foi como uma lua de mel tardia tão quente quanto a original. Christina andava de camisola pela casa, preparava o café, observava um novo homem que agora dormia bastante estirado na cama. O novo Paulo Coelho dedilhava canções de amor no violão feitas especialmente para ela. Os vinhos da adega, acumulados durante anos, foram consumidos rapidamente madrugadas adentro. A luz vermelha do fogo na lareira, a música no último volume, projetos loucos sobre mudar o mundo, tudo no novo Paulo Coelho tinha um frescor hippie.

O cheiro, o olhar e a voz continuavam os mesmos, e Christina tinha prazer em se sentar no colo de Paulo e enrolar os dedos no seu cabelo. Mas os gestos ganharam mais inquietação, e de um dia para o outro a lua de mel terminou, como se ele tivesse apenas enjoado. Christina Oiticica retomou as suas atividades e quando cruzava com Paulo Coelho pela casa, quase podia vê-lo soltando faíscas, numa agitação furiosa que às vezes o levava a escrever, a consertar algo, correr pelo bairro. Começaram a discutir também, sempre por bobagem, e ela tinha impressão que ele tinha necessidade de descontar nela a sua agressividade por conta do tédio. Paulo Coelho passou também a ter crises de desânimo, e sentar no sofá o dia inteiro, mudar de canais sem qualquer sentido, encher a sala de migalhas. Até tênis sujo no sofá ele colocava. Mas o pior mesmo foi Paulo Coelho ter voltado a fumar, quase dois maços por dia.

Um dia Christina chegou em casa depois das compras e Paulo Coelho havia sumido. Ela passou o dia preocupada, tentou discretamente encontrá-lo em casas de amigos, e já estava na cama quando o ouviu chegar. Que cena patética foi ver seu marido com os sapatos na mão, ziguezagueando pé ante pé na sala, achando que assim chegaria muito discreto. Nunca antes ela havia precisado fazer uma cena para saber por onde ele andou, nunca antes Paulo Coelho havia tentado lhe fazer de idiota com uma mentira qualquer. Christina Oiticica achou aquilo o fim, que eles tivessem se tornado esse tipo de casal. Na manhã seguinte fez suas malas e foi sozinha para o Brasil em busca de ajuda.