Aquela mesma

Conversa de vestiário, eu não estava envolvida. Uma mulher contava para a outra da relação que a filha tinha com o namorado. Uma relação séria e possessiva. Ela tentava aconselhar a filha a não levar tão à sério, não nessa idade. Porque ela foi assim, passou pela faculdade praticamente sem aprontar, cheia de nóias com o corpo, desperdiçou várias chances. Deveria ter dado, distribuído. Nessa parte da conversa eu estava no reservado, no trono, e quase gritei de lá:

– Eu dizia a mesma coisa. Que desperdicei oportunidades, que tinha nóias imensas com meu corpo e nem sei de onde eu tirei. Que se tivesse a segurança de uma adulta, faria diferente. E quando me vi adulta e sozinha, agora, não faço nada diferente. Estou apenas mais velha, mas ainda sou aquela mesma que detesta balada, que não percebe interesse dos outros, que precisa de envolvimento emocional.

Aí pensei que talvez eu seja a única. Sou a única que faz o que eu faço, ou melhor, o que eu não faço. Que as mulheres na minha idade descobrem o quanto isso de idade é importante para eles, que insistem em achar que beleza é só o viço dos vinte. Elas lutam, que vão para balada, que colocam silicone, que se adaptam e aprendem a não quererem mais namoro. Que eu nem ao menos pinto o cabelo. De tanto fazer o que me é cômodo, me descobri a pessoa menos adaptável que eu conheço. Há uns dez anos um astrólogo me disse que eu tinha complexo de Peter Pan e na hora não fez sentido, assim como na hora nem eu mesma ler um mapa astral faria sentido. Quem sabe eu ainda me comporte como me comportava na juventude não porque continuamos sendo sempre o que éramos e sim eu, EU. Teimosa, Peter Pan.

Saí do reservado e fui direto pra minha aula.

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