3. Expedito conta como, através da irmã, eles entraram em contato com os ciganos

No último encontro entre Dona Laura e Yara, ela estava disposta a tratar a mãe adotiva e ex-patroa com raiva, e havia passado dias ensaiando as respostas que daria. Mas Dona Laura entrou lá e muito rapidamente os seus olhos varreram a pobreza das acomodações, perguntou se Yara precisava de alguma coisa e fez um carinho muito de leve em Estela. Quando Dona Laura foi embora, sem agredir ou pedir para que Yara voltasse para casa, o que tornou o encontro muito mais triste e humilhante do que qualquer coisa que pudesse ter dito. Agora Yara entendia o que as pessoas queriam dizer quando falavam em se sentir no fundo do poço. Quando ela saiu de casa para ficar com Francisco, era pra ter uma vida melhor e não pra viver daquela maneira.

A casinha era maior que o quarto que Yara vivia antes e era bom não ter que pedir permissão cada vez que punha os pés para fora ou opinião sobre o que fazer. Mas, por outro lado, do que valia essa liberdade toda se ela não tinha para onde ir, sempre ocupada com bebê e sem ter com quem deixar. Ela nunca havia vivido também a situação de ter que se preocupar com o dinheiro da comida. Por pior que Dona Laura fosse, comida nunca faltou. Yara nunca havia vivido uma realidade onde era preciso economizar na comida, não atender o corpo o tanto que ele precisasse. Já Francisco, apesar de ganhar mal, se sentia rico vivendo ali. Ele adorou não ter que puxar o saco de moradores e ter que se preocupar em ficar arrumado. Como porteiro, ele precisava fazer a barba todos os dias e andar de calça social e camisa; agora estava sempre de roupas velhas, barba e cabelos crescidos. Trabalhava ao ar livre, não tinha horário certo, tinha muitos amigos. Dava até pra beber e jogar cartas durante o expediente. Mesmo o trabalho braçal era divertido às vezes.

Francisco passava em casa de vez em quando, dava um beijo em Yara, deixava um troco na mesa e sumia de novo. Uma vez se meteu num navio de carga e foi até os Estados Unidos, passou semanas fora. Yara não podia contar com o marido pra nada, nem contra as ratazanas enormes que passavam correndo pelo teto de madrugada. A casa tinha frestas invisíveis, provavelmente feita pelos ratos, porque dava pra sentir o vento frio mesmo com a única janela fechada. Yara morria de medo de um rato pegar as crianças, limpava o boquinha deles constantemente pra não ter nenhum resto de comida, qualquer pacote de bolacha que ela abrisse tinha que ir pra um potinho. Francisco fazia pouco caso, colocava ratoeira e veneno, mas só faltava os ratos darem risada. Eles eram invencíveis, morria um e surgiam cinco, e provavelmente já moravam ali muito antes deles. Yara e as crianças é que eram os intrusos e tinham que ir embora.

Quem ajudou Yara foi tia Cidão, uma amiga da época do orfanato que nunca foi adotada. Ela também trabalhava no porto, mas com contrato assinado, era operadora de empilhadeira. Quando Yara se mudou com os dois filhos para casa de Cidão, Francisco disse que a mulher havia “virado de lado”, que ele iria mostrar para as duas o que era bom, que apareceria na casa e pegaria seus filhos de volta, que aquilo era um golpe para exigir pensão – mas disse isso no bar, pra quem estava lá na hora, nunca chegou a dizer nada pra elas e também nunca visitou os filhos.

Foi tia Cidão quem não se conformou com Estela ficar o dia inteiro deitada, que foi atrás de muletinha de criança pra ela, que fez questão que ela também estudasse. Estela floresceu depois que foram morar com tia Cidão. Estela em pouco tempo começou a se destacar na escola, ela acordava sozinha, antes dos outros, e chorava se por acaso não pudesse ir. Estela era boa até em matemática. Tia Cidão arrumava o cabelo dela com lacinhos, e a menina começou a usar vestidos e querer estar bonita. A maior vaidade dela era o cabelo, quase liso, bem preto e volumoso. Enquanto Expedito era um menino comum, que dava trabalho pra mãe por gostar de gazear aula pra jogar futebol com os amigos, a irmã era madura, sempre atenta ao que os outros diziam, e sempre sabia parecer dizer o que a pessoa que estava triste precisava ouvir. Era a única que gostava de umas músicas só com instrumento, musicas superiores, e ela sempre estava lendo alguma coisa. De pequena dizia que não queria casar, porque homem só atrapalhava a vida da mulher e ela não queria repetir os erros da mãe. Em casa, todos tinham orgulho da Estela.

