O universo dele

Durante todos esses anos eu tive medo de receber a notícia da tua morte e não chorar. Que a nossa distância física, que o convívio esporádico desde a infância e, principalmente, as nossas muitas diferenças me tornassem incapaz de sentir o que talvez exista de mais fundamental nos seres humanos: a força dos laços de sangue, o amor pelos nossos pais. Agora não preciso mais temer minha insensibilidade e a capacidade de ser uma boa filha, porque a notícia da tua morte, embora tenha demorado pra se concretizar pra mim, me atingiu em cheio.

Já você tinha medo de morrer inutilizado. Medo que o seu coração grande demais não lhe permitisse mais o prazer da praia, dos amigos, de comer lambreta, de andar pela casa, pela rua, de andar tantos quilômetros que até mesmo uma grande andarilha como eu ficava cansada. Por mais que fosse uma decisão pensada, me doía a ideia de te imaginar longe da casa que fica perto da praia, onde passei a minha infância. A casa que há anos não sabia o que era ser trancada. Também não o que eu desejava pra você. Fico feliz em pensar que nada disso foi necessário, que você teve o privilégio de morrer suavemente, que praticou seus pequenos prazeres até o fim.

Quando penso em você, a palavra que mais me vem à cabeça é absurdo. Me dói pensar que o universo absurdo que você construiu não existe mais. O acarajé barateza e sem nenhum glamour vendido por um homem na frente de um supermercado. Os carros velhíssimos, com a lataria enferrujada, mas que você sempre gostou de comprar, com segredos pra dirigir, portas que não abriam e que invariavelmente paravam de rodar. Nunca vi alguém com tanto talento pra achar lugares, inventar nomes que remetem a outras coisas e pra formar em torno de si um círculo de amigos tão apaixonados. Quantas pessoas tem mais de dois amigos que viram para a filha e falam: “eu amo muito o seu pai, amo tanto, ele é mais do que um irmão pra mim”.

O vínculo absurdo e exasperante com Salvador acaba de morrer pra mim. As bermudas floridas, os sorvetes gigantescos de uma bola, as caminhadas pela Cidade Baixa e sabe lá Deus aonde, as grandes histórias de grandes frases e blefes e pessoas variadas como a flora amazônica – mas com uma queda indisfarçável pelos mais humildes. A minha prosa não era nada perto do seu carisma, histórias muito melhores que você conhecia por ter uma capacidade muito maior do que a minha de se interessar e entreter qualquer um (“se eu tivesse metade do seu talento pra escrever…”).  Nunca mais vou entrar em bares feios, nunca mais um homem barbado e com netos virá me falar do grande amor por você. Nunca mais as festas, nem que fosse o prazer de assar uma carne pra si mesmo. Agora me restam as linhas retas curitibanas, a vida tão ordeira que eu criei pra mim.

Te amo, pai. Obrigada por tudo.

bonecos em bonfim