4. Paulo Coelho se cansa de tanta história e tenta trazer Expedito de volta ao que interessa

– Ok, fico feliz pela sua irmã ter desenvolvido a espiritualidade dela. Mas o que é que eu tenho a ver com isso pra você vir parar aqui na minha casa, que fica a um oceano de distância da sua?

– Foi Dom Pepe.

Expedido assistiu de longe quando sua irmã passou a frequentar o centro de umbanda em Curitiba. Mesmo lá, houve resistência que ela se tornasse médium, tinham receio que ela se machucasse, porque a incorporação exige bastante fisicamente. De qualquer forma, ele ouvia os comentários em casa: Cidão que se sentia perseguida no trabalho por um chefe homofóbico se queixou a Exu Caveira, que lhe pediu uma garrafa de pinga pra dali a um mês; antes mesmo de comprar a garrafa, o chefe já havia sido transferido. Reclamou de outra pessoa, e ela do dia pra noite se tornou uma flor. Yara via na generosidade de algumas patroas o atendimento de umas demandas que ela estava precisando, como a troca do sofá e ganhar um celular novo. O dinheiro subitamente parecia render então todos viviam melhor. Expedito ficava feliz em ver a família feliz, mas não tinha vontade de ir, praticamente perdiam o sábado inteiro pra fazer essa ida e volta para Curitiba.

Expedito provavelmente jamais teria conhecido Dom Pepe se um dia Dom Pepe não tivesse vindo até eles. Estela conseguiu um emprego em casa, costurando pétalas de flores de tecido pra uma loja, e com mais esse dinheiro extra, eles puderam se mudar pra um lugar melhor. Como a mudança aconteceu perto do aniversário da Dona Tereza, Pai Gil viria visitá-la ele concordou em aparecer para abençoar a nova casa. Expedito acompanhou tudo de longe, ele achou que Dom Pepe ia abençoar e ir embora. Depois de tudo feito, deram vinho para ele, e ele se sentou no chão, perto da janela, e fumando um charutinho atrás do outro começou a conversar. Dom Pepe contou a história de um médium que ele baixava, em Salvador, que aprontava muito, traía a noiva direto. Pediram pra ele dar um esculacho no rapaz, ele desceu e disse tudo. O rapaz disse que não aceitaria sermão e que Pepe tomasse no cu. Dom Pepe disse que tudo bem, ia mesmo, aí fez o rapaz perder seu excelente emprego no banco e a noiva. Depois o rapaz chamou chamou chamou e Pepe não desceu. Foi ali que Expedito passou a gostar de Dom Pepe, porque viu que ele era um homem de verdade.

Só então Expedito começou a frequentar o Centro. Gostava dos atabaques e das músicas, mas ele agia diferente da família, que tinha muito medo e respeito por todas as entidades. Expedito as tratava de igual pra igual, como faria com gente viva. Era comum, entre uma linha de trabalho e outra, que Dom Pepe começasse a contar histórias e dar umas lições nos médiuns através delas; aquele era uns dos momentos preferidos de Expedito, Dom Pepe não era de engolir ofensa.

Em trabalho cigano com magia, Expedito sempre pedia a mesma coisa: ficar rico. Quando Dom Pepe sugeriu a Expedito que ele escrevesse um livro com as histórias dos ciganos, ele sentiu que Dom Pepe havia lido, lá do além, os seus pedidos. Durante anos, Dom Pepe contou um pouco de sua história para todos os que passaram por ele; pela primeira vez, alguém colocaria as histórias no papel. Não só no papel: Expedito anotou, imprimiu; fez as ilustrações para deixar o livro mais grosso e rondou os terreiros de Curitiba e do litoral com os livros debaixo do braço, até vender tudo. Foi com aquele dinheiro que viajou até a Suíça.