– Desde pequena Estela falava que tinha uma amiga, uma amiga que ninguém via. A amiga dela se chamava Madalena e tinha um lenço na cabeça. Só que ela dizia que o lenço na cabeça da Madalena não era igual os que a mãe usava, que os da Madalena tinham umas moedinhas penduradas. Como é que a criança ia saber disso sozinha? Ninguém em casa tinha como saber de cigano, foi a Estela que levou a gente pra aquele caminho.

Quando Estela completou 15 anos, tudo pareceu ir por água abaixo. Ela não conseguia estudar, sair da cama, não queria falar com ninguém. Era como se tivesse voltado a ser uma criança. Yara e Cidão levaram a menina ao posto de saúde e os médicos não apenas disseram que ela não tinha nada, como duvidaram quando a família disse que ela era normal e estudava. Estela estava como que apagando, ela só queria ficar encostada, não tinha prazer em falar ou fazer qualquer coisa. Desde bebê Estela ficava sorrindo e olhando para o vazio. Como diz tia Cidão, não era porque ela era boba e sim porque era especial, via dimensões que outras pessoas não viam. Se por um lado, Deus e a pobreza haviam lhe tirado a normalidade da perna direita, por outro era uma menina linda e cheia de dons espirituais.

Dentre as casas que Yara limpava, estava a de Dona Teresinha, uma senhora de mais de oitenta anos que dividia o tempo dela em Paranaguá e na casa dos filhos na capital. Yara conhecia o filho da Dona Teresinha de vista, porque ele estava sempre por ali. Quando Estela estava daquele jeito, um dia Yara foi trabalhar muito triste e Dona Teresinha perguntou o que estava acontecendo, e ela contou. Só então Dona Teresinha disse que o filho dela tinha um terreiro e perguntou se Yara queria ir, quem sabe a causa do que estava acontecendo com Estela fosse espiritual ou, mesmo que não fosse, uma ajuda espiritual nunca era ruim. Quando Yara comentou em casa que iria para Curitiba pra visitar um terreiro, pela primeira vez em muito tempo Estela manifestou uma vontade: ela queria ir junto.

O ritual começava no final da tarde de sábado e elas chegaram em Curitiba pouco depois do almoço. Pai Gil concordou em fazer o Cigano Pepe descer antes, para atendê-las. Desde que ouviu falar em ir pra Curitiba, Estela estava mudada, estava animada, Yara ficou até com medo de passar por mentirosa quando chegasse lá. Mas Dom Pepe não precisou de explicações, ele sabia de tudo só de olhar. Ele disse que Estela estava sofrendo de influência espiritual, que era a inveja no ambiente de trabalho de Cidão. Como Estela era a mais sensível da casa, pegou nela. Ele perguntou quantos anos ela tinha, e quando lhe disseram que tinha acabado de completar 15, ele disse que estava explicado também pela idade. Aquela era uma idade muito importante para quem era médium, uma idade limite. Ela podia seguir o caminho da mediunidade, assim como poderia fechar os seus canais, e aquela era a idade mais adequada. As más influências que vieram do trabalho de Cidão estavam se aproveitando disso, tentando tornar ela médium à força pra ficar a serviço de coisas ruins, mas como ela era um espírito bom, estava resistindo, por isso o cansaço constante, ela estava vivendo uma verdadeira batalha no campo espiritual. Dom Pepe e a equipe dele se encarregariam de afastar as más influências e, depois, elas poderiam conversar com o cavalo dele – Pai Gil – para marcar um dia para fazer o trancamento, que tinha que se na cruz que fica no meio do cemitério. Mas aí, quando estavam todos satisfeitos com a explicação, se sentindo protegidos pelos ciganos do centro e a menina havia tomado passe de caboclos durante a gira, Estela avisou a família: não trancaria mediunidade nenhuma.