2. Expedito conta a história da mãe e da irmã

– Pra falar do Dom Pepe eu tenho que contar da minha irmã, Estela. Ela teve poliomielite e a doença foi uma benção da gente.

Yara, a mãe deles, não gostava de falar do assunto, mas ela contava que foi adotada ainda criança por uma mulher da alta sociedade de Paranaguá chamada Laura. Como criança de orfanato, ela sabia que o tempo corria contra ela. Pra piorar, Yara sempre foi meio grande, sempre pareceu mais velha, com os olhos pequenos e as sobrancelhas cerradas, uma expressão de índia triste. Se ela fosse pequena e frágil, havia mais chance de ficarem com pena. Quando Laura apareceu no orfanato, Yara estava no parquinho com as outras crianças.  Quando chegavam adultos, geralmente casais, as crianças ficavam imediatamente atentas e agitadas. A brincadeira não era mais uma simples brincadeira, poderia ser o momento mais importante das suas vidas.

Não foi exatamente como Yara imaginava. A mulher chegou chique e não chegou a se sentar, quem sabe banco de cimento não fosse o suficiente para ela. Olhou para todas as crianças e fixou o olhar em Yara, que gelou. Não era bem isso que se esperava sentir, “gelar”. Yara lembrava de ter ouvido o termo “escurinha”. Depois daquilo a mulher nunca mais apareceu, Yara achou que a história não ia dar em nada. Até que numa manhã lhe disseram para fazer as malas porque ela havia sido adotada. Era aquela mulher chique que chamou ela de escurinha.

A estranha a esperava na porta e recebeu o abraço que Yara correu para lhe dar de forma desajeitada. Os pertences de Yara cabiam todos na mochila, que ela carregou sozinha. Laura a levou para um prédio, subiram pela escada que ficava junto da garagem, entraram pela porta da cozinha e na parte da lavanderia havia um quarto com muitas caixas de papelão e uma cama. Havia também um pequeno banheiro, com um chuveiro em cima da privada. Era ali o espaço reservado a Yara. Não era o que Yara sonhava, mas era uma casa – e com esse pensamento e a expectativa de que aquilo seria apenas o começo, ela se acomodou e tentou encarar da melhor forma possível. Yara não entendia direito o que ela era, pelo menos no começo. Depois da primeira semana que passou lá, quando Dona Laura ensinou pacientemente tudo o que esperava de Yara, ela ficou feliz quando recebeu um dinheiro para comprar doces. Quando ganhava as roupas usadas ou sorvete, achava Dona Laura a pessoa mais generosa do mundo. Mesmo quando começou a ouvir das outras crianças que ela “não passava de uma empregada”, aquilo lhe soava tão abstrato – ela realmente limpava a casa e fazia comida, mas também vivia com a família, saía junto, tinha suas coisas. Dona Laura dizia que Yara era parte da família e era assim que ela se sentia também.

Dona Laura tinha um casal de filhos e o pai das crianças viajava a semana inteira e só ficava lá nos finais de semana. Como as crianças estudavam de manhã, Yara acordava às 6h, para comprar pão fresquinho e leite e deixar tudo pronto na mesa antes de irem para a escola. Aproveitava a manhã para fazer o básico: arrumar as camas, limpar os banheiros, passar o aspirador e tirar o pó. Depois ia pra cozinha, pra deixar tudo pronto, com arroz, feijão, carne e saladas, quando dona Laura e as crianças chegassem. Depois Dona Laura partia com elas de novo, às vezes para o balé e judô, outras vezes para o inglês e terapia. Yara sempre tinha muito o que fazer, porque dona Laura não admitia que aparecesse um escurinho no rejunte, uma sujeira acumulada nas esquadrias, qualquer coisa que tivesse muito contato com mão, como maçanetas, deveria ser limpado com álcool hospitalar toda semana, sem falar nos muitos tapetes da casa, a coleção de bichinhos de cristal, as capas das almofadas. Cada vez que Yara passava pela sala, ia catando os brinquedos das crianças, pouca coisa mais novos do que ela; eles gritavam por Yara pra tudo, cresceram acostumados a não se responsabilizar por nada dentro de casa. Yara não tinha hora exata pra parar, era como se o expediente dela fosse rareando quando o sol se punha, e sua última obrigação mesmo era deixar tudo ajeitado depois do jantar. Aí ela ia pro seu quarto ver novela, na TV que ganhou de Natal – era a da sala, que eles trocaram por uma melhor. Mas como ela estava ali mesmo, se precisassem de um leitinho ou passar uma roupa que seria usada na manhã seguinte, ninguém se constrangia em aparecer na área de serviço e gritar por ela. Os finais de semana eram iguais, só que um pouco mais leve, porque não tinha mais que acordar tão tarde e a família passava quase o dia todo fora.

Na versão da Dona Laura, foi o pai do Expedito o culpado, ele que fez a cabeça da Yara contra ela. Francisco era porteiro do prédio e Yara tinha apenas dezesseis anos. No fim de ano Yara tinha comido muito panetone, as crianças e Dona Laura não gostavam dos que tinham frutas cristalizadas e deram todos pra ela. Depois de um tempo, ela estranhou que vomitava e a barriga dos panetones não diminuía. Foram quase quatro meses até que descobrisse que os encontros secretos – quase todos os dias, na escada entre os andares quando Yara ia fazer as compras, no apartamento dos porteiros quando tinham mais tempo – geraram um fruto. Um dia Yara se deitou de bruços e sentiu um segundo coração batendo dentro de si.

Dona Laura ficou louca da vida quando soube da gravidez, passou o dia gritando com todos que apareciam na sua frente, tomou aquilo como uma ofensa pessoal. Primeiro, exigiu que Yara tirasse a criança; depois voltou atrás porque a gravidez já estava muito adiantada pra um aborto. Francisco desde o começo queria assumir a mãe e a criança, Dona Laura não aceitava. Ela dizia que Yara, sua filha – bastava ver a certidão de nascimento -, tinha sido uma vítima, o nome daquilo era estupro e ela, Laura, não merecia pagar pelo resto da vida por aquele erro. Depois de nascida, a criança seria colocada pra adoção e pronto, tudo voltava ao normal.

Dona Laura nem disse isso diretamente a Yara, ela falou com Francisco que falou com Yara. O clima já estava péssimo antes, mas ela continuava trabalhando normalmente. Naquela tarde, a raiva era tanta que Yara perdeu o controle e falou tudo o que estava guardado há anos. Ela se abraçou na sua barriga, gritou, esperneou, xingou, ameaçou, tudo. Ninguém ia fazer ela abandonar uma criança, ela teria aquele filho nem que fosse para morrer de fome junto com ele. Foi para o quarto e passou a noite trancada, sem conseguir dormir e nem parar quieta, pronta para partir na manhã seguinte. As coisas de Yara já estavam todas empacotadas em duas mochilas, uma caixa de papelão e um saco de lixo, quando Dona Laura bateu no seu quarto e disse que ela poderia ter a criança, bastava não descuidar da casa. Foi pensando na criança que Yara aceitou temporariamente a oferta, mas assim que Estela nasceu, as duas e Francisco foram pra uma casinha no Porto de Paranaguá.

A casinha não ficava perto ou ao lado do Porto, ela ficava realmente no porto, quase em cima da água. Estava abandonada antes da chegada deles; antes era um antigo escritório ou ponto de venda, Yara não sabia direito, foi Francisco quem arranjou. Ele largou o emprego no prédio e agora trabalhava no porto sem ser registrado, ajudava a carregar carga, consertava coisas, serviços gerais. Não pagavam aluguel, eles viviam lá meio de favor, como uma espécie de caseiro. Yara tinha certeza que foi a proximidade do porto que fez Estela pegar a doença.

– Mas como é que a menina ficar com poliomelite pode ser uma benção?

– Porque Laura localizou os dois. Ia usar os papéis para provar que era a mãe adotiva da Yara, ia botar meu pai na cadeia e tudo mais. Não fez quando soube que a menina tinha ficado doente, e não ia servir pra ser empregada também. Aí ela sumiu da vida da minha mãe, pra sempre.

-Então foi essa a benção, ter se livrado do risco da cadeia?

-Também, senhor Paulo. É que a minha irmã é uma pessoa muito espiritualizada, um anjo que veio do céu. Foi ela que nos colocou em contato com os ciganos